Começo este post com uma pequena estória:

Aos 70 anos, com a aposentadoria compulsória, Nise foi obrigada a se afastar do Museu, que na ocasião corria sério risco de desativação. Como mulher aguerrida e profissional zelosa, temendo um fim desastroso para aquele espaço, no dia seguinte à aposentadoria compulsória apresentou-se no hospital, no Museu, e, ao ser indagada sobre o motivo de sua presença, respondeu resolutamente: “Sou a mais nova estagiária“. (in Gogó das Emas. A participação das mulheres na história do Estado de Alagoas, p. 77).

No título deste post, falo que ele se trata de um tributo a “maior” alagoana de todos os tempos. Como definir a importância de um ser humano? Como se pode afirmar que alguém é grande? Ou o “maior”? Antes de tudo, penso que todos somos igualmente importantes, pois temos igual valor e dignidade. Todavia, não há dúvidas que algumas pessoas têm uma vida de maior dedicação a causas alheias, contribuindo de forma mais marcante para o bem estar da sociedade em que vive ou mesmo de toda a humanidade.

Neste contexto de viver por um ideal, o que Nelson Mandela vem fazendo pela humanidade, especialmente pela causa da igualdade racial na África do Sul, é um grande exemplo de alguém que se pode chamar de grande.

Como já demonstramos aqui mesmo neste blog, em outra oportunidade (https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/02/27/cronica-de-um-desagravo-alagoano/), o Estado de Alagoas tem visto nascer grandes homens e mulheres, que, de distintas formas e em diferentes setores, dedicaram suas vidas a ideais valorosos, como a liberdade (Zumbi dos Palmares), igualdade (Arthur Ramos), justiça (Pontes de Miranda) ou a probidade (Graciliano Ramos). Todas estas figuras fazem parte do que melhor existe na sociedade brasileira, não por seu berço, mas por suas trajetórias. Neste seleto grupo, deve ser incluída Nise da Silveira, aquela que, aos 70 anos, no final de sua carreira no serviço público, resolve ser estagiária para não abandonar sua causa de toda uma vida.

O que torna Nise grande? Ou mesmo “a maior”? Acho que não faltam razões, mais destaco uma: Nise se preocupou com aqueles que ninguém se preocupava. Ela não esqueceu os esquecidos. Não abandonou os abandonados.

Sua vida é riquíssima: estudou em um turma de Medicina onde ela era a única mulher; foi presa, acusada de ser comunista (permanece presa por 15 meses, onde trava amizade com seu conterrâneo Graciliano Ramos); desafiou dogmas da ciência, inovando o tratamento de pessoas com distúrbios mentais; foi empreendedora, criando instituições até então não pensadas; lutou contra tudo e contra todos que não aceitavam seus métodos humanizadores; foi reconhecida nacional e internacionalmente por suas pesquisas, sendo considerada uma das grandes cientistas e médica psiquiatra do Brasil e do Mundo no século XX.

Sobre Nise da Silveira já se disse:

