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Ambrosina Maria da Conceição: este é o verdadeiro nome de uma pessoa que ficou marcada na história de Alagoas. O que ela teria feito? Alguma obra intelectual? Algum feito esportivo? Atuava na política? Não. Era simplesmente a Miss Paripueira.

Algum tempo atrás, publiquei neste blog um post sobre minhas lembranças afetivas de Paripueira, balneário no litoral norte de Alagoas onde costumava passar férias em minha infância: https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/10/23/paripueira-a-praia-de-minha-infancia/

Quando criança, tive a oportunidade de ver várias vezes aquela figura magnífica, que tanto nos encantava (e às vezes assustava) com sua roupa colorida, colares, óculos escuros enormes e peruca.

Abaixo, um vídeo que ao falar de um concurso de fantasia realizado recentemente para homenagear Miss Paripueira, traz algumas informações sobre a vida de Ambrosina:

“Comemorando o novo visual do blog e a última edição da revista Graciliano, que fala sobre Carnaval, disponibilizamos um trecho da reportagem intitulada Cortejo Fantástico, do repórter Francisco Ribeiro. Confira!

Todos os dias, Ambrosina Maria da Conceição saía de casa vestida com roupas coloridas e adornada com acessórios extravagantes. As ruas da atual cidade de Paripueira, até 1988 uma vila agregada ao município de Barra de Santo Antônio, eram a sua passarela. E por onde caminhava, ou melhor, desfilava, recebia aplausos e gracejos dos moradores e convites de turistas para tirar fotos.

Sua peregrinação diária transcorria sem maiores aborrecimentos, até os “maloqueiros” azucrinarem a sua paciência. Eles a chamavam de Sabiá ou Canela de Sabiá, apelidos que ela detestava. Ambrosina, uma senhora de origem negra, magra e de estatura baixa, perdia a calma e gritava: “Meu nome é Miss Paripueira!”, alcunha pela qual se tornou conhecida e como ainda permanece viva na lembrança de muitos alagoanos.

Quando avistada pela criançada, Ambrosina não tinha sossego. Uma das brincadeiras que mais a desagradava era quando a garotada arrancava a sua peruca. A reação dela sempre rendia boas gargalhadas e também carreiras dos meninos para evitar uma pancada com a sua sombrinha.

Miss Paripueira transitava entre a lucidez e o delírio. Figura singular das décadas de 70 e 80 no pequeno município onde residia, sua fama não tardou a chegar à capital. Vez ou outra, quem andasse pelo Centro de Maceió poderia se deparar com Ambrosina, que logo se tornava uma grande atração.

O advogado e professor universitário Carlos Ramiro Basto registrou o início da jornada para a fama da ilustre moradora de Paripueira em artigo publicado no livro Arte Popular de Alagoas, cuja pesquisa e organização são de Tânia Pedrosa.

Miss Paripueira 2 Foto Celso Brandão

A Miss foi tema de um documentário dirigido pelo ator e cineasta José Márcio Passos. A única cópia existente foi perdida e restaram poucos registros da história da personagem mais famosa de Paripueira (Foto: Celso Brandão)

Antes do estrelato, Miss fazia-se de “beata”. Conhecida por Vizinha, ela percorria as praias, aos domingos e feriados, com uma bandeja repleta de flores, onde repousava a imagem de uma santa, pedindo contribuições em dinheiro para uma infindável “novena”, realizada em sua casa. “Num domingo de Carnaval, quando ela estava na praia pedindo espórtulas [doações], várias jovens, inclusive minha filha Elizabeth, perguntaram se ela não queria ser candidata a Miss Paripueira. Ela ficou satisfeita com a proposta e respondeu afirmativamente. Imediatamente, as jovens improvisaram uma fantasia com a faixa de miss e uma coroa, e colocaram-na num jipe sem capota, que seguia o caminhão da orquestra. Foi aclamada miss durante todo o percurso do corso. E, daí por diante, a Vizinha deixou de ser ‘beata’ e passou a ser Miss Paripueira”, escreveu Carlos Ramiro Basto.

