Pouco conhecido pelos alagoanos, o hino do Estado de Alagoas é belíssimo. Peço perdão, sou suspeito, mas é a minha mais legítima opinião. No hino, Alagoas não é o lugar do qual nós mesmos, alagoanos, tanto falamos mal. No hino, Alagoas é a estrela radiosa que refulge ao sorrir das manhãs.. É a maga estrela entre as estrelas irmãs…É a alma pulcra dos nossos avós….e aos teus pés os rosaes vêm florir….

Não sou alienado, nem tão pouco cego à realidade alagoana, a seus inúmeros problemas que vêm se mantendo a séculos.  Sou crítico de nossas mazelas, de nossa classe política, de alguns nossos costumes opressores, de nossa baixa auto-estima. Mas também reconheço nossas qualidades, nosso potencial, os inúmeros pontos positivos de viver nesta terra abençoada. Sei que o alagoano tem uma alma bonita, até mesmo pulcra (vide significado abaixo, no glossário), como diz o hino. O que nos falta, só nós podemos conseguir.

É verdade que tem havido uma sensível melhora na divulgação do hino do Estado (aliás, muito obrigado a Eliezer Setton por levar o hino em todos os seus shows e apresentações), mas certamente nossos pais e avós tiveram muito mais contato com o hino que a atual geração. Por que não ensiná-lo nas escolas? Por que não divulgá-lo nas campanhas de publicidade oficial?

Considero que todo alagoano deveria conhecer o hino do Estado e se orgulhar de nossas raízes. Particularmente, fico emocionado sempre que o ouço, em especial, em cerimônias oficiais.

Vale lembrar que o hino foi composto em 1894, no governo de Gabino Besouro, e houve um concurso para escolha do mesmo.

Antiga bandeira de Alagoas (entre 1894/1963)

Aproveito para expor o significado de algumas palavras:

Pequeno glossário do hino de Alagoas

Donosa: elegante, graciosa, gentil
Pulcra: formosa, bela
Fulgir: brilhar, resplandecer
Hosana: Aclamação, vivas, exclamação em honra de alguém
Ovante: triunfante, jubiloso
Sus: interjeição, usa-se para incitar ou animar, significando Eia!, Coragem!, Ânimo!, Acima: Sus, amigos, chegou o momento!
Troar: trovejar

Hino de Alagoas

Letra: Luiz Mesquita
Música: Benedito Silva

Versão mais curta:

Alagoas Estrela Radiosa
Que refulge ao sorrir das manhãs,
Da Republica es filha donosa
Maga estrela entre as estrelas irmãs.

Alma pulcra de nossos avós
Como benção de amor e de paz.
Hoje paira a fulgir sobre nós
E maiores, mais forte nos faz.

Tu liberdade formosa,
Gloriosa hosana entoas.
– Salve, ó terra vitoriosa,
– Gloria à terra de Alagoas. (BIS)

Salve, o terra que entrando no tempo
Calma e ovante da industria te vaz;
Dando as tuas irmãs este exemplo
De trabalho e progresso na paz.

Sus, os hinos de gloria já troam.
A teus pés os rosaes vêm florir
Os clarins e as fanfarras ressoam,
Te levando em triunfo ao porvir.

Tu liberdade formosa,
Gloriosa hosana entoas.
– Salve, ó terra vitoriosa,
– Gloria à terra de Alagoas. (BIS)

Versão completa:

Alagoas, estrela radiosa,
Que refulge ao sorrir das manhãs,
Da República és filha donosa,
Magna Estrela entre estrelas irmãs.

A alma pulcra de nossos avós.
Como benção de amor e de paz,
Hoje paira, a fulgir sobre nós,
E maiores, mais fortes nos faz.

Tu, liberdade formosa,
Gloriosa hosana entoas:
Salve, ó terra vitoriosa!
Glória a terra de Alagoas!

Esta terra quem há que idolatre-a
Mais que os filhos que lhe são?
Nós beijamos o solo da Pátria
Como outrora o romano varão.
Nesta terra de sonhos ardentes,
Só, palpitam, como alma de sóis,
Corações, corações de valentes,
Almas grandes de grandes heróis!

Tu, Liberdade formosa,
Triunfal hosana entoas:
Salve, ó terra gloriosa!
Berço de heróis! Alagoas!Ide,
algemas que o pulso prendias
Desta Pátria, outros pulsos prender.
Nestes céus, nas azuis serranias,
Nós, só livres, podemos viver.
E se a luta voltar, hão-de os bravos
Ter a imagem da Pátria por fé.
Que Alagoas não procria escravos:
Vence ou morre!…Mas sempre de pé

Tu, Liberdade formosa,
Ridentes hinos entoas:
Salve, ó terra grandiosa
De luz, de paz, Alagoas!
Salve, ó terra que, entrando no templo.
Calmo e ovante, da indústria te vás;
Dando as tuas irmãs este exemplo
De trabalho e progresso na paz!

