Ficheiro:Young Mandela.jpg

Hoje, 15 de dezembro de 2013, o mundo assiste comovido pela televisão as solenidades relativas ao funeral de Nelson Mandela, grande líder da causa da igualdade racial na África do Sul e no mundo. Conforme foi bastante noticiado nos últimos dias, Mandela se formou em direito  e exerceu a advocacia,  já comprometida com a questão dos direitos humanos.

Mas como foram os anos em que passou na faculdade de direito? E como teria sido sua atuação na advocacia?

Estas perguntas são respondidas abaixo. Conforme se verá, Mandela teve sua carreira na advocacia abreviada por sua prisão arbitrária, onde ficou quase três décadas encarcerado. Todavia,  em sua breve passagem pela advocacia, protagonizou fatos importantes, como o de ter aberto o primeiro escritório de advocacia para negros no país e ter estagiado em um escritório formado por judeus. Também é possível afirmar que os estudos jurídicos contribuíram para a formação do líder Mandela. Há também fatos interessantes referentes à passagem de Mandela pela universidade.

Confira a trajetória “jurídica” de Nelson Mandela:

Fundada em 1916, Fort Hare foi a primeira universidade da África do Sul a ministrar cursos para negros. Lá os professores repetiam aos alunos: “Agora que vocês estão na Fort Hare, serão líderes de seu povo.” e realmente muitos de seus alunos saíam de lá para um emprego, com renda garantida e alguma influência; apesar disto, não se ensinava como enfrentar o preconceito, a opressão racial. Era uma instituição pequena e quando Mandela lá ingressou, em 1939, tinha somente 150 alunos. Era dirigida pelo escocês Alexander Kerr; apesar de preparar os futuros chefes tribais, acabou se tornando uma incubadora de líderes revolucionários. Para que pudesse frequentar a faculdade, o rei Jongintaba mandou-lhe fazer um terno, o primeiro que teve. Ali fez muitos amigos com quem mais tarde formaria o núcleo de comando do Congresso Nacional Africano, a exemplo de Oliver Tambo. Foi, ainda, ali que travou contato com a cultura clássica ocidental; chegou a interpretar John Wilkes Booth, assassino de Abraham Lincoln, numa peça lá encenada.] Certa vez descobriu que um de seus amigos não havia feito a circuncisão e chegou a reagir “até mesmo com repulsa”; só mais tarde foi que venceu o preconceito juvenil, a aceitar os outros como iguais e não julgá-los segundo seus próprios costumes.

No primeiro ano estudou inglês, antropologia, política, administração nativa, e direito romano e holandês. Começou a praticar esportes, como a corrida e o boxe. Quando estava no segundo ano, Mandela participou de uma manifestação contra a baixa qualidade da comida; assim, em protesto, boicotaram a eleição do conselho de estudantes. Apesar disto, alguns alunos votaram e Mandela acabou eleito; confrontado com tal escolha, Mandela consultou seu sobrinho K. D. Matanzima, mais velho que ele e já veterano na instituição; este o aconselhou a não assumir o cargo estudantil, embora o reitor Kerr houvesse-lhe dado duas únicas opções: assumir o cargo ou sair da faculdade. Mandela saiu, levando junto o primo Justice.

Retornando a Mqhekezweni o rei, quando informado do ocorrido, se enfurece. Jongintaba então concerta-lhes um casamento, segundo o costume; Mandela e Justice fogem então para Joanesburgo – não porque as esposas arranjadas fossem feias, mas justamente porque, imbuídos da cultura branca que o próprio rei lhes proporcionara, almejavam um casamento romântico, em que conhecessem primeiro as pretendentes. Tinha para vestir apenas um terno que, ao fim de cinco anos tinha mais remendos do que tecido original.

a capital passou os primeiros anos de modo errante; trabalhou como vigia numa mina, e foi despedido; era visto pelas famílias que o abrigavam como “imprestável”, até que finalmente teve seu primeiro encontro com Walter Sisulu, em 1941, e que mudaria definitivamente sua vida. Sobre este encontro Sisulu diria, mais tarde: “Queríamos ser um movimento de massa, e então um dia um líder de massa entrou no meu escritório.”

Até então morava no subúrbio de Alexandra, verdadeira favela apesar de algumas boas construções, estudando à noite; passava muitas dificuldades, minimizadas pela amizade feita com Zacariah Molete, filho de um dono de mercearia, ligado à Igreja Metodista, e que lhe dava comida às vezes. Ali, contudo, adaptou-se à vida urbana e às mazelas da supremacia branca.

Em 1941 o chefe Jongintaba lhe faz uma visita, na qual não falam do passado e sim do futuro, num momento feliz de reencontro; o rei veio a falecer no ano seguinte. Sisulu consegue-lhe emprego de assistente na banca de advogados judeus Witkin, Sidelsky & Eidelman – únicos então que contratariam um negro para esse trabalho. Continua os estudos, no curso por correspondência de Bacharelado em Artes (BA) pela Universidade da África do Sul, em 1942, mesmo ano em que frequenta informalmente as reuniões do CNA.  Bacharelando-se em 1943, ingressa no curso jurídico da Universidade de Witwaterstrand, onde se gradua.

