Um dia após a eleição que vem provocando inúmeras reações nas redes sociais, em que vários alagoanos se disseram envergonhados de fazerem parte de uma sociedade que não sabe escolher corretamente seus representantes, resolvi fazer um post sobre o livro que melhor denuncia nossas mazelas: “Ninho de cobras” (1973), do escritor alagoano (e imortal) Lêdo Ivo.

Antes de tudo, considero que, como alagoanos, precisamos conhecer melhor nossa realidade, nossas características, sejam positivas ou negativas, a fim de que possamos preservar o que é bom (sim!!! há muita coisa boa), e, especialmente, reagir à inércia, ao atraso e ao clima generalizado de pesssimismo que insistem em fazer parte de nosso dia-a-dia (neste sentido, é imperdível o artigo do jornalista Rodrigo Cavalcanti (http://agendaa.tnh1.com.br/vida/gente/2297/2014/08/24/agenda-a-ideias-como-alagoas-pode-livrar-se-de-seu-complexo-de-inferioridade)

Sobre Lêdo Ivo, vale a pena visitar em Maceió o Memorial dedicado ao escritor, que fica no Palácio dos Martírios (http://www.cultura.al.gov.br/institucional/espaco-da-secult/mupa-museu-palacio/memorial-ledo-ivo)

Coincidentemente, desde a semana passada, estou lendo “Ninho de cobras”. Encontrei-o, por acaso, mas confesso que há algum tempo procurava iniciar a leitura deste livro, considerado a grande obra-prima de prosa de Lêdo Ivo (falecido em 2012). Da mesma forma, em uma destas casualidades da vida, também semana passada, adquiri “Angústia”, de Graciliano Ramos, livro também ambientado na Maceió da primeira metade do século XX.

Em “Ninho de cobras”, Lêdo Ivo não faz qualquer afago à alagoanidade, nem tão pouco “alisa” ou “passa a mão na cabeça” do alagoano. Elogios, até agora não vi nenhum (estou na metade do livro). Ao contrário, a grande marca do texto é sua acidez, sua crítica (até mesmo carregada nas tintas), com grande ironia, da sociedade local e de seus personagens, cheios de desvios de comportamento e caráter. Lógico que a leitura do livro é uma delícia, o texto vem me divertindo bastante (Lêdo Ivo é de uma inteligência absurda), mas também vem me chocando pelo realismo e sinceridade. Destaco ainda a maravilha que é ler as páginas de um livro que, com muito talento, retrata os costumes alagoanos, as coisas de Maceió (ruas, prédios, hábitos, tipos, etc), ainda que não seja propriamente para exultá-las.

Em “Ninho de cobras”, para não dizer que o autor não falou de flores (talvez o tenha feito para destacar a auto-estima do alagoano com a bela paisagem natural do Estado), há um trecho no livro que retrata uma conversa entre dois amigos que estão em um bonde que acaba de entrar na rua que dá para a praia (imagina que a da Avenida). Um deles, não resistindo à imagem diante de seus olhos, diz: “É uma paisagem admirável. No Nordeste não há iguais. E pessoas viajadas, que conhecem o estrangeiro, garantem que temos as mais belas praias do mundo. Veja que céu azul” (trecho retirado do capítulo O homem do balcão)

Vale lembrar que Lêdo Ivo, conhecido como poeta, também era um grande prosista (“Ninho de cobras” venceu o V Prêmio Walmap”. Sérgio Buarque de Hollanda dizia de Lêdo Ivo, então jovem, que era um poeta “de versos longos e nome curto”, em uma geração de “nomes longos e versos curtos”.

O escritor (e também imortal) Antônio Olinto, no artigo “A verdade da ficcção”, escreveu um ótimo relato sobre o livro “Ninho de cobras”. Vale a pena ler:

No contexto dos 80 anos de Lêdo Ivo e do lançamento de sua poesia completa, reunida num só volume, apresentado há pouco na Academia Brasileira de Letras, desejo falar hoje do romance do mesmo autor traduzido na Inglaterra.

Há uma unidade orgânica – tal como a unidade normal à vida – que se reproduz na obra de ficção, mesmo quando esta voluntariamente se esfacela e se subdivide, em parcelas, contrapontos, saltos, regressos, inesperados volteios no tempo e no espaço. Chama W. P. Kerr a atenção para as “Sagas” – e ele faz questão de usar maiúscula inicial na palavra Saga – que já possuíam os elementos essenciais dessa unidade narrativa. Foi o que primeiro me causou admiração no romance de Lêdo Ivo, “Ninho de cobras”. A unidade precisa, díspare, firme, diversificada, em que personagens, ruas, casas, móveis, lugares, se juntam e logo se afastam, em conflitos e súbitas pacificações que têm sua linha central na raposa que, no começo do dia, entra na cidade aparentemente tranqüila dos homens onde tudo pode acontecer, e acontece.

