Se nós podemos dizer que Nova York é a capital financeira do mundo, Paris e Florença das artes, Londres do multiculturalismo, Barcelona da arquitetura, Tóquio da tecnologia, Roma da história, Las Vegas do entretenimento, etc., também é possível afirmar que a holandesa Haia é a capital jurídica do mundo.

A explicação está aí abaixo:

“No litoral da fria Holanda, uma cidade de menos de 500 mil habitantes é uma das mais importantes e influentes do mundo. Haia, ou The Hague em inglês ou ainda Den Haag em holandês, abriga, nos seus quase 100 quilômetros quadrados, a cúpula do que hoje se entende como Justiça Internacional. A Corte Internacional de Justiça e a Corte Permanente de Arbitragem ficam em Haia. Lá também estão o Tribunal Penal Internacional, que cada vez mais ganha força, e a corte criminal criada para julgar envolvidos nos massacres da ex-Iugoslávia.(…) Capital internacional da Justiça e da paz é o aposto ao qual a cidade se ligou e não se desvincula mais. Essa ligação começou a ser traçada no final do século XIX. Em 1899, a Holanda, país neutro em conflitos internacionais e pátria de Hugo de Groot, um dos pais do Direito Internacional (na foto ao lado, homenagem feita a ele em Haia), foi escolhida para sediar a primeira conferência da paz. Haia, sede do governo holandês, foi o palco do encontro chefiado pela Rússia. O principal fruto da reunião foi a criação da Corte Permanente de Arbitragem (CPA), pensada como forma de facilitar a criação de um colegiado de julgadores neutros para decidir disputa entre países. Em 1907, mais uma convenção para a paz mundial foi feita em Haia. Em 1913, o recém-criado tribunal — que na verdade era só um conjunto de regras, já que até hoje não há um corpo de árbitros fixos — ganhou uma sede, o imponente Palácio da Paz (na foto abaixo). O edifício, hoje um dos principais símbolos da cidade, foi construído graças a uma polpuda doação de Andrew Carnegie, um escocês que ganhou fama ao fazer fortuna nos Estados Unidos.

Com a construção do palácio, estava definitivamente traçado o destino de Haia como a capital jurídica do mundo.

Mais tarde, no início da década de 1920, foi instalada no Palácio da Paz a então recém-criada Corte Permanente de Justiça Internacional que, depois da 2ª Segunda Mundial, se transformou na hoje conhecida Corte Internacional de Justiça. É o tribunal da ONU e que transforma Haia em um nome conhecido não só dentro da comunidade jurídica mundial. Quando se houve falar da corte de Haia, é dela que está se falando. Nos últimos 20 anos, a cidade ganhou mais dois importantes tribunais de Justiça: o temporário Tribunal Penal Internacional para a Iugoslávia, criado para julgar acusados de massacre no extinto país, e o Tribunal Penal Internacional, primeira e única corte internacional permanente para julgar indivíduos por crimes de guerra.

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Haia e o Brasil

A ligação do Brasil com a capital jurídica internacional é antiga. Na segunda conferência que aconteceu lá, em 1907, ninguém menos do que o principal nome do Direito no país, Rui Barbosa, participou como representante do Brasil. Daí surgiu o apelido de Barbosa de Águia de Haia.

Hoje, o país se faz presente tanto no Tribunal Penal Internacional, com a juíza brasileira Sylvia Steiner, que está lá desde a sua criação, em 2002; como na Corte Internacional de Justiça, com o juiz Cançado Trindade. Nesta corte, em particular, já passaram outros quatro juízes brasileiros: José Philadelpho de Barros e Azevedo, Levi Fernandes Carneiro, José Sete-Câmara e Francisco Rezek, que deixou o tribunal em 2006, depois de cumprir um mandato de nove anos.

Vai-e-vem

A cidade, ainda pouco conhecida pelo turismo brasileiro, atrai milhões de turistas europeus. A praia de Scheveningen, segundo números de guias turísticos, recebe por ano cerca de 10 milhões de turistas. É a principal praia do grupo Benelux, formado por Bélgica, Holanda e Luxemburgo.

O rico acervo cultural de Haia também é responsável pelo magnetismo da cidade. Lá, está o Museu do Escher, dedicado a mostrar não só as obras, mas também o método de trabalho do artista holandês. O principal museu da cidade, o Mauritshuis — que em português quer dizer a casa de Maurício, no caso, o Maurício de Nassau —, abriga obras-de-arte importantes como a famosa Moça com Brinco de Pérola e a Vista de Delft, ambas do holandês Vermeer; e A Lição de Anatomia do Doutor Tulp, de Rembrandt, também holandês.

Haia, no entanto, sofre com o difícil clima, a maior parte do tempo frio e com os invernos praticamente escuros. No verão, a cidade comemora os dias bastante longos — o sol chega a se pôr perto das 22h — e, algumas vezes, quentes. O holandês, no entanto, não se abala com a temperatura. Além do carro e do transporte público, a bicicleta é um meio de transporte valorizado na cidade, com ciclovias e sinalização especial.

Essa questão climática também não ofusca os encantos da cidade para quem vai passar uns dias lá. A calma das ruas, o verde presente em todas as partes da cidade, os prédios altos perto da estação central de trem em contraste com os prédios baixos no mais famoso estilo europeu são convidativos não só para o trabalho, mas também para o turismo.” (http://www.conjur.com.br/2010-ago-16/haia-capital-juridica-internacional)