Pesquisando na internet, descobri uma história fantástica. Ela diz respeito a um fato ocorrido na década de 1950. O personagem principal deste episódio é um alagoano: o poeta Jorge de Lima. Narrado pelo escritor Antônio Olinto (membro da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2009), relata que o poeta alagoano quase foi agraciado com o Prêmio Nobel da Literatura. Já estava tudo certo, a não ser por um detalhe… Vejam o que aconteceu e percebam o quão grande era (e ainda é) o brilhante alagoano de União dos Palmares:

O Caso Jorge de Lima

Antonio Olinto

Não há a menor dúvida de que existe, na literatura brasileira, um “caso” Jorge de Lima. Tendo sido, na opinião de muitos críticos e poetas do Brasil e de outras partes do mundo (incluindo o autor destas linhas), aquele que mais longe foi em nossa terra na feitura do verso e no uso da poesia como expressão de um povo e de uma nação, é de se espantar seja ele posto de lado – permanentemente de lado – pela presente comunidade literária do País. Em vida, teria sido normal, por ser católico praticante e ortodoxo, colocá-lo sob suspeita.

Foi o que aconteceu com Jackson de Figueiredo, com Alceu Amoroso Lima, mais ainda com Gustavo Corção e até com Murilo Mendes, que era um católico discreto. Só depois, no decorrer do regime militar que tivemos, católicos e esquerdistas fizeram mais ou menos as pazes. Mas, então, Jorge de Lima já estava morto havia 15 anos.

Como pode nosso maior poeta ser colocado, por gerações posteriores, em nível tão baixo? Como pode ser tão esquecido? Como pôde ter sido candidato à Academia Brasileira de Letras cinco vezes e não ter sido eleito? Perguntei certa vez a Clementino Fraga por que motivo a Academia Brasileira de Letras recusara Jorge de Lima.

Resposta: “Ele era um ingênuo. Imagine que, uma vez, sendo candidato, mandou-me um telegrama de quarenta palavras para dar-me os parabéns a uma neta minha, de dez anos, cujo aniversário um jornal noticiara. De outra vez, candidato, Jorge de Lima pediu ao grande escritor francês Bernanos, exilado no Brasil, para mandar cartas a acadêmicos brasileiros pedindo votos para ele. Bernanos escreveu ao amigo: “Você está acima disto, não precisa da Academia, mas vou fazer o que me pede”.

Arthur Lundkvist, da Academia Nobel Sueca, em conversa sobre poesia, contou-me que, terminada a II Guerra Mundial, foi convidado por uma companhia marítima para ir à Índia, em navio que devia deter-se um dia no Rio de Janeiro. Admirador de Jorge de Lima, cujos poemas lera em inglês, espanhol e mesmo no pouco português que sabia, assim que o navio ancorou na Praça Mauá, saiu com o endereço de Jorge.

Soube que bastava entrar naquela Avenida – a Rio Branco – e lá no fim estava a Cinelândia, onde o médico Jorge de Lima trabalhava. Arthur e Jorge conversaram o dia todo, almoçaram juntos e, no fim da tarde, Arthur voltou ao navio e seguiu para a Índia. Mais tarde, na Suécia, conheci Arthur, tornei-me seu amigo e dele ouvi o seguinte: “De volta a Estocolmo, conversei com vários acadêmicos e chegamos à conclusão de que poderíamos dar o Prêmio Nobel a Jorge de Lima no fim dos anos 50”. Mas Jorge morreu em 1952.

Poema de um povo, continua a “Invenção de Orfeu” a nos representar como autêntica “Invenção da verdade”, numa estirpe greco-romano-luso-afro-indígena-brasileira, com a presença de versos de Virgílio na bela tradução de Odorico Mendes e uma “arma virunque cano”, com um barão assinalado com Inês de Castro, Dante e Beatriz, até que “um cavalo todo feito em lava” golpeia o poema de alto a baixo.

Como no romance de Ponson du Terrail, do homem “que montou no cavalo e saiu galopando em todas as direções”, também os versos de Jorge de Lima galopam em todas as direções. A Inês de Camões, juntamente com a figura de Virgilio, é a mesma e, contudo, diferente. Brasileira também, causa e efeito, mãe e filha.

“Invenção de Orfeu” é o poema da maturidade brasileira. Nossas dependências de uma tradição, de uma Igreja, de cânticos recebidos da África, de um estilo, de um modo de falar e de criar palavras, de um sistema de vida, de uma certa maneira de sentir o dia-a-dia, nossos desejos, nossas paisagens, nossas vogais. Tudo é matéria para Jorge de Lima extrair – de um passado que, além de nosso, tem profundos lanhos de outros tempos – a mensagem de um povo que é um estranho aglomerado de gente num espaço em ebulição.