Tomado pela vontade de registrar a história da Miss, o então diretor alagoano José Márcio Passos, 63, documentou em Super-8 o cotidiano da personagem. “Acompanhei o dia a dia dela. Desde o momento em que saía de casa, pedia dinheiro para as pessoas, era xingada pelas crianças. Todas as suas reações”, lembra.

“Miss Paripueira se considerava a mulher mais bonita da cidade. Era um delírio maravilhoso. E a convivência com ela foi fantástica”, conta Márcio Passos, lamentando a perda da única cópia do filme que tinha. O curta recebeu o terceiro lugar para Melhor Filme no Festival Nacional de Cinema de Aracaju (Fenaca), em 1978, e a mesma colocação no IV Festival do Cinema Brasileiro de Penedo.

O cineasta recorda alguns episódios engraçados protagonizados por Ambrosina, como quando falava sobre a paixão dela por um certo capitão Salgado, ou por um personagem da novela Antônio Maria, exibida pela TV Cultura, em 1985. Há quem diga que o tal capitão existiu e há quem afirme que era só mais uma invenção da sua cabeça. Ela também não descuidava da aparência, pois, caso contrário, Lulu da Barra, invejosa, poderia roubar a sua coroa e o seu título. Lulu, segundo Miss Paripueira, não sabia desfilar e nem tão pouco dançar o Carnaval. Somente ela conhecia o “passo da onça”, um estilo de dança com o qual pretendia desafiar a invejosa rival.

“Uma coisa que me chamou a atenção foi o fato dos moradores de Paripueira gostarem dela até certo ponto. Porque às vezes ela incomodava, tornava-se agressiva. Mas, na maioria das vezes, era dócil, animada e brincalhona”, afirma Passos, ressaltando uma cena que lhe marcou: “Certa vez, ao entrar numa casa onde os familiares estavam reunidos na varanda, Miss se dirigiu para cumprimentá-los. Mas eles não davam a mão para ela. Só as pontas dos dedos. Nunca me esquecerei disso”.

Aclamada durante um Carnaval, a Miss Paripueira, vestia-se de forma folclórica, carnavalizada, e fazia peregrinações diárias pelas ruas. Antes da “fama”, fazia-se de beata e pedia contribuições para uma novena

A artista alagoana Beta Basto também guarda lembranças da Miss. “As boas lembranças que tenho dela são do começo do seu reinado. Mas, infelizmente, ela, que antes era mimada pela turma que ia passar férias em Paripureira, tornou-se motivo de brincadeiras maldosas”, recorda.

Um dia, os jornais noticiaram a morte de Miss Paripueira, vítima de atropelamento, no Centro de Maceió. Todos lamentaram o desaparecimento daquela figura emblemática de Paripueira. Passado algum tempo, ela apareceria novamente nas ruas da cidade. Não era um fantasma: a reportagem havia publicado uma informação equivocada. Ela estava viva e apontou como responsável por espalhar aquela notícia inverídica a sua “arquirrival”, Lulu da Barra.

Ela continuou por mais alguns anos na sua peregrinação habitual pelas ruas do município de Paripueira, pedindo dinheiro para sua sobrevivência e defendendo o seu reinado de Miss. Até que, já debilitada pela idade avançada, abandonou suas andanças diárias. Mesmo assim, amigos e conhecidos continuaram contribuindo financeiramente e com doações. Quase duas décadas após sua morte, ocorrida em 1995, a Miss Paripueira nunca foi esquecida pelos alagoanos.” (fonte: http://graciliano.tnh1.com.br/2014/03/06/olha-a-miss-paripueira/)

Carlito Lima tambéme screveu sobre a Miss Paripueira:

Convicta dentro de sua insanidade, ela se orgulhava clamando aos quatro cantos da cidade: “Eu sou a Miss Paripueira”. Vestia-se escandalosamente, saias e blusas chamativas, enfeitava-se de colorares, balagandãs. Pulseiras das mais diversas enchiam seus pequenos braços. Baixinha e amável, amava sua peruca, amarrava uma fita na testa, os óculos escuros era peça imprescindível pelo dia e pela noite.

