Em uma cidade ainda carente de iniciativas culturais, sempre que estamos diante das raras oportunidades que nos permitem contemplar o maravilhoso mundo das artes, em qualquer de suas manifestações (música, literatura, artes plásticas, etc.), não podemos nem deixar de conhecer o que somente o puro talento é capaz de produzir, nem tão pouco deixar de reconhecer de público a experiência que tivemos diante das criações as quais tivemos acesso.

Foto: AILTON CRUZ

Ontem tive a satisfação de visitar a exposição “Decifro“, que está sendo apresentada na Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), na Praça Sinimbú.  Na verdade, além de ter apreciado esta interessantíssima mostra que reúne 30 fotografias, 16 telas e depoimentos nas línguas oficiais de Camboja e Laos, tive a sorte e alegria de reencontrar minha amiga Camila Cavalcante, que atualmente residindo na Escócia, fez questão de abrir sua mais nova exposição, em que retrata o problema do analfabetismo em países do Sudeste Asiático, exatamente na terra que a viu nasceu, Alagoas.

Além de ser uma pessoa extramamente talentosa, Camila demonstra mais uma vez sua sensibilidade social (já o havia feito na exposição anterior, intitiulada Enternecer, que também esteve em Maceió), fazendo com que o público que visita a exposição “Decifro” possa refletir sobre o significado de ser iletrado.

Neste contexto, Camila vivenciou esta experiência, ao passar alguns meses em países asiáticos que sequer conhecia uma única palavra do idioma. Não obstante, através de sua arte, que mistura fotografia e artes plásticas, procurou dar seu significado pessoal a cada uma das palavras. O resultado ficou fantástico, mas você deve conferir pessoalmente e “decifrar” cada uma das criações de Camila Cavalcante, uma pessoa e artista de primeira qualidade, que engrandece
o nome de Alagoas pelo mundo afora.

CAMILA CAVALCANTE NA MONTAGEM DE DECIFRO_FOTO DE ALICE JARDIM (2)

CAMILA CAVALCANTE NA MONTAGEM DE DECIFRO_FOTO DE ALICE JARDIM (1)

A aceitação de Camila Cavalcante como artista visual foi gradativa. “Da descoberta da fotografia até onde estou hoje, foi um longo caminho, porque sempre fugi do rótulo de ‘artista visual’. Eu achava que ele carregava um peso muito grande, que a classe média alagoana foge, como o fato de ter uma profissão incerta, instável, que não se enquadra naquelas consideradas mais clássicas.”

Mesmo resistente, Camila, se viu, cada vez mais com as linguagens artísticas. A alagoana, que atualmente vive em Edimburgo, na Escócia, decidiu expandir sua percepção imagética além das fronteiras do jornalismo – curso no qual é formada pela Universidade Federal de Alagoas – e há quatro anos dedica sua fotografia às artes visuais. A entrega, ainda que tardia, não deixou de lhe render bons frutos.

Desde então, a artista já participou de 14 exposições no Brasil, Estados Unidos e Reino Unido e foi duas vezes premiada em concursos nacionais de fotografia. Trazendo pela primeira vez uma exposição solo para Maceió, Camila apresenta 30 fotografias tiradas nos países Laos e Camboja e expõe 16 colagens em telas, na Pinacoteca Universitária – galeria de arte mantida pela Ufal, até o dia 30 de janeiro de 2015.

Batizada de “Decifro”, a mostra é resultado da sua vivência nos países do Sudeste Asiático, onde vivem por meses a experiência do analfabetismo e a liberdade de criar significados para palavras apenas a partir do estímulo visual e estético, sem quaisquer sentidos pré-concebidos. Três imagens desse projeto foram selecionadas para a exposição ‘The Story of The Creative’, em Nova Iorque, em 2013.

“Decifro” é um projeto de artes visuais que se apropria dos dados que revelam Alagoas com o maior índice de iletrados do Brasil para refletir sobre a percepção social e pessoal de ser analfabeto.

Para a curadora da exposição, Nicole Plascak, a exposição é um convite a experimentar o mundo sem sentidos pré-concebidos. Ela provoca: “Como seria olhar a paisagem traduzindo-a apenas em sentimento”? E anuncia: “O mundo desvendado pela artista é feito de contrastes e mistérios. Num namoro tímido com a abstração, as imagens têm a medida certa de incerteza para nos permitir o ensejo da dúvida e, a partir daí, dá-se o precioso momento da criação de significado compartilhada entre artista e visitante”.

