O que alguém consegue produzir em apenas 36 anos de vida? Seria este tempo suficiente para que se possa deixar um fabuloso legado intelectual que será lembrado por várias gerações? Em pleno Segundo Reinado, quando o Brasil era um Império, um alagoano de Marechal Deodoro provou que 36 anos de vida, se dedicados a grandes causas, são capazes de fazer com que uma pessoa entre para a história de um país.

Um dos grandes personagens do Brasil no século XIX, patrono da cadeira n° 35 da Academia Brasileira de Letras, Aureliano Cândido Tavares Bastos nasceu em 1839 na cidade que hoje se chama Marechal Deodoro. Parece que advinhando que não teria muito tempo para desperdiçar, já aos 20 anos, o jovem Aureliano concluiu seu doutorado em Direito. Com 21 anos, já era deputado. Com vocação para a Política (com “p” maiúsculo), foi eleito deputado pela Província de Alagoas por três legislaturas.  Além de político, foi também advogado, jornalista, escritor e um célebre publicista, referência até hoje no país em temas como o Federalismo, o liberalismo, o papel e tamanho do Estado, dentre outros assuntos. Aos 36 anos, faleceu em Nice, na França, onde fora se tratar de um problema de saúde (pneumonia).

De acordo com o site do Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, Aureliano Cândido Tavares Bastos:

Nasceu em Alagoas a 20 de abril de 1839, tendo cursado a Faculdade de Direito de São Paulo, bacharelando-se em 1861. Seguiu a carreira política, exercendo mandato de deputado federal em sucessivas legislaturas. Notabilizou-se, no segundo reinado, como defensor do federalismo, idéia que iria prosperar, associada ao movimento republicano. Tavares Bastos, como é mais conhecido, não o viveu porquanto faleceu em 1875, na Europa (Nice, França), onde se encontrava em tratamento médico, aos 36 anos , muito jovem, portanto. Interessou-se vivamente pela questão da imigração, advogando o abandono da religião de Estado a fim de permitir a entrada em massa de emigrantes protestantes, que entendia como condição para que o país ingressasse na rota do progresso. Colaborou na imprensa liberal, sendo um dos fundadores e redatores do Correio Mercantil. Como publicou, no império, além de muitos artigos, diversos panfletos, sua obra veio a ser reordenada contemporaneamente“. (fonte: http://www.cdpb.org.br/dic_bio_bibliografico_bastosaureliano.html)

Segundo o wikipedia, Tavares Bastos “é considerado um precursor do federalismo, por sua luta contra a centralização administrativa durante o Segundo Reinado” (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aureliano_Tavares_Bastos)

Assim, o alagoano Tavares Bastos, considerado pioneiro na divulgação do federalismo no Brasil, até então um Estado unitário, foi fundamental para instalação do modelo de Estado baseado na descentralização política e que foi instituído alguns anos após sua morte prematura, com a República.

A Província A. C. Tavares Bastos

Cartas Do Solitário A. C. Tavares Bastos

Baudelaire No Idioma Vernáculo - C. Tavares Bastos

Sobre a descentralização política, uma de suas principais bandeiras, Tavares Bastos afirmava que:

não bastaria despojar o poder executivo central de certas atribuições parasitas; fora preciso fundar em cada província instituições que eficazmente promovam os interesses locais”. 

E ainda:

As relações entre os dois pontos extremos, o centro e a província, oferecem exemplos significativos do modo por que se operou em ambos a marcha administrativa. Aos embaraços naturais de uma população disseminada por um extenso território, acrescem as delongas e a falta de resolução própria das diversas autoridades, ou o sistema de consultas ao superior imediato, em que acima tocamos, e, finalmente, a dependência direta em que tudo está do centro, onde se estudam, se examinam e se decidem questões que respeitam exclusivamente aos interesses locais

Para Golbery Lessa, ao comentar o livro A província, em que Tavares Bastos propaga as ideias do federalismo no Brasil:

O terceiro e o mais importante livro do autor, publicado em 1870, denomina-se A Província e consiste tanto num monumental estudo sobre o Estado brasileiro quanto numa proposta federalista para os seus males. Foi acolhido como um clássico desde seu aparecimento e passou a ser cultuado por várias gerações de intelectuais brasileiros. Uma prova muito prática desse acolhimento da posteridade é o fato de que os poucos exemplares desse livro existentes no acervo bibliográfico de uma instituição acadêmica tão representativa quanto a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) são provenientes das bibliotecas pessoais (transformadas em fundos) de Eduardo Prado, Sérgio Buarque de Hollanda e Maurício Trautemberg, entre outros intelectuais desse quilate. Apesar dessa importância científica, o livro também sofreu da má sorte editorial dos dois anteriormente citados. Sua segunda edição só surgiria em 1937, sua terceira em 1975, seguida de mais duas, em 1996 e 1997. Ou seja, somente quatro edições após cento e quarenta anos de sua publicação