Sus! Os hinos de glórias já troam!…
A teus pés os rosais vêm florir!…
Os clarins e fanfarras ressoam,
Te levando em triunfo ao porvir!

Tu, liberdade formosa,
Ao trabalho hosanas entoas!
Salve, ó terra futurosa!
Glória a terra de Alagoas!

A seguir,  para entender o hino de Alagoas, o texto de Golbery Lessa (http://pcbalagoas.blogspot.com.br/2012/02/alma-pulcra-o-hino-de-alagoas.html)

“Alma pulcra de nossos avôs”, eu ouvia pelos alto-falantes, numa fila ao sol, e cantava com as outras crianças as partes mais fáceis de lembrar, como “Tu, liberdade formosa, gloriosa osana entoas”. Quando a suprema madre vinha da Gália visitar o seu “departamento francês de ultramar”, em plena ditadura, a bandeira brasileira, tal qual mortalha, subia ao mastro ladeada por duas de iguais cores, apenas em seqüência diferente, como quis Téo Brandão: as flâmulas da França e das Alagoas. Mesmo sendo liberais conservadoras em Paris, as líderes da congregação percebiam a ironia suspensa no ar nos minutos nos quais La Marseillaise flutuava pelo casarão e ruas próximas. Talvez fosse ouvida lá embaixo, no Palácio Floriano Peixoto. Por mero acaso, o colégio contestava a ditadura e ia formando revolucionários.
Sem ter a grandiosidade da bélica canção francesa, o hino alagoano tem uma das mais belas melodias entre às dos hinos estaduais, não chafurda no militarismo ou no bairrismo e é surpreendentemente lírico (“Aos teus pés os rosais vêm florir”). Ricardo Ramos narra seu pai “cantando”, em tom de galhofa, nos anos 1940, o hino estadual nas reuniões com os amigos. Isso ocorria principalmente quando identificavam com precisão, numa conversa, um traço típico da cultura alagoana. Graciliano não ouvia música e era incapaz de qualquer afinação. Sequer sabia quem era Orlando Silva, o cantor mais popular da época. Opusera-se ao hino, em meados dos anos 1930, certamente para resistir à onda na qual fascistas, integralistas, liberais e stalinistas tentavam militarizar as crianças e a vida inteira. O mestre tem razão sobre a presença de cochilos gramaticais na letra, mas não sobre a melodia e mesmo sobre algumas das imagens propostas.
O hino e a primeira bandeira (substituída em 1963 pela atual, inventada por Téo Brandão) foram compostos e tornados oficiais em 1894, no governo de Gabino Besouro, um dos primeiros da república. Ambos expressam uma Alagoas mais progressistas e plural. O estado vivia uma circunstância histórica complexa, algo demonstrado pelo fato o Barão de Traipu, o governador anterior, líder da oposição, e algumas das principais críticas ao governo virem da região do Baixo São Francisco, liderada pela próspera cidade de Penedo. O próprio Gabino Besouro era um político nascido e criado no agreste algodoeiro e não no litoral. O clima de complexidade econômica da época ficou gravado na primeira bandeira alagoana.
Aquela primeira bandeira procurou os símbolos mais próximos à modernidade e ao progresso, nos moldes do século XIX, relegando referências agrícolas ou medievais para um segundo plano. O trem de ferro, o barco a vapor e a Cachoeira de Paulo Afonso, referência à eletricidade (que começaria a ser aproveitada em 1904, por Delmiro Gouveia), estão no centro do escudo, enquanto a cana e o algodão estão na parte inferior, como coadjuvantes.
O mesmo sentimento modernista está presente no hino de Alagoas. O trabalho e a indústria são exaltados como valores supremos, apesar dos preciosismos parnasianos e das imagens poéticas românticas. Surpreendentemente, talvez o próprio Quilombo do Palmares chegue a ser referido nesse trecho: “Nestes céus, nas azuis serranias, nós só livre podemos viver”. Algo também importante é o fato de que a música do hino foi escolhida em concurso público, uma das instituições inspiradas nos ideais republicanos. O maestro Benedito Silva, homem negro e pobre, venceu por aclamação popular o concurso realizado na Praça D. Pedro II. Luiz Mesquita colocou a letra. Ele já tinha composto com o mesmo parceiro o hino da Sociedade Montepio dos Artistas, uma das primeiras associações operárias alagoanas.
A população presente às provas do concurso musical carregou Benedito Silva nos ombros e ele foi obrigado a solar, sobre um palanque, no seu inseparável sax, a melodia do novo hino. Uma das cenas ímpares na história local.
A Alagoas contemporânea está decadente, até infame, se quiserem. Nossa alma atual não é pulcra, não é bela, não é nobre. Mas ninguém luta por aquilo que não ama”.
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