Em entrevista à Graciliano, a artista destaca a relação com Alagoas, fala sobre processo de criação e as suas descobertas.

Como a fotografia surgiu em sua vida e como ela transpõe a sua interpretação de mundo?
Bom, eu acho que como todo alagoano que tem a mente criativa e está morando aqui tem certa dificuldade em que aplicar sua criatividade. Como não temos o curso de artes plásticas, é sempre mais difícil pensar numa formação acadêmica. Eu venho de uma família de médicos. Então, ser artista nunca foi uma opção para mim. Quando fui fazer vestibular, cai no Jornalismo devido a falta de outra opção, que me parecesse viável. Pois, achava que não me encaixava nas outras coisas. Foi um acaso, na verdade, e também uma grande sorte. Porque se eu tivesse feito outro curso, não teria entrado em contato com a fotografia. Durante a faculdade, fui aluna do Celso Brandão, o meu grande mestre, que ,me inceitivou desde os primeiros cliques. A fotografia caiu como uma luva para onde colocar a minha criatividade. E graças ao Jornalismo, eu desenvolvi um lado mais político, social.

Você tem uma carreira consolidada nas artes visuais. No entanto,  esta é a primeira exposição solo em Maceió. Uma oportunidade para se tornar mais reconhecida em seu próprio estado.
Já expus Pinacoteca, há três anos atrás, com a mostra Enternecer, que foi muito especial para mim. Naquela época, a gente teve uma recepção boa, pois como a exposição tratava de memória atraímos um número grande pessoas. Batemos recorde de visitações daquele ano. Com Decifro, acredito que seja outro tipo de relação, já que não estou trabalhando com memória coletiva ou a pessoal. Imagino que as pessoas vão ter outro tipo de relação com este trabalho. Mas, ao mesmo tempo, Decifro não é apenas inspirado, mas sim todo baseado em Alagoas. É porque eu sou alagoana que fiz este projeto. Cresci vendo pessoas analfabetas ao meu redor. E isto não é uma coisa que acontece no Brasil inteiro. Como eu cresci no interior, convivi com pessoas que não sabiam ler, o que sempre me incomodou. Alagoas está na raiz de Decifro. O fato de eu ter ido pra Ásia foi um elemento provocador para me sentir como as pessoas daqui se sentem.

É possível estabelecer uma ponte entre a língua local desconhecida por você em Laos e em Cambo, e o grande número de alagoanos analfabetos no próprio país em que vivem. De que você você traduz essa relação na sua obra?
A ideia partiu quando eu ainda estava no Brasil, quanto pensava numa possibilidade de desenvolver esta temática. Eu achava que a exposição iria ter a fotografia da palavra e a fotografia do significado, lado a lado. Mas, esta ideia acabou não ficando. Pois, ao chegar lá na Ásia, a riqueza das coisas, dos materiais, me fez expandir as minhas práticas artísticas, através da colagem. Já tinha feito instalação, vídeo, etc., mas nunca tinha saído do campo da fotografia. Ao me deparar com os tecidos, o papel de arroz, todos materiais de lá,pensei que não usá-los seria burrice minha. Poderia, assim, trazer um pedacinho da Ásia para onde quer que eu fosse expôr. Já quanto a questão de transformar esta relação em fotografia possui dois vieses. O primeiro, foi como eu estava me sentindo lá, de como eu me sentia no momento em que fotografava. O segundo, era quando eu escolhia uma palavra e fotografava o seu significado, como também escolhia uma imagem e depois ia atrás de uma imagem.

Após a experiência em Laos e em Camboja, quais limites da dependência da palavra escrita para a relação com as pessoas, os lugares e as coisas você passou a reconhecer?
Com tudo, porque a gente não se toca que temos a palavra escrita em todos os ambientes da nossa vida, pois está tão intrínseco no nosso cotidiano. Mas é uma coisa que é muito profunda. E quando você está num país onde não consegue falar, entender, aí você está completamente alheio, não tem como se comunicar.