Quando o li pela primeira vez, como presidente da comissão julgadora do Prêmio Nacional Walmap, onde os originais se apresentavam com pseudônimo, não tive dúvidas de que estava diante do vencedor. Premiado o romance, foi ele considerado, pela crítica em geral, como o que de melhor apresentava a ficção brasileira na década de 70.

Mais tarde, abro um dia “The Times”, para ler as páginas literárias, e deparo com uma crítica de Stuart Evans ao livro “Snake’s nest”, que vinha a ser o título do romance de Lêdo Ivo, traduzido por Kern Krapohl e editado por Peter Owen. Logo no primeiro parágrafo diz Evans:

“Uma raposa se perde no centro de Maceió, cidade principal de Alagoas, no Nordeste do Brasil. O animal é visto, reconhecido, confundido com um cachorro, desconsiderado por muita gente até que é morto violentamente a pauladas. Torna-se, assim, a raposa, o elo deste romance bravio, soberbamente bem construído em que as vidas, preocupações, obsessões de um professor presunçoso, uma prostituta, uma bondosa freira de hospital e um anônimo escritor de cartas venenosas (que permanece sem identificação) obliqua e sutilmente se ligam ao suicídio de um Alexandre Viana, cidadão comum, razoavelmente bem respeitado.”

Antes de terminar sua análise, usa o critico inglês duas expressões para completar o artigo: “Grande romance” e “O estilo é magnífico”. Sabe-se que a apreciação normal dos jornais ingleses sobre romances “de fora”, isto é, traduzidos, é muito reticente. Raramente os elogiam e, quando o fazem, têm cuidado especial na enumeração de possíveis defeitos do livro apreciado.

A tradução de Ken Krapohl manteve o ritmo da narrativa, em que Lêdo Ivo consegue dar às palavras uma fluência que realça os pontos dramáticos de cada movimento do romance. Existe uma verdade estética intimamente ligada aos símbolos. A vida de uma região, de uma comunidade, num determinado tempo, entra num livro e pode, nele, ganhar uma universalidade que o transforme em símbolo. O importante – e é o que Lêdo Ivo faz – é que o narrador reflita uma realidade impregnada de permanência. Chega ele a esse resultado no mostrar as sensações básicas do homem e no dominar a matéria de sua arte de tal maneira que possa reduzir a dureza convencional de toda forma ou fôrma.

A força vocabular do romance, em “Ninho de cobras”, é eminentemente não discursiva. A história que ela narra surge em cenas essenciais, nada intelectualizadas, em técnica parecida com a dos antigos gregos que matavam por vingança e morriam pela necessidade inarredável da luta.

Fora do mundo em que vivemos e, contudo, a ele intimamente ligado, ergue o romancista um pedaço de tempo, em que pessoas se movem, em que as coisas se dispõem no espaço, em que sentimentos se jogam contra a neutralidade geral das coisas. O ficcionista faz sua gente ter medo, fome, frio, amor, alegria, vinganças. Quando Aristóteles falou de narrativa, disse: “Toda felicidade e miséria humanas tomam a forma de ação”. Embora se referisse mais ao drama grego – e à poesia narrativa da época – o sentido da frase aristotélica é válido ainda hoje. A ação sinuosa, tormentosa, contudo magistralmente conciliada consigo mesma, de “Ninho de cobras”, dá ao romance de Lêdo Ivo uma permanência de obra definitiva. Ele conquistou, com esse livro, a verdade mesma da ação. Ou a verdade da ficção“. (fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/ledo1.html)

Na edição de 17 de agosto de 2008 do Jornal Gazeta de Alagoas, o repórter Fernando Coelho fez uma matéria bem ilustrativa sobre “Ninho de Cobras”:

Qual a verdadeira história de Alagoas? Alguém já a escreveu? Seria isso possível? É provável que não. Por mais abrangente que seja, a arte literária não é absoluta a ponto de resumir com precisão e idoneidade os tantos capítulos que compõem a formação desse controverso estado brasileiro.

