Em um país onde todos os dias inúmeras pessoas, vergonhosamente, no exercício de relevantes cargos públicos, praticam atos que desonram a posição que ocupam, é exatamente um alagoano que vem sendo tratado há quase quatro séculos como o maior traidor da Pátria. Trata-se de Domingos Fernandes Calabar (nascido e morto em Porto Calvo), uma das figuras mais controversas da história brasileira.

Será justa a fama de Calabar? A verdade é que somente nos últimos anos, o tema relativo à posição de Calabar tem sido analisado de forma mais séria e isenta.

No contexto acima, curiosamente, uma das maiores contribuições para que os historiadores repensassem o papel de Calabar foi dada Chico Buarque e Ruy Guerra, que em 1973, escreveram a peça “Calabar, o elogio da traição” (o livro já está em sua 36ª edição). Sobre a peça, que, na verdade, seus autores queriam mais era fazer uma crítica à ditadura militar:

A peça relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu tomar partido ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa. Vivia o Brasil sob a opressão do regime ditatorial militar, e era comum o uso das metáforas nas produções artísticas a fim de, por um lado, burlar a censura rigorosa do sistema (sendo popular a figura de Armando Falcão, Ministro da Justiça, encarregado dessa tarefa canhestra) e, por outro, denunciar a situação atual.  Chico Buarque foi um mestre no uso dessas figurações: e o episódio histórico do traidor Calabar, comum em todos os livros didáticos como um dos maiores exemplos de perfídia – serviu de mote para justamente questionar a chamada versão oficial.  Na peça, Domingo Calabar passa de comerciante que visava o lucro e que, por isto, traíra os portugueses e colonos brasileiros – para um quase herói, que tinha por objetivo não o ganho pessoal, mas o melhor para o povo brasileiro (na verdade um conceito ainda inexistente, no século XVII). A intenção dos autores, porém, não era denunciar um erro histórico, nem tinha a pretensão de promover uma revisão: o alvo era, justamente, o próprio regime militar, sua censura, os veículos de comunicação que, engessados pelas versões dos fatos sempre acordes com o sistema, passavam ao povo imagens que precisavam ser questionadas em sua veracidade“. (fonte: wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Calabar:_o_Elogio_da_Trai%C3%A7%C3%A3o)

Ainda sobre a peça:

“Peça teatral sobre a traição de Calabar, personagem da história brasileira que foi considerado traidor por ficar ao lado dos holandeses na guerra contra Portugal.  Na década de 70, a dramaturgia nacional era alvo do mesmo patrulhamento que cerceava a liberdade de músicos, políticos, escritores, educadores e tantos outros. É neste contexto que dois importantes artistas escrevem uma das páginas mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo. Exemplo de utilização da matéria histórica como instrumento gerador de reflexão, Calabar – o elogio da traição, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, é relançado pela Civilização Brasileira com novo projeto gráfico.

Calabar – o elogio da traição, escrita justamente entre os anos de 1972 e 1973, no auge da ditadura militar brasileira e as vésperas do abril florido da revolução portuguesa — o que criou obstáculos à montagem da peça — é uma alegoria histórica que se passa na época das invasões holandesas em Pernambuco, no século XVII. Aborda a questão da lealdade e da traição, numa clara alusão à conjuntura política do período em que foi escrito. Inclui canções famosas de Chico Buarque, como Anna de Amsterdã e Bárbara.

Com sensibilidade e inteligência, a peça amplia o debate ideológico de forma provocativa, irônica, quase caricatural. Os conceitos de traidor e traição, se subjetivos per se, tornam-se ainda menos palpáveis na obra de Chico e Ruy. Afinal, onde está a traição: nos mantenedores da ordem ou na rebeldia dos heróis? E quem são, de fato, os heróis e os vilões? Como escrevia Fernando Peixoto, em 1980, o texto de Calabar – o elogio da traição é “mal-comportado, e por isso estimula a elaboração de um espetáculo debochado, capaz de assumir a quase anárquica, mas organizada colagem e a justaposição de imagens e épocas”.

Com Calabar – o elogio da traição, visam divertir o público, espalhando pontos de interrogação, dúvidas e perplexidades. Surpreendendo pelo atualizado deboche crítico, fundamentado num confronto realista com temas essenciais de nossa existência de nação social-econômica-política- culturalmente ainda colonizada num tímido mas empenhado esforço de construção de uma democrática cultura nacional-popular.