Confesso que ao ser convidada para escrever sobre essa grande mulher, a qual admiro profundamente, fiquei receosa, pois seu legado é tão incrível que em poucos parágrafos não sei se conseguirei passar um pouco da imensidão que ela representa. Quem foi e qual a importância da Drª Nise da Silveira? Esse breve texto não conseguirá abranger a dimensão de sua belíssima trajetória de vida, mas abrirá um horizonte para os novos admiradores dessa guerreira irem em busca de mais informações sobre suas obras.
Uma das maiores brasileiras de todos os tempos, reconhecida internacionalmente e, paradoxalmente, tão desconhecida do grande público de seu país, Nise iluminou muitas vidas que viviam encarceradas na escuridão da psique, como dos reformatórios psiquiátricos do inicio do século XX. Nise da Silveira nasceu em Maceió em 15 de fevereiro de 1905. Graduou-se em Medicina em 1926, sendo a única mulher a se graduar entre os 156 alunos. Essa pequena e, aparentemente, “frágil” mulher era uma guerreira que ultrapassou todos os limites de seu tempo, pois rompeu com o paradigma vigente da psiquiatria de sua época ao humanizar o tratamento da loucura. Em uma realidade em que o sistema médico enxergava os loucos como “coisas”, visto que a própria sociedade os marginalizavam a total indigência, sendo encarcerados em asilos psiquiátricos, completamente esquecidos e largados a própria sorte, sem direitos e sem nenhum tipo de cidadania, sofrendo “torturas” (eletrochoques, lobotomia, choque de insulina etc.) que na época era visto como tratamento para os transtornos mentais. A chegada de Nise no Centro Psiquiátrico Pedro II foi bombástica, visto que a médica recusou-se a usar os métodos de tratamento usuais vigente da psiquiatria clássica, devido a sua postura “abusiva”. Por este motivo foi deslocada para um setor abandonado e ignorado pelos médicos do hospital, a terapia ocupacional. Sendo que de terapêutica não tinha absolutamente nada, quando muito dos doentes eram tratados como serviçais. Nise, neste momento, deu o seu pontapé inicial para a revolução no tratamento da loucura que levou seu nome para os quatro cantos do mundo. O sombrio abandono e silêncio das alas psiquiátricas foram substituídos pela valorização da convivência e respeito ao ser humano fragilizado, que vivia em condições alarmantes. Nise iniciou esse processo, orientando todos os profissionais que trabalhavam ao seu redor sobre a importância do contato amoroso com estas pessoas especiais, que passavam por dois grandes sofrimentos: a ruptura com a realidade e a total discriminação, tanto no meio social como no hospitalar. Ela mudou completamente a concepção de acolhimento aos doentes, abriu ateliês para diversos tipos de atividades artísticas (teatro, pintura, música, modelagem etc.), como meio de trabalhar as manifestações do inconsciente de seus queridos internos. Assim, foi fundando oficialmente a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação – STOR (1946); como consequência das obras que emergiam do inconsciente para o plano das artes, nasceu o Museu de Imagens do Inconsciente, em 1952. Por esse maravilhoso trabalho, Nise ganhou notoriedade internacional, atraindo também a atenção do grande Carl Gustav Jung, o criador da Psicologia Analítica. Nise viu nas teorias do Jung, principalmente na teoria sobre o inconsciente coletivo, uma fonte preciosa para compreensão das obras vivenciais dos pacientes, visto que nos primeiros anos de funcionamento da STOR, ela ficou muito admirada com a qualidade plástica das pinturas que representavam mandalas. O que mais a intrigava, era o fato destes pacientes de estados psicóticos grave, serem de origem muito humilde e sem nenhum tipo de conhecimento ou acesso às obras de arte. Sabendo pelas obras de Jung que as mandalas eram símbolos de integração psíquica, diante de tal assombro pelos “desenhos” criados pelos seus internos, ela escreveu para o psiquiatra suíço enviando algumas fotos das pinturas, quando o mesmo confirmou que estas eram de fato mandalas que representavam manifestações das forças instintivas de autocura, presentes nas camadas mais profundas da psique, e no caso, procuravam compensar o estado de dissociação típico da esquizofrenia. Após esse primeiro contato, Nise fez vários estudos referentes ao seu campo de atuação com os internos, aprofundando suas pesquisas com o ajuda do mestre Jung. Em 1957, Nise encontrou o criador da Psicologia Analítica pessoalmente, quando inaugurou uma exposição de pinturas do museu de imagens do inconsciente, no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Nise escreveu também alguns livros de caráter científico, mas demorou muitos anos para obter o merecido reconhecimento da comunidade acadêmica brasileira pelo valor de suas obras. Este ser humano iluminado deixou este plano em 1999, mas sua vida e obra deixaram um imenso legado, sendo um fantástico exemplo para os profissionais da área, tal como para a humanidade. Salve a Drª Nise da Silveira por iluminar e continuar iluminando tantas vidas!” (Texto de Daniele Roses, pode ser acessado em http://www.deldebbio.com.br/2012/04/15/nise-da-silveira/)

Frases de Nise da Silveira

Pensamentos de Nise da Silveira:
“Palavras de Nise da Silveira, notas de Bernardo Horta e outras pessoas que freqüentavam o Grupo de Estudos no Museu de Imagens do Inconsciente, o Grupo de Estudos C. G. Jung, no Flamengo, a Casa das Palmeiras, em Botafogo, ou a residência dela. Era hábito de alguns amigos anotarem as palavras de Nise numa folha de papel, no livro ou em caderninhos.