Mais tarde, junto a Oliver Tambo, inauguram o primeiro escritório advocatício negro do país. Nas lidas jurídicas descobre como a justiça pendia para os brancos, e as leis eram parcialmente aplicadas. Foi apenas em Joanesburgo, quando já não era mais tratado como um garoto da nobreza tribal, e sim como mais um negro pobre do interior, que Mandela se conscientizou do abismo que separava brancos e negros no país. Foi este choque que provocou-lhe a reação de lutar contra o racismo. E o fez ingressando no Congresso Nacional Africano.” (fonte: wikipedia)

Outras informações sobre a formação jurídica de Mandela e sobre a universidade em que estudou:

Nelson Mandela sentiu o primeiro gosto da política num pequeno campus universitário, formado por três casarões brancos com janelas largas convergindo para um pátio com árvores, flores e calçamento de tijolinhos. Em 1939, aos 21 anos, ele chegou à Universidade Fort Hare, na cidade de Alice, na província de Cabo Oriental, não muito longe de onde cresceu e amanhã será enterrado. Veio para cursar direito, mas não durou muito. Um ano depois, acabou expulso, após organizar uma greve de estudantes contra a falta de democracia racial na instituição. Sua fama de ser um “causador de problemas” nascia ali.

Fort Hare sentiu especialmente a morte do ex-aluno ilustre. “Até o fim da vida ele manteve relação próxima com a universidade”, diz Wabsi Mntambo, diretora para ex-alunos. Após ser expulso, Mandela obteve autorização para seguir o curso e se formou em direito pela universidade por correspondência, pois já morava em Johannesburgo. Anos mais tarde, receberia um título de doutor honoris causa, em uma tentativa de compensar tardiamente a expulsão. Nos anos 30, negros sul-africanos em idade universitária em busca de educação de qualidade não tinham outra opção que não Fort Hare. Fundada por missionários escoceses em 1916 com o nome de South African Natives College (Faculdade para os Nativos Sul-Africanos), durante décadas foi a única instituição de ensino superior a aceitar estudantes negros.

Em 1923, virou universidade e adotou o nome de um forte britânico do século 19 que fica nas redondezas. Passou a atrair estudantes de todo o continente africano, e graduou a elite da política anticolonial africana do século 20. Se os EUA formam seus presidentes em Harvard e Yale, e a França na Escola Nacional de Administração, a África tem Fort Hare. A lista de ex-alunos impressiona. Além de Mandela, outros líderes-chave da luta contra o apartheid estudaram ali, como Oliver Tambo, Govan Mbeki e o arcebispo Desmond Tutu.

“Mandelas” continente afora, que lideraram a independência de seus países, também foram alunos, caso de Kenneth Kaunda, primeiro presidente da Zâmbia e Julius Nyerere, “pai” da Tanzânia. Robert Mugabe, fundador e hoje ditador do Zimbábue (uma espécie de Mandela que não deu certo), é outro dessa relação.

CONCURSO PROIBIDO

Hoje a universidade tem cerca de 10 mil alunos, 80% deles negros. Pública, continua sendo uma das principais da África do Sul, escondida na cidadezinha de Alice, território ancestral dos xhosa, a etnia de Mandela. A especialidade são cursos de humanidades (direito, educação, comunicação), mas tem ganhado renome na área de estudos agrícolas recentemente.

Nos anos duros da segregação racial, era um foco de manifestações estudantis e vigilância constante do governo. “Nem concurso de beleza os estudantes podiam fazer que a polícia já dispersava”, afirma Vuyelwa Mdazana, responsável pela rádio do campus. No auge do apartheid, dos anos 60 aos 80, o reitor era africâner (descendente de holandeses), menos preocupado com a qualidade do ensino do que em ser os olhos das autoridades sobre o corpo de alunos. A anualidade é subsidiada pelo governo, mas mesmo assim salgada para padrões locais: US$ 2.000, incluindo residência em dormitórios, ainda iguaizinhos aos dos tempos de Mandela, enfileirados em corredores longos e com banheiro coletivo. Os registros do Mandela estudante se perderam com o tempo, mas a universidade é a guardiã dos arquivos oficiais do período dele como presidente da África do Sul (1994-99). São 450 caixas de atos, correspondências e decisões administrativas, abertas a consulta pública.

Os estudantes se orgulham muito do passado da instituição, ainda que a fama também incomode. “As pessoas reduzem Fort Hare à universidade do Mandela, mas ela é maior do que isso. A universidade formou Mandela, não foi Mandela quem formou a universidade”, diz Sabelo Dingiswayo, estudante de economia“. (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/12/1385563-universidade-de-mandela-graduou-nomes-da-elite-anticolonial-africana-do-seculo-20.shtml)

Sobre a atuação de Mandela na advocacia:

“Mandela foi um advogado, como tantos outros defensores da liberdade e da pluralidade. Formou-se em Direito em 1943 e logo abriu o primeiro escritório de advocacia formado por negros na África do Sul. Antes, havia estagiado em um escritório de brancos, cujos sócios, contudo, eram todos judeus, compreensivelmente os únicos brancos que contratariam um negro naqueles tristes tempos de intolerância.” (http://oglobo.globo.com/blogs/juridiques/posts/2013/12/06/mandela-um-advogado-517411.asp)