Confesso que minha primeira viagem ao continente africano foi uma experiência frustrante. Certamente, não estava preparado para o que iria me encontrar. Explico: estava recebendo a visita de meus pais, quando morava na Espanha. Eles queriam conhecer a Grécia, um sonho, especialmente para minha mãe. Aí então pensei: “Se vamos à Grécia, por que não também ir à Turquia e ao Egito?” Comprei ou reservei tudo pela internet e fomos conhecer países que antes me pareciam tão inacessíveis, mas que estavam há menos de 3 horas de onde vivia.

A última parte da viagem ficou para o Egito e devo dizer que foi chocante: em primeiro lugar o calor insuportável (era verão!!!), passava fácil do 40 graus. Só dava vontade de sair na rua durante a noite. Outro aspecto que me chamou a atenção é de como o país está destroçado: construções em ruínas, cidades sujas, muita miséria mesmo. O hotel em que ficamos parecia um prédio abandonado: ele ocupava um andar alto de um prédio que, na portaria, tinha mendigos morando lá e cujo uso do elevador era uma constante descarga de adrenalina. Também me surpreendeu como a sociedade egípcia me pareceu atrasada, machista e, em alguns casos, com espertalhões, querendo passar uma perna em turistas mais desavisados.

É lógico que eu já devia estar preparado, mas não estava. Para completar, havíamos programado quatro dias em Cairo, e após um city-tour (realizado em um táxi velho e sem ar condicionado, com um motorista que falava quase nada de inglês) e a visita às Pirâmides (montados em camelos e debaixo de um sol pra lá de escaldante), já queríamos voltar para a Europa.

Confesso: fiz de tudo para antecipar a data do retorno à Espanha. Passei horas tentando um telefonema para a companhia aérea, mas já não tinha mais voos disponíveis, a não ser que eu quisesse pagar uma fortuna. Pensei: o que fazer agora? Não estou dizendo que Cairo não seja uma cidade fascinante. A visita às pirâmides e à esfinge valeu muito a pena. É emocionante visitar monumentos que já foram visto por várias gerações, há milhares de anos. Outro passeio que recomendo é um tour de barco pelo Rio Nilo, com direito a por do sol, jantar e dança típica. Também tenho que registrar que encontrei pessoas solícitas, curiosas com os brasileiros que se aventuravam no calor do verão egípcio.

Mas o Cairo também é muito frustrante: imaginem uma cidade com quase 25 milhões de pessoas em sua área metropolitana, cheia de prédios da mesma cor (cor da areia do deserto), com muito trânsito, poluição e sujeira. Resumo: um caos. Isto debaixo de 45 graus. Insuportável.

Também me decepcionou a péssima conservação dos prédios públicos. Como exemplo, cito o Museu Egípicio ou do Cairo, super tradicional (de 1858) e em relação ao qual tanto já tinha ouvido falar: para quem gosta de história antiga, é melhor visitar o Louvre (Paris), Museu Britânico (Londres) ou Pérgamo (Berlim). É lógico que estes museus europeus conseguiram boa parte de seu acervo através de pilhagens, roubo mesmo, realizadas nos últimos séculos. Uma boa notícia é que parece que o Museu do Cairo vai se mudar para outro local, mais apropriado (atualmente, ele fica na conturbada Praça Tahrir, sede dos grandes movimentos populares do Egito).

Voltando ao dilema: o que fazer agora, em mais dois dias aqui no Cairo? Foi aí que conversei com o recepcionista do hotel (se é que podemos chamar aquilo de hotel), e lhe perguntei quanto seria um táxi para Alexandria. Para minha surpresa, o valor foi inacreditavelmente baixo: acho que o taxista nos cobrou menos de R$ 200,00 para passar o dia inteiro conosco, o que incluía a ida e a volta no trecho Cairo-Alexandria, trecho de 220 km.

Na estrada, percebíamos facilmente a faixa verde que há próximo ao Nilo. Afastando-se da estrada, o deserto. Alexandria é uma cidade histórica. Lá, fomos visitar ruínas de um templo antigo, onde vimos as escavações. Passeamos pela orla marítima de lá, onde vimos o Mediterrâneo azulzinho. Pena que os prédios que mostram que a cidade já foi imponente, mas anda agora bastante empobrecida. Na praia, milhares de pessoas: muitas delas tomavam banho de roupa e as mulheres, pelo que percebi, não podiam vestir biquínis ou maiôs, devido à religião. O ponto alto do dia em Alexandria foi a visita à moderna Biblioteca, que fica em um prédio que impressiona, seja por dentro, seja por fora.

Como o título do post já diz, foi uma experiência inesquecível e teve seus momentos frustrantes. Arrependido? Em parte sim: viajar no verão para o Egito é loucura. Mas acho que valeu a pena, especialmente para conhecer novos costumes e lugares que, sem discussão, são fascinantes.

FOTOS DO CAIRO

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Ponto alto da viagem: uma das maravilhas do Mundo Antigo.

A cidade monocromática: cor das areias do Saara

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População parando para rezar.

As muitas mesquitas do Cairo

Museu Egípcio

O imponente Rio Nilo

FOTOS DE ALEXANDRIA

Biblioteca de Alexandria

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