Nos últimos tempos, bilhões de reais já foram e ainda estão sendo gastos na reforma e construção de estádios de futebol no Brasil. Detalhe: boa parte destes recursos vem do orçamento público, o que leva milhares de pessoas a questionar, inclusive nas ruas, se tais investimentos são adequados e/ou prioritários.

Há quase 90 anos, foi construído no Brasil um estádio que nasceu diante de uma exigência que, no fundo, tinha embutida um grande preconceito. Explico: na década de 20, o futebol carioca era dominado por três clubes da elite do Rio de Janeiro: Fluminense, Botafogo e Flamengo, todos situados na zona sul da Cidade Maravilhosa. Contra a corrente, surge o Vasco, clube da periferia criado por pequenos comerciantes portugueses e luso descendentes e que contava com jogadores operários, analfabetos, negros e mulatos. Isto causou muita indignação, já que o futebol era um esporte elitista, com toda sua origem inglesa. Em 1923, em seu primeiro ano na 1ª divisão, conquista o campeonato carioca, causando grande revolta dos clubes tradicionais, que só tinham jogadores bem nascidos e brancos:

“Após a tentativa fracassada de ver o Vasco da Gama fora da competição em 1923, os clubes da zona sul (área de elite da cidade do Rio de Janeiro), BotafogoFlamengo,Fluminense e alguns outros clubes encontraram a solução para se verem livres dos vascaínos no ano seguinte. Assim, se uniram, abandonaram a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), deixando de fora o Vasco, que só poderia se filiar à nova entidade caso dispensasse doze de seus atletas (todos negros) sob a acusação de que teriam “profissão duvidosa”. Diante da situação imposta, em 1924, o presidente do Club de Regatas Vasco da Gama, José Augusto Prestes, enviou uma carta à AMEA, que veio a ser conhecida como a “resposta histórica”, recusando a se submeter à condição imposta e desistindo de filiar-se à AMEA. A carta entrou para a história como marco da luta contra o racismo no futebol.

Cquote1.svg Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.
Ofício nr. 261
 
Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle

M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos


As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.

Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.

Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.

Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.

São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.

Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.

Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado.

(a) Dr. José Augusto Prestes.

Presidente (fonte: wikipedia)

Em nova tentativa de excluir o Vasco do futebol carioca, passou-se a exigir que o time tinha que ter um estádio. Veja o que aconteceu:

Segundo o wikipedia:

“Nos primeiros anos do futebol no clube, o Vasco usou como estádio o campo do Andaraí, que depois se tornou campo do América, que numa permuta cedeu o terreno para construção do Shopping Iguatemi. Desde a ida para a primeira divisão, em1923, a diretoria vascaína já traçava planos para a construção de um estádio próprio. Contudo, a ideia só foi levada mesmo a cabo após a criação da AMEA.

Um dos motivos argumentados para a não inclusão do Vasco na nova liga era a falta de um estádio próprio. Por este motivo, foi-se então dado o pontapé para a construção de São Januário. Começava ali uma campanha intensa de arrecadação de verbas.

Em pouco tempo foram arrecadados Cr$ 690.895,00,5 o suficiente para a compra de uma grande área em São Cristívão, de 65.445m². Feito isso, foram arrecados mais aproximadamente Cr$ 2.000,000, que puderam construir o estádio.6

A Pedra Fundamental foi dada em 6 de junho de 1926, quando da assinatura do prefeito do Distrito FederalAlaor Prata. Para a construção foi chamada a firma Cristiani & Severo. O arquiteto português Ricardo Severo foi nomeado responsável pelo projeto do estádio7 .

Durante a construção, um problema: presidente da RepúblicaWashington Luís se negou a autorizar a importação de cimento belga – já utilizado no Jockey Club. Sem aquele tipo de cimento, necessário para uma obra daquele porte, foi-se usada uma solução criativa e útil: uma mistura de cimento, areia e pedra britada. Estima-se que pelo menos 6.000 barris de cimento e 252 toneladas de ferro foram usadas na obra.

Dez meses depois, o Estádio era inaugurado, com a presença de Washington Luís para se tornar o maior estádio do mundo novo. Até 1930, quando da inauguração do Estádio Centenário em Montevidéu (para a primeira Copa do Mundo), era o maior das Américas. Até 1940, quando da inauguração do Pacaembu em São Paulo, o estádio era o maior doBrasil, e até 1950, na inauguração do Maracanã, era o maior do Rio de Janeiro. Após mais de 80 anos desde sua inauguração, este templo do futebol continua sendo o maior estádio particular do estado.

No jogo inaugural, dia 21 de abril de 1927, uma partida contra o Santos, potência paulista da época. O gol inaugural do estádio foi feito pelo santista Evangelista, aos 20 minutos do primeiro tempo. O primeiro gol vascaíno foi marcado pelo jogador Negrito aos 23 minutos do primeiro tempo. O Santos ganhou de 5 a 3, com dois gols de Evangelista, Feitiço, Omar e Araken Patuska.

Antes da partida houve várias solenidades, culminando com o corte de uma fita simbólica pelo aviador português Sarmento de Beires, realizador da travessia Lisboa-Rio comandando o avião Argos.

Em março de 1928 foram inaugurados os refletores e a arquibancada atrás de um dos gols. O jogo foi contra o time uruguaio Wanderers. O Vasco venceu por 1 a 0, com um gol do ponta-esquerda Santana, em um chute direto do escanteio.

O primeiro jogo da Seleção Brasileira no estádio ocorreu em 15 de janeiro de 1939, pela Copa Rocca. O Brasil perdeu de 5×1 para os rivais argentinos. O primeiro gol brasileiro foi feito por Leônidas da Silva, o Diamante Negro, que tinha jogado no Vasco cinco anos antes.

Também neste estádio foram jogados as finais da Libertadores de 1998 vencida pelo Vasco da Gama, da Copa do Brasil de 2005 vencida pelo Paulista-SP, além da primeira partida da final da Copa do Brasil de Futebol de 2011vencida pelo Vasco da Gama.

O Vasco da Gama manda seus jogos no Estádio de São Januário. O clube utiliza o Maracanã apenas em jogos de grande importância, e também os clássicos contra seus três rivais da cidade.

No dia 20 de maio 2007, o atacante Romário marcou o seu milésimo gol, na partida entre Vasco da Gama e Sport Recife.

O maior artilheiro de São Januário é Roberto Dinamite, também maior artilheiro vascaíno, com 184 gols marcados no estádio. Logo em seguida vem Romário, com 152 gols, e Ademir Marques de Menezes, com 94 gols

Ficheiro:Itália e Fausto pelo Vasco em São Januário.jpg

Brasil e Argentina em 1939