Há sensibilidade e inteligência na utilização da matéria histórica como instrumento capaz de instaurar uma conseqüente reflexão que ultrapassa os limites de determinadas circunstâncias político-econômicas e amplia o debate ideológico de forma irônica, provocativa, apoiada em extrema e contagiante teatralidade, usando a postura crítica e a desmedida coragem de assumir o grotesco. A obra desmistifica o conceito de traidor e a noção vazia e abstrata de traição.” (fonte: http://www.passeiweb.com/estudos/livros/calabar)

Registre-se que os fatos que envolvem a vida de Calabar se deram durante o período da invasão holandesa no país (1630-1654). A suposta traição de Calabar foi ter passado para o lado holandês, o que teria prejudicado os portugueses, conforme se vê abaixo:

O trato que a História concede a seus personagens nem sempre é produzido de forma isenta. De fato, julgar as ações de um determinado indivíduo que simplesmente não partilha das mesmas ideias ou não vive em nosso tempo se mostra como sendo uma das mais complicadas tarefas de reconstrução do passado. Em várias ocasiões, especialistas debatem o sentido e o significado de homens que não podem sair em defesa própria pela inexorável barreira espaço-temporal.

Observando a trajetória da colonização do Brasil, temos a presença de uma interessante personagem ligada ao momento em que os holandeses invadiram o Brasil. O proprietário de terras alagoano Domingos Fernandes Calabar foi, durante muito tempo, julgado pela historiografia como sendo um execrável traidor que facilitou a instalação do domínio holandês em terras brasileiras. Nascido no final do século XVI, este homem viveu sob a égide das imposições da administração colonial lusitana. Ao longo de sua vida, recebeu a educação fortemente religiosa dos padres jesuítas e trilhou seu caminho até alcançar a condição de senhor de engenho. Em 1630, quando os holandeses tentavam adentrar o território pernambucano, este membro da elite colonial ingressou nas forças portuguesas comandadas pelo português Matias de Albuquerque. Este último, servido pela Coroa Luso-espanhola, organizou várias guerrilhas que impediriam a entrada dos holandeses no Brasil.

A essa altura, Calabar viveu um instigante dilema que vagueava entre sua insatisfação com a falta de reconhecimento dos líderes lusitanos e as recompensas financeiras oferecidas pelos flamengos a todo aquele que ajudasse no projeto de dominação holandês. Em 22 de abril de 1632, se aliou ao inimigo oferecendo prontamente valiosas informações que dariam importante vantagem aos holandeses contra os colonizadores.

O auxílio de Calabar foi de fundamental importância para que várias regiões das capitanias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte fossem dominadas pelos holandeses. Segundo algumas pesquisas, a importância de sua desenvoltura chegou a ser elogiada por alguns dos líderes que lutavam do lado holandês. Apesar de bem sucedido, Domingos Fernandes Calabar acabou sendo vítima da mesma dubiedade que o levou a lutar pela Holanda.

Em 1635, Calabar e seus companheiros participavam de uma luta contra lusitanos na região de Porto Calvo, atual Alagoas. Em meio aos conflitos, o nativo Sebastião do Souto se dirigiu para o lado holandês jurando fidelidade e delatando a presença de um pequeno agrupamento de forças inimigas. Na verdade, a informação de Sebastião do Souto era falsa e fazia parte de um complô anteriormente armado contra os invasores holandeses.

A emboscada cumpriu seu objetivo. As forças holandesas foram derrotadas nesta batalha e o infiel Calabar acabou sendo capturado pelo lado que um dia defendeu. Acusado de traição, foi alvo de um rígido processo judicial que resolveu puni-lo com a própria morte. No dia 22 de julho de 1635, Domingos Fernandes Calabar – o “herói” flamengo e “traidor” lusitano – foi submetido à forca, teve seus restos mortais esquartejados e espalhados em praça pública.

Mesmo com sua morte, a dominação dos holandeses foi vitoriosa. No tempo em que a Holanda geriu os negócios coloniais na região, uma outra lógica de dominação – visivelmente mais branda se comparada à portuguesa – possibilitou a prosperidade material dos colonos. Anos mais tarde, inspirado por tal desfecho, o cantor e escritor Chico Buarque publicou uma obra em que questionou se Calabar deveria ser visto, de fato, como traidor.” (fonte: http://www.mundoeducacao.com/historiadobrasil/domingos-fernandes-calabar.htm)

Outra análise sobre os fatos merece ser transcrita:

Entre as ruínas da Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, datada de 1630, (…) [vagueia] o vulto de Domingos Calabar, assombração que a sedícia e o malogro da invasão holandesa no Brasil obrigaram a penar sem resguardo.” É assim que a escritora Nélida Piñon imagina, condenada a um sofrimento sem fim, a figura de Calabar, ao mesmo tempo herói e traidor da pátria, durante a invasão holandesa.

