Em julho de 1993, ou há exatos 20 anos, os Engenheiros do Hawaii estava lançando mais um álbum (Filmes de guerra, canções de amor), gravado ao vivo e em formato acústico (Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro).

Dentre as músicas do álbum, gosto muito de regravações como Muros e Grades, Além dos Outdoors e Crônica. Todavia, para mim, as melhores músicas deste álbum fantástico são duas inéditas e gravadas em estúdio: “Às vezes nunca” e “Realidade virtual”. Nelas, Gessinger abusa da arte de sugerir, nunca afirmar; de fazer as pessoas pensarem, a fim de que cheguem as suas próprias verdades. Em “Às vezes nunca”, traz pérolas como: “Às vezes não entendo onde você quer chegar quando ficar parada…” ou “Às vezes não entendo o que você quer dizer quando fica calada…”, “É como ficar esperando cartas que nunca vão chegar, não vão chegar com X, nem vão chegar com CH”.

Em “Realidade virtual”, trata da questão da fé de forma sutil, dando a cada o direito de tê-la ou não, mas lembrando que “viver não é preciso e nem sempre faz sentido, é preciso muito mais fé cega e pé atrás”. Gessinger é, de fato, um dos grandes poetas da música brasileira.

Segue abaixo a letra de Realidade Virtual e vídeo, gravado durante turnê no Japão, para você curtir:

Realidade virtual (Humberto Gessinger):

É preciso fé cega e pé atrás
olho vivo, faro fino e… tanto faz…
é preciso saber de tudo e esquecer de tudo:
fé cega e pé atrás

tá legal, eu desisto: tudo já foi visto
olhos atentos a qualquer momento: é preciso acreditar
tudo bem, eu acredito: tudo já foi dito
olhos atentos a todo movimento: é preciso duvidar
viver não é preciso e nem sempre faz sentido
é preciso muito mais fé cega e pé atrás

a neblina encobre o cristo e a lagoa se ilumina
com edifícios de cabeça pra baixo e refletores do jockey club
na outra janela o sol sempre brilha
o risco é calculado: videoguerra, vídeoreinodoscéus

é preciso fé cega e pé atrás
olho vivo, faro fino e… tanto faz…
é preciso saber de tudo e não pensar em nada
fé cega e pé atrás