“Todo mundo deve inventar alguma coisa, a criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a reestruturação da psique. O que cura, fundamentalmente, é o estímulo à criatividade.”“É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade.”“Para começar a estudar é preciso, de início, capinar. Capinar, capinar, capinar… Intensamente. Somente, após longo trabalho de capinação é que você poderá trocar o ancinho por um longo pente, e passá-lo sedosamente nos cabelos de uma mulher.”“A contaminação psíquica é pior que piolho. Vai passando de uma cabeça para outra, numa rapidez incrível. E, como você sabe, todo mundo já pegou piolho.”“Há no meu temperamento essa fúria. Quando eu quero uma coisa, eu insisto. Todo o dia, sem falta, eu levantava cedo, pegava o ônibus e ia trabalhar em Engenho de Dentro. Todo dia, todo dia… Nada me tirava daquele caminho.”

“Os gatos são os seres mais lindos, inteligentes e independentes do mundo. Essa é a razão por que os homens tem tanta dificuldade de se relacionar com eles e os perseguem indiscriminadamente desde o início dos tempos.”

“Desprezo as pessoas que se julgam superiores aos animais. Os animais tem a sabedoria da natureza. Eu gostaria de ser como o gato: quando não se quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não tem papo.”

“Eu me sinto bicho. Bicho é mais importante que gente. Pra mim o teste é o bicho, se não passar por ele, não tem vez. Freud disse que quem pensa que não é bicho, é arrogante.”

“Porque passei pela prisão, eu compreendo as pessoas e os animais que estão doentes, pobres, que sofrem. Eu me identifico com eles. Sinto-me um deles.”

“Só os loucos e os artistas podem me compreender.”

“A pesquisa e o estudo a partir das vertentes imagísticas estão apenas começando. Somente o ponto do iceberg despertou. A partir do século XXI, os interessados neste assunto devem se dedicar intensamente, pois, das imagens surgirão não só revelações sobre o corpo psicológico e físico, como descobertas das potencialidades mentais dos seres humanos. As descobertas futuras sobre o inconsciente revolucionarão a história da raça humana.

“Madame Adelaide Sechehaye. Ela me disse: ‘Só se pode progredir pelo prazer’, meu encontro com ela foi um grande prazer.”

“Há beleza na vida, há beleza em tudo. Vocês veem?… Há beleza na alegria, e mesmo na saudade, na tristeza, no sofrimento e até na partida, há beleza. A vida é uma beleza.”

“O Laing era um gato.”

“Todo mundo deve inventar alguma coisa, a criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a reestruturação da psique. O que cura, fundamentalmente é o estímulo à criatividade. Ela é indestrutível. A criatividade está em toda parte.”

“Quando descobri a unidade da matéria e da energia, uma coisa se transformou na outra; minha vida mudou.”

“Em minhas buscas e incursões, ao mergulhar nos dinamismos da psique, o fato de maior importância foi o encontro com a psicologia de Carl Gustav Jung.”

“Encontrei na psicologia de Jung e nas obras deste mestre o meu melhor instrumento de trabalho.”

“Não se iludem, Jung não está aqui na biblioteca do Flamengo, Carl Gustav Jung está no Museu de Imagens do Inconsciente, em Engenho de Dentro. Quem quiser vê-lo de perto vá até lá.”

“Vocês aí, por favor! Não me venham com jargões psiquiátricos! Isso aqui é o Grupo de Estudos C.G. Jung, um Grupo sério.”

“Não há uma só Grande Mãe – há milhares. Existem várias denominações, todas se referindo a um mesmo arquétipo.”

“A obra de arte para Freud fundamenta-se nos condicionamentos individuais do criador, e o Jung encara a obra de arte como uma produção superpessoal.”

Vídeos com Nise da Silveira:
Sobre o livro “Nise, arqueóloga dos mares”, sobre a vida e trabalho de Nise da Silveira:
Sobre a peça de teatro “Nise – Senhora das Imagens”
Making of do filme sobre Nise da Silveira, com Glória Pires (ainda vai estrear):