A molecada gostava da maluca, pedia para dançar, tendo ou não música, ela não fazia de rogada, marcava passos como uma bailarina, dançar estava no seu sangue, na sua índole.

Nasceu não se sabe quando na comunidade de Paripueira, belíssima praia, atração turística do Nordeste, antigamente um recanto de poucos privilegiados, mar azul esverdeado. Marolas beijando os pés à beira-mar, andar dentro d’água ao fundo é um passeio, depois de alguns momentos mar à dentro, a água permanece pouco acima da cintura. Paripueira é paraíso e refúgio. Gente de letras e artes mora naquela praia pertinho da capital, um bairro de Maceió.

Ambrosina Maria da Conceição, mulher saudável casou-se teve filhos, até que um dia desatinou, sentiu-se linda, se coroou Miss Paripueira. Em janeiro na famosa Festa de Santo Amaro, era a alegria da meninada, divertida com seus colares, suas roupas coloridas e um sorriso constante na boca como se tivesse mangando do mundo, tornou-se símbolo da cidade. Nos carnavais ela percorria a maratona carnavalesca na Rua do Comércio em Maceió, o Banho de Mar à fantasia na Avenida da Paz e gostava de acompanhar os blocos pela cidade.

Ficava triste e irada quando a meninada a chamava de Sabiá, canela de Sabiá, perdia a alegria, se zangava, pegava pedra e pau sacudia nos meninos. Certa vez acertou uma pedra no olho de um jovem, o levaram para no Hospital, o pai, influente político foi à Delegacia deu queixa do ocorrido, levou dois guardas, tentou prender Miss Paripueira, entretanto, a comunidade saiu à rua a seu favor, defendendo aquela criatura que não fazia mal algum. Para assegurar a liberdade levaram-na num jipe para Maceió, passou um mês na casa de um primo no bairro do Poço. Foi quando conheceu melhor a capital, todo dia ela se arrumava com seus vestidos chamativos, seus inefáveis óculos escuros, a bolsa espalhafatosa e desfilava pela Rua do Comércio no centro da cidade, se empolgando, em sua loucura ouvia aplausos, palmas do povo aclamando: Miss Paripueira, Miss Paripueira. Agradecia fazendo uma reverência com o corpo, dava uma volta, um adeus com a mão, continuava em frente, era a mulher mais bonita e mais feliz do mundo

Em sua cabeça todos os homens lhe olhavam, lhe queriam, lhe desejavam. Entretanto, seu maior prazer era dançar, quando havia música, a baixinha saía nos passos bem marcados, tinha ginga e balanço. Durante o carnaval ficava à frente dos blocos, seja o Vulcão, o Cavaleiro dos Montes, o Vou Botar Fora, Miss Paripueira era sempre bem vinda fazendo o passo no seu estilo alegre, contagiante. Sempre agradecendo à multidão, aos fãs, delirava em sua cabeça ao ouvir gritar: Miss Paripueira, Miss Paripueira.

Não se sabe o fim da doce, encantadora, louca, extravagante criatura que em sua época teve um pedaço do reino das cidades de Maceió e Paripueira. Não se sabe onde ou quando morreu. Até que lhe prestaram algumas homenagens.
Na entrada da cidade havia um bar com o nome de Miss Paripueira e um retrato na parede pintado por um artista anônimo. O artista, cineasta, poeta José Marcio Passos dirigiu e produziu um curta documentário, “Meu Nome é Miss Paripueira”, exibido em 1978 no Festival de Cinema Brasileiro de Penedo.

Mais recente, na era da Internet tem uma comunidade no Orkut: “Eu sou fã de Miss Paripueira”. Em um carnaval recente houve um concurso de fantasia exclusiva de Miss Paripueira. Quem era íntimo dessa grande mulher é o célebre jornalista José Alberto Costa, o JAC que poderá contar pormenores da vida de nossa pacata e alegre cidadã, não podemos relegar ao esquecimento os heróis e heroínas de nossa cidade.” (fonte: http://www.luizberto.com/epistolas-do-cardeal/miss-paripueira)

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