E mais:

as desventuras editoriais das principais obras de Aureliano Candido Tavares Bastos parecem se explicar pelo fato de que seu pensamento radicalmente democrático chocou-se com várias décadas de hegemonia do pensamento autoritário na sociedade civil e no Estado brasileiro. O federalismo propugnado pelos republicanos positivistas era antípoda ao proposto pelo intérprete alagoano, pois se baseava no elitismo político e na idéia de estabelecer as mesmas instituições em todos os quadrantes do país, desrespeitando as especificidades regionais“. (Golbery Lessa, Lições de Tavares Bastos sobre o Brasil, fonte: http://novoirisalagoense.blogspot.com.br/2011/08/licoes-de-tavares-bastos-sobre-o-brasil.html)

Para Marcos Abraão Ribeiro, autor do artigo “O americanismo em Tavares Bastos e a crítica ao liberalismo brasileiro“:

O autor alagoano definia o país como um herdeiro de uma malfadada herança de Portugal,  que dominava a sociedade com seu atavismo e impedia que as forças renovadoras pudessem capitanear uma via de desenvolvimento para o Brasil. Com seu diagnóstico sobre a condição parasitária do Estado aliada à proposição de descentralização administrativa capitaneada pelo ideal americanista, Tavares Bastos inseriria seu nome na história política brasileira como grande autor da tradição liberal que atribuía ao Estado nossos grandes males. Esta corrente terá como sucessores, no século XX, Raymundo Faoro e Simon Schwartzman.” (fonte: http://www.uenf.br/Uenf/Downloads/Agenda_Social_6866_1307367529.pdf)

Tavares Bastos, apesar de sua curta trajetória, demonstrou interesse por diversos temas:

A descentralização administrativa; a livre navegação dos rios; a cabotagem franca; o desenvolvimento das nossas relações comerciais com os povos americanos; a aquisição do telégrafo elétrico; a expansão da liberdade comercial pelo estabelecimento de um vasto sistema de viação férreas; a liberdade de cultos; as franquezas dos imigrantes; a reforma eleitoral sobre a base do sufrágio direto; a organização da magistratura de modo a lhe assegurar a independência; a reforma do parlamento sobre a base da temporariedade do cargo de senador e sobre a base da população do império; a democratização de todas as nossas formas governamentais” (Plínio Barreto, apud Thiago Lenine Tito, Identidade e Memória em disputa: Comemorar Tavares Bastos em tempos de Estado Novo brasileiro, fonte: http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300970378_ARQUIVO_IdentidadeeMemoriaemdisputaComemorarTavaresBastosnostemposdoEstadoNovobrasileiro[1].pdf

Para Nelson Werneck Sodré,  no pensamento de Tavares Bastos, destaca-se a sensação que este teve sobre  “a perigosa disparidade que fixava uma centralização absurda a imensidade territorial” . Para Sodré, Tavares Bastos criticava os defensores de “uma política cega que confundia descentralização com separação”. Sodré aponta o problema, previsto por Tavares Bastos, em se reduzir todos os problemas provinciais a um “denominador único duma orientação estabelecida e única, incapaz de se moldar às circunstâncias (…) de flexionar-se a imperiosa realidade”. Conclui Sodré: “não há, talvez, obra de pensador morto, no Brasil, que tenha a atualidade de Tavares Bastos. Ele sentiu e buscou soluções para todos os problemas vividos e nevrálgicos da nacionalidade. Foi objetivo e realista” (trecho retirado do texto de Thiago Lenine Tito, Identidade e Memória em disputa:Comemorar Tavares Bastos em tempos de Estado Novo brasileiro,  TOLENTINOfonte: http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300970378_ARQUIVO_IdentidadeeMemoriaemdisputaComemorarTavaresBastosnostemposdoEstadoNovobrasileiro[1].pdf)

Por tudo acima destacado, podemos afirmar que o alagoano Tavares Bastos é um dos pais do Federalismo no Brasil e o precursor de vários ideais. Mais que isto: em seu imenso legado, que deve ser melhor divulgado a fim de que os brasileiros possam usufruir as lições que deixou no campo da Política, da Economia, da Educação, dentre outras áreas, está sempre presente a preocupação que tinha com as questões sociais. Isto pode ser constatado no trecho abaixo, escrito quando Tavares Bastos tinha apenas 23 anos:

Tratemos, meu amigo, das questões sociais, da essência desse todo em cujo centro habitamos. Em uma palavra, tratemos do povo, e, para subir gradualmente, comecemos pelo miserável. A estas palavras: povo e miserável, imagino que me encarais com ar de estranheza …Não, vós não as estranhareis! Sim, há uma cousa que se esquece muito no Brasil: é a sorte do povo; do povo, que não é o grande proprietário, o capitalista riquíssimo, o nobre improvisado, o bacharel, o homem de posição. Fala -se todo o dia de política, canta-se a liberdade, faz-se de mil modos a história contemporânea, maldiz-se dos ministérios e evoca-se a constituição do seu túmulo de pedra. Ora-se a propósito de tudo, menos a propósito do povo. Escrevese a respeito de Roma e Grécia, de França e Inglaterra; mas não se escreve acerca do povo. Enviam-se os sábios do país a estudar a língua dos autóctones, a entomologia das borboletas e a geologia dos sertões; mas não se manda explorar omundo em que vivemos, não se observam os entes que nos redeiam, não se abrem inquéritos acerca da sorte do povo”  (trecho de Cartas do solitário, de 1862)