A mais recente edição de “Invenção de Orfeu” é da Editora Record. Orelhas de Claufe Rodrigues. Ilustração de capa de Wassily Kandinsky, 1922. Tribuna da Imprensa (RJ) 26/6/2007″ (http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=5613&sid=571)

Como se sabe, até o momento, nenhum brasileiro venceu o prêmio Nobel (em qualquer categoria). Mas vale a pena saber que brasileiros já chegaram perto:

“Bola na trave

A seleção que quase chegou lá

1. Cesar Lattes

Sabe aquele gol que o juiz não marcou porque não viu a bola? Essa parece ser a única explicação para Cesar Lattes (1924-) não ter ganho o prêmio de Física de 1950. O brasileiro comprovou experimentalmente a existência da partícula subatômica méson pi e quem levou o prêmio foi o britânico Cecil Powell, que ajudou na redação do estudo

2. Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) não queria saber do jogo. Quando, em 1967, seu tradutor para o sueco pediu todas as suas traduções disponíveis, ele não quis colaborar. O pedido havia partido do comitê do Nobel de Literatura, mas não agradou ao mineiro. Ele dizia, em suas crônicas no Jornal do Brasil, que o merecedor era o amigo Jorge Amado

3. Celso Furtado

O paraibano Celso Furtado (nascido em 1920) é nossa esperança para a partida do próximo dia 10 de dezembro. Ele concorre ao prêmio de Economia. Apesar de a cartolagem do Nobel privilegiar economistas matemáticos, Furtado tem chances, pois o indiano Amartya Sen, que também estuda o desenvolvimento econômico, foi premiado em 1998

4. Jorge Amado

O baiano Jorge Amado (1912-2001) ofereceu perigo de gol até os últimos minutos do segundo tempo. Mas acabou partindo antes que o prêmio chegasse. O momento em que esteve mais próximo do Nobel de Literatura foi em 1967, logo após o sucesso de Dona Flor e seus Dois Maridos. Nesse ano, perdeu para o guatemalteco Miguel Angel Astúrias

5. Mario Schenberg

Mario Schenberg (1916-1990) foi o nosso Pelé da física teórica. Formulou, com George Gamow, o processo Urca, que explica a perda de energia nas supernovas comparando-a ao sumiço da grana nos cassinos da Urca (RJ). Schenberg trabalhou com os monstros sagrados Enrico Fermi e Wolfgang Pauli e sempre esteve na boca da área do Nobel

6. Maurício Rocha e Silva

O bioquímico carioca Maurício Rocha e Silva (1910-1983) fez uma grande jogada na briga pelo Nobel de Medicina. Ele descobriu a bradicinina, substância importante para a controle da pressão arterial, em pesquisa com o veneno da cobra jararaca. Infelizmente, os olheiros da academia não prestaram muita atenção no lance de Maurício

7. Sérgio Henrique Ferreira

O bioquímico paulista Sérgio Henrique Ferreira (1934-) é um jogador criativo e que não sai da área. Recebeu o passe de Rocha e Silva e desenvolveu a jogada, ajudando na criação de drogas a partir da bradicinina. Fez tabelinha com o britânico John Vane, num lance que valeu o Nobel de Medicina em 1982. Mas a cartolagem premiou só o gringo

8. Jorge de Lima

O alagoano Jorge de Lima (1893-1953) foi um talento reconhecido em 1947 por um olheiro do Nobel. Impressionado com a obra do poeta, Artur Lunkvist convenceu a academia a dar o Nobel de Literatura a ele no ano de 1958, já que havia uma lista de autores para ganhar antes. Infelizmente, Jorge morreu em 1953. E o Nobel só premia vivos

9. Otto Gottlieb

O único craque a disputar o Nobel de Química foi Otto Gottlieb (1920-), em 2001. Otto nasceu na República Tcheca e se naturalizou brasileiro. Nada mais natural para o cientista que, de tão apaixonado pelas nossas plantas, inventou um índice para medir a biodiversidade de ecossistemas como a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica

10. Carlos Chagas

Carlos Chagas (1878-1934) foi quem mais chutou a gol no time. Chegou a ser indicado quatro vezes em Medicina. O problema era que, no começo do século, a academia apitava pelos europeus e americanos. Só isso explica o fato de o primeiro e único cientista até hoje a identificar todo o ciclo de uma doença (o mal de Chagas) não ter sido premiado

11. Dom Paulo Evaristo Arns

Dom Paulo Evaristo Arns (1921-) foi um dos defensores da camisa canarinho na disputa pelo Nobel da Paz. Ele concorreu em 1990, mas teve que encarar o megacraque Dalai Lama, que ficou com o título. Dom Hélder Câmara, Zilda Arns, o sociólogo Betinho e até o presidente Lula também deram a sua contribuição para emplacar na categoria. (http://super.abril.com.br/ciencia/quando-vamos-ganhar-nobel-444428.shtml)

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