De família humilde, filho de pai português e de mãe indígena, Domingos Fernandes Calabar teve formação religiosa, estudando com os jesuítas. Em 1630, durante a invasão holandesa a Pernambuco, foi um dos primeiros a se oferecer para lutar, defendendo os portugueses. Deixou para trás gado e terras, para se tornar combatente.

Em 1631, os holandeses conquistaram Ilha de Itamaracá, mas a expansão de seus domínios foi muito lenta. A defesa brasileira, comandada pelo português Matias de Albuquerque, usava uma tática de guerrilhas e, por meio de emboscadas, enfraquecia o exército inimigo. Portugal, por sua vez, mandou como reforço uma armada de mais de 50 navios. Em setembro deste mesmo ano, também desembarcavam tropas espanholas para ajudar na defesa da terra.

No entanto, o descontentamento dos brasileiros que lutavam ao lado dos portugueses aumentava cada vez mais, devido aos maus tratos que recebiam e o pouco reconhecimento que tinham pelos seus serviços. Por outro lado, os holandeses passaram a oferecer recompensas a quem com eles colaborasse.

Em 22 de abril de 1632, Calabar se aliou aos holandeses. Embora o significado de seu gesto e suas intenções jamais tenham sido totalmente esclarecidos, as conseqüências de sua atitude mudaram os rumos do conflito.

Domingos Fernandes Calabar aceitou o posto de major, que lhe foi oferecido, exigindo apenas informações detalhadas sobre o tratamento que seria dado aos brasileiros em caso de vitória holandesa. Em carta dirigida ao governador da capitania, Matias de Albuquerque, Calabar afirmou que passou para o outro lado não como traidor, mas como patriota, vendo que os holandeses procuravam implantar a liberdade no Brasil, enquanto os portugueses e espanhóis tinham interesse em escravizar o nosso país.

No período entre abril de 1632 e julho de 1635, Calabar foi responsável por grande parte das vitórias dos holandeses sobre os portugueses. Lutando contra seus antigos companheiros, revelou tudo o que sabia aos invasores. Com sua ajuda, os holandeses conquistaram várias cidades em Pernambuco. Incursionaram também, com sucesso, pelas capitanias da Paraíba e do Rio Grande do Norte, derrotando importantes centros de resistência hispano-portuguesa.

Em março de 1635 os holandeses atacaram Porto Calvo, terra natal do próprio Calabar. Os portugueses fugiram, deixando os moradores submetidos aos holandeses. A única estrada em condições de ser usada na região estava vigiada por Calabar. O general Matias de Albuquerque, que se retirava para o norte da região, forçou passagem, atacando o local com sucesso.

Domingos Fernandes Calabar foi preso e condenado. Seu nome ficou para sempre associado à idéia de traição. Um tribunal militar proferiu sua sentença. No dia 22 de julho de 1635, Calabar foi submetido ao garrote e depois enforcado. Seu corpo, esquartejado, ficou exposto em praça pública.” (fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/domingos-fernandes-calabar.jhtm)

Quanto aos possíveis motivos que teriam levado Calabar a mudar de lado, segue interessante estudo “Por que Calabar? O motivo da traição”, de Frans Leonard Schalkwijk:

Por que Calabar teria passado para o lado do invasor? Capistrano de Abreu pergunta: “Talvez a ambição ou esperança de fazer mais rápida carreira, ou desânimo, a convicção da vitória certa e fácil do invasor”? Reconheçamos que, com esta inquirição, entramos no campo da especulação histórica, pois não há indícios concretos nos documentos, somente alusões vagas. Deve ter havido motivos claros e outros ocultos, motivos diurnos e noturnos. Além disto devem ter existido forças que o empurravam para fora do círculo português e outras que o atraíam para dentro do campo holandês, forças centrífugas e centrípetas. Lembremos ainda que uma decisão dessas geralmente não se toma de um dia para o outro. Havia motivos que se cristalizaram com o tempo, até que algo levou o barril de pólvora a explodir.