Por outro lado, a literatura pode fatiar o tempo, recortar momentos e apresentá-los revestidos sob a tez da imaginação. A verdade histórica é um alvo móvel. Atingi-la, vai depender da mira de quem a procura, de seu ponto de vista. E que feliz é a história que tem um Lêdo Ivo como memorialista. Não apenas por seu manejo arrojado e cuidadoso com a palavra, sua sofisticação poética ou a pertinência de seus argumentos, mas também pelo resgate despudorado e sem juízo de valor das fraquezas e dos desvios presentes nas qualidades humanas.

Paisagens históricas, personagens distintos

Dividida em dez capítulos, a história começa com o passeio de uma raposa que, madrugada adentro, percorre solitária as ruas do Centro de Maceió. Quando os raios da manhã revelam mais claramente sua presença, os primeiros a avistarem não hesitam em exterminá-la a pauladas. O episódio é a ponte para o enredo chegar aos outros personagens. A partir dele, o autor recria causos e recupera momentos e paisagens históricas, sempre a atrelar do cidadão comum ao pequeno burguês, passando por meretrizes, políticos e renomadas figuras públicas.

A invenção de uma cidade real

Ninho de Cobras. Para um romance que relata causos pitorescos do cotidiano de uma cidade e revela tipos humanos a adotar condutas e atitudes condenáveis, o título parece apropriado. Essa impressão, contudo, é refutada por Lêdo Ivo: a expressão não traduz sua leitura de Maceió. “Alguns que não leram o livro pensaram que eu queria afirmar que Maceió era um ninho de cobras quando, na verdade, a história é a história dos alagoanos que não emigraram e que amam Maceió. Os que amam Maceió como as cobras amam seus ninhos de pedra. É essa aderência da criatura viva à paisagem”, explica o escritor, por telefone, à Gazeta.

No livro, suas observações apontam para Alagoas como exemplo da grande sociedade dividida entre pobres e ricos.

NINHO DE COBRAS NO BRASIL E NO MUNDO

Publicado pela primeira vez em 1973 pela editora José Olympio, Ninho de Cobras ganhou mais três edições. A segunda foi lançada em 1980, pela editora Record. A terceira em 1997, pela Topbooks e, finalmente, em 2002, saiu a quarta edição pela editora Catavento. O livro também ganhou uma edição inglesa e uma norte-americana, com o título Snake’s Nest, e outra dinamarquesa, em 1984, chamada Slangeboet. Ano passado, a segunda edição da versão norte-americana foi relançada. Algumas edições ganharam o título complementar Uma História Mal Contada.

Contos de liberdade, pecados e traições

Após o lançamento de Ninho de Cobras, tardou para Lêdo Ivo aparecer na cidade retratada. “Não lembro ao certo. Acredito que só estive aí depois que entrei para a Academia Alagoana de Letras, acho que em 1984”. Anteriormente, mesmo a aproximação da sua literatura para com a terra natal foi lenta. Quanto mais o poeta se distanciou, mais se convenceu de que nunca tinha saído de Alagoas. “Isso ocorreu em decorrência das minhas viagens para a França e para os Estados Unidos. Quando eu estive em Nova York, vi aquela civilização, aqueles arranha-céus, aquela verticalidade da cidade, os cemitérios de automóveis e os viadutos. Eu tive a sensação de que o meu mundo era o mundo de Alagoas, de Maceió”.

CURIOSIDADES SOBRE O LIVRO

›› Lêdo Ivo levou apenas um mês para escrever sua obra-prima.

›› Desde que o livro foi publicado, o alagoano revela que nunca releu Ninho de Cobras. “Eu nunca reli talvez porque eu pudesse ficar indignado e até pediria para ser expulso da literatura alagoana [risos]”, brinca o poeta e romancista.

›› Um dos personagens da obra escreve cartas anônimas delatando para os maridos os casos das esposas infiéis. O escritor conta que, certo dia, foi surpreendido por um antigo chefe de polícia de Alagoas, Mendonça Braga. “Ele disse que esse camarada realmente escrevia cartas anônimas [risos]. É a ficção adivinhando a realidade”.

›› Há diversas teses, estudos e pesquisas sobre Ninho de Cobras. O pesquisador Márcio Ferreira lançou em 2002, pela editora Catavento, o livro intitulado A Cidade Desfigurada – Uma Análise do Romance Ninho de cobras de Lêdo Ivo.” (fonte: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/acervo.php?c=132957)

Outra relação de Lêdo Ivo com a capital alagoana está na poesia “Planta de Maceió”:

O vento do mar rói as casas e os homens.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuraram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que se afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada”