Império Serrano: a escola de samba de minha infância

Com o carnaval chegando ao fim, passam a ocupar grande espaço na mídia as apurações dos desfiles das Escolas de Samba no Rio e em São Paulo. Confesso que já faz mais de 20 anos que não acompanho o desempenho das escolas de samba. Isto pertence a uma parte de minha vida que ficou na minha infância e adolescência. Mas há um bom motivo para isto acontecer: minha escola predileta há muito deixou de brilhar. Estou falando do Império Serrano.

Você pode estar se perguntando porque torço pela citada escola, logo quando existem tantas outras mais famosas e vencedoras como a Mocidade, a Imperatriz, a Portela, a Mangueira, a Beija-Flor ou o Salgueiro. Primeiramente, aos mais novos e aos desavisados, gostaria de dizer que o Império Serrano, ainda que não esteja brilhando nos últimos anos, faz parte de grupo seleto das escolas mais tradicionais do RJ, tendo sido campeã do grupo especial em nove carnavais (o último foi em 1982).

Exatamente no citado ano, lembro que comecei a torcer pelo Império (mesmo ano em que passei a torcer pelo Vasco, que foi campeão carioca sobre o imbatível Flamengo de Zico e cia).

Talvez não seja só uma coincidência eu ter escolhido meu time e minha escola de samba prediletos no mesmo momento (anos de títulos). Por coincidência (ou não), escolhi um time de futebol e uma escola de samba bem suburbanos, com muita tradição, que não são os mais badalados, com pouco dinheiro, que faz bonito, mas muitas vezes chega em segundo (o Império tem 11 vice-campeonatos).

Em 1982, o Império foi campeão com um samba-enredo maravilhoso “Bumbum Praticumbum Prugurundum”, que ficou imortalizado.

Lembro também do carnaval do Império Serrano de 1987, com o famoso “quem não se comunica, se trumbica e como fica, fica na saudade fica”. Mas certamente o samba-enredo que mais me marcou foi “Eu quero” (1986):

Eu quero, a bem da verdade
A felicidade em sua extensão
Encontrar o gênio em sua fonte
E atravessar a ponte
Dessa doce ilusão

(Quero, quero, quero sim)

Quero que meu amanhã, meu amanhã
Seja um hoje bem melhor, bem melhor
Uma juventude sã
Com ar puro ao redor (bis)

Quero nosso povo bem nutrido
O país desenvolvido
Quero paz e moradia
Chega de ganhar tão pouco
Chega de sufoco e de covardia

Me dá, me dá
Me dá o que é meu
Foram vinte anos
Que alguém comeu (bis)

Quero me formar bem informado
E meu filho bem letrado
Ser um grande bacharel (bacharel)
Se por acaso alguma dor
Que o doutor seja doutor
E não passe de bedel

Cessou a tempestade
É tempo de bonança
Dona liberdade
Chegou junto com a esperança (vem, meu bem)

Com a adolescência chegando, passei a ter menos “tempo” para assistir aos desfiles das escolas de samba (preferia ver o desfile das meninas na praça da igrejinha da Barra de São Miguel).

Além do fato acima, como o Império deixou de disputar o título do grupo especial, que reúne as escolas com maior capacidade financeira, mantive-me fiel e acabei não escolhendo outra para torcer. Aconteceu algo semelhante em minha vida quando o Ayrton Senna morreu: perdi meu interesse pela Fórmula 1.

Espero um dia voltar a acompanhar um desfile da escola de minha infância, de repente ao lado de meu filho, que de repente também será torcedor da escola da Serrinha.

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