‘Decifro’ tem uma preocupação de ser acessível, democrática, para diferentes tipos de público. Gostaria que você falasse um pouco sobre isto.
Eu acho que tal intenção é bem coerente com a proposta do projeto. Pois, se é um projeto que fala sobre analfabetismo, eu estaria sendo muito incoerente caso não democratizasse o que está exposto para quem não sabe ler. Na verdade, eu acredito que todas as exposições deveriam ser assim. Especialmente, neste estado, cujo índice de pessoas analfabetas é imenso”. (fonte: http://graciliano.tnh1.com.br/2014/11/27/decifrando-os-olhares-de-camila-cavalcante/)

Ainda sobre a exposição “Decifro”, a Gazeta de Alagoas publicou:

LEITURA DOS OLHOS E DA ALMA

ARTE. A artista visual Camila Cavalcante visitou países do Sudeste Asiático e vivenciou por meses um dos principais problemas sociais de Alagoas: o analfabetismo

O estado de Alagoas lidera o ranking de analfabetismo em todo Brasil. É o que mostra as pesquisas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo os levantamentos, 21,6% dos habitantes não sabem ler nem escrever. Mostrando a capacidade da arte em elucidar a realidade, a manchete que se repete todos os anos e denuncia a problemática da educação no País funcionou como principal fonte de inspiração para a artista visual Camila Cavalcante.Em Decifro, nova mostra exposta da Pinacoteca Universitária, a alagoana, jornalista e fotógrafa reúne 30 fotografias, 16 telas e depoimentos que registram sua experiência em Camboja e Laos, países do Sudeste Asiático, onde a artista vivenciou por meses a realidade do analfabetismo e a liberdade de criar significados para palavras, unicamente a partir do estímulo visual e estético, sem qualquer sentidos pré-concebidos. O contato com uma língua a qual não tinha nenhum entendimento prévio, com um alfabeto diferente e uma nova estrutura de leitura, fez com que a artista se visse entre os 21,6% iletrados, que constroem a realidade do analfabetismo em Alagoas e travam uma luta diária para traduzir e entender o mundo à sua volta. “Eu cresci em Arapiraca, interior daqui de Alagoas, e muitas pessoas ao meu redor não sabiam ler. Isso nunca foi uma coisa que entrou na minha cabeça. Como eu, criança, sabia ler, e uma pessoa grande não? Sempre tive dificuldade de entender isso. Então, quando eu estava me preparando para viajar, e me dei conta dos lugares que visitaria, pensei que essa seria minha oportunidade de trazer esse problema social à tona e trabalhar com essa questão da semiótica da linguagem”, conta Camila Cavalcante.Com registros feitos no ano de 2012, o material traz fotografias de qualquer objeto ou situação que despertasse o interesse da fotógrafa. Paisagens, materiais, animais e até mesmo hábitos cotidianos dos países ganharam foco e novos significados pelas lentes de Camila. Valorizando a percepção visual, a artista concede a cada imagem novas definições e nomenclaturas, de acordo com sua própria sensibilidade estética. Nesse sentido, o alfabeto asiático, desconhecido por Camila Cavalcante, é explorado às cegas, sem nenhum entendimento prévio e seguindo apenas a sensibilidade visual e seus sentimentos.

“As palavras que trago nas telas representam a imagem só para mim. Não faço a menor ideia do que elas significam de fato. Eu as escolhi pelo que elas eram visualmente. Se via uma palavra muito bonita imaginava logo uma fotografia que estabelecesse simetria com isso. Por exemplo, vi uma palavra que era obviamente linda, e tive certeza que ela deveria representar algo verdadeiramente muito bonito. A partir disso, fui atrás de algo que achasse que se adequasse, e achei a paisagem que retratava o mar. Isso me pareceu familiar, assim como a palavra. A imagem da praia foi no Camboja, mas poderia ser em Miaí de Baixo, em Coruripe. Queria algo que fosse obviamente muito bonito em todas as culturas”, ressaltou“. (fonte: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/mobile/noticia.php?c=257044)

Pinacoteca Universitária (Praça
Sinimbu, 206, Centro). Até 30 de janeiro de 2015. Visitação: Segundas e quintas, da 8h30 às 20h; e terças, quartas e sextas da 8h30 às 18h. Entrada gratuita.

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