A. Fugitivo?

A primeira pergunta deve ser: será que Calabar era um fugitivo? O confessor de Calabar, antes da sua execução, foi o frei Manuel Calado do Salvador, vigário da paróquia de Porto Calvo. Treze anos depois, em 1648, no auge da revolta contra os holandeses, ao escrever O Valeroso Lucideno, seu livro panegírico em louvor do líder João Fernandes Vieira, Calado afirmou que Calabar era um contrabandista, que inclusive teria cometido grandes furtos e vários crimes atrozes na paróquia de Porto Calvo e, temendo a justiça, fugiu com Bárbara para o campo do inimigo. As Memórias de Duarte Coelho, escritas em 1654, acompanham Calado nessa opinião. Vários historiadores, como Varnhagen e outros, mantêm esse veredito.38 Mas o cônego Pinheiro lembra que “os mais graves cronistas como Brito Freyre (1675), e frei José da Santa Teresa (1698), não falam nesses crimes atrozes atribuídos pelo Valeroso Lucideno e seu Castrioto Lusitano compilador.” Quanto às Memórias do donatário Duarte de Albuquerque Coelho, temos de observar que o autor (cujo irmão Matias, cognominado o “terríbil,”  era o general da resistência portuguesa), escrevendo sobre a traição de 1632, não mencionou motivo algum, somente se admirou de que um homem tão corajoso, que ficou ferido duas vezes na defesa da sua terra, não sentisse ódio dos invasores.  Mas, depois, quando tratou da morte de Calabar, disse que foi um “castigo reclamado por sua infidelidade,” acrescentando que tinha “cometido grandes crimes, e para evitar a punição fugiu passando-se para o inimigo.”  Será que Coelho refletia boatos do campo português depois da traição, além de referir-se aos crimes de guerra ocorridos nas incursões dos holandeses com Calabar entre 1632 e 1635, inclusive em Barra Grande e Camaragibe, ambos distritos no litoral da paróquia de Porto Calvo?  Quanto às informações de Calado, temos de reconhecer que elas nem sempre são muito precisas, e são às vezes romanceadas; além disso, conforme C. R. Boxer, elas freqüentemente eram um tanto caluniadoras e não necessariamente fidedignas. 

Talvez Flávio Guerra seja o autor mais sistemático na rejeição da idéia de fuga por roubo e outras razões dessa natureza. Ele argumenta: a) Calabar era um homem de posses que não aceitou dinheiro dos holandeses; b) ele não poderia ter defraudado bens do estado no Arraial; c) não há documento nenhum que fale em fraude; d) essa alegação surgiu somente alguns anos depois da morte de Calabar. Reconhecemos, porém, que esse jovem inteligente e proprietário de engenhos de açúcar talvez não tenha herdado essas propriedades; talvez fosse mesmo um contrabandista e como tal pudesse ter cometido algum furto ou crime antes da traição. Entretanto, seja como for, naqueles dias de guerra dificilmente esse corajoso e astuto defensor do Arraial seria entregue nas mãos da justiça enquanto o general Matias e o donatário Duarte estavam a seu favor. Por outro lado, depois da traição, depois de tantas tentativas de reconduzi-lo gentilmente, depois de tantos prejuízos e mortes causados na conquista de Igaraçu, Itamaracá, Rio Grande, Paraíba e boa parte do sul de Pernambuco, depois de tantas tramas abortadas para liquidá-lo, não havia chance nenhuma de escapar das garras dos seus justiceiros comandados pelo general Matias, com ou sem crimes cometidos antes da traição. 

B. Teria Segurança?

Mas, sendo fugitivo do lado português, teria realmente segurança se passasse para o outro lado? Inteligente como era, Calabar deve ter calculado o perigo que estava correndo. Será que ele teria tido medo de, no fim, ser abandonado pelos holandeses? Creio que não. Intimamente ele deve ter tido a certeza de que não seria como Frei Calado sugeriu, que os holandeses “se servem (dos seus ajudantes) enquanto os hão mister, (mas) no tempo da necessidade e tribulação, os deixam desamparados e entregues à morte.” A proteção dada posteriormente aos seus aliados judeus e índios e a resistência em render-se finalmente aos portugueses por causa dos mesmos (atestada pelo próprio Calado),  mostra que não é provável que isto tenha acontecido. Mas, pela última vez em Porto Calvo, com soldados relutantes, restando pouca água e munições, com lenha amontoada pelos sitiantes debaixo da casa forte para queimá-los, e depois de “mais de meio-dia no ajuste dos artigos de rendição, porque o inimigo insistia em levar consigo Domingos Fernandes Calabar,” o próprio soldado Calabar sabia que era impossível escapar e, querendo poupