Lado a lado: da Revolta da Vacina ao racismo no futebol brasileiro

Não sou um grande fã de novelas (a não ser que seja Gabriela), mas tenho que reconhecer que as brasileiras são um de nossos grandes produtos culturais de exportação. Para ter uma ideia, basta dizer que A Cor do Pecado foi vendida para 100 países.

Recentemente, tem chamado minha atenção como a novela das seis da Globo, “Lado a lado” tem abordado com muita felicidade temas relacionados à história brasileira. Do fim da Monarquia ao surgimento das favelas, da abolição da escravidão às revoltas da vacina e da chibata, a novela tem sido um importante instrumento de resgate de fatos históricos do fim do séc. XIX e início do séc. XX. Nos últimos capítulos, foi mostrado um episódio dos primórdios do futebol brasileiro. Em um jogo treino, a bola saiu do campo e foi parar nos pés de um negro, que aproveitou para mostrar seu talento. Impressionados, os jogadores até cogitaram: “Que tal se o convidarmos para o nosso team?” Em resposta, os demais bradaram: “Como??? Um negro??? Jamais!!!!” Quando vi a cena, disse a minha esposa: “Aposto que vão falar do episódio em que um jogador do Fluminense teve que pintar a cara com pó-de-arroz para poder jogar e não ser discriminado por ser negro”. Dito e feito. Foi isso mesmo que foi retratado na novela.

O racismo no futebol brasileiro sempre existiu, mas era imensamente maior no início:

“Antigamente, o futebol era um esporte que poderia ser praticado somente pela elite, negros e pobres não podiam jogar futebol, simplesmente por serem negros e pobres independentes se jogassem bem ou não.
Em 1923, uma equipe considerada pequena, que acabara de ser promovida a primeira divisão, conquistou o campeonato carioca. Como se isso não bastasse para provocar a ira dos aristocráticos clubes grandes, o campeão era formado por trabalhadores de origem humilde, brancos, negros e mulatos, sem dinheiro nem posição social. Este campeão era o Vasco da Gama.
Naquela época, o racismo imperava no futebol brasileiro. Em 1921, era debatido se jogadores de cor deveriam ser convocados para os importantíssimos confrontos entre a seleção brasileira e a da Argentina.
Como vingar-se do atrevimento do Vasco? Os clubes aristocratas reuniram-se e deliberaram excluir jogadores humildes, sob a alegação de que praticavam o profissionalismo. Numa sessão realizada na sede da Liga Metropolitana, Mário Polo, o presidente do Fluminense, apresentou as condições impostas aos chamados pequenos clubes. Estes teriam que apresentar condições materiais e técnicas e eliminar de seus quadros sociais jogadores considerados profissionais, constantes de uma lista que foi lida no momento.
A confusão e as vaias explodiram no recinto ao término da exposição feita por Mário Polo.Finalmente usou da palavra Barbosa Junior, do S.C. Mackenzie, representante dos chamados pequenos clubes, condenando o racismo dos grandes clubes, uma vez que os jogadores atingidos eram apenas os mulatos rosados do Vasco, Bangu, Andaraí e São Cristóvão, sendo o Vasco o mais prejudicado de todos. Os arianos do Fluminense, Botafogo, Flamengo e América nem de leve foram tocados.
Os aplausos calorosos da enorme assistência a Barbosa Junior deixaram a Mário Polo desapontado. A confusão foi de tal ordem que a sessão foi suspensa por dez minutos, durante os quais Mário Polo e Ari Franco, o representante do Bangu, retiraram-se juntos para uma das salas onde conversaram secretamente. Vendo seus planos irem por água abaixo, os clubes grandes decidiram que se afastariam da Liga Metropolitana, formando uma nova entidade, a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos. Estava decretada a cisão do futebol carioca. Mário Polo e seus comparsas calculavam que os chamados pequenos clubes ingressariam cabisbaixos e humilhados na nova entidade, submetendo-se às suas regras discriminatórias. Bangu e São Cristóvão, que possuíam jogadores atingidos pelo racismo, confirmaram as expectativas dos grandes. Os demais fatalmente seguiriam essa opção, não fora a atitude desassombrada do presidente vascaíno Dr. José Augusto Prestes e da diretoria do Vasco, enfrentando com galhardia a campanha racista, apoiado pelos outros pequenos clubes.
Um ofício assinado pelo presidente do Vasco foi enviado a Arnaldo Guinle, presidente da AMEA, declarando publicamente que negava-se a participar da nova entidade.
Recentemente, o Clube de Regatas Vasco da Gama lançou um terceiro uniforme relembrando sua história e colaboração para o futebol. Essa camisa traz os seguintes lemas: “Democracia e Inclusão” e “Respeito e Igualdade”.”
http://www.pretobranco.xpg.com.br/Racismo%20no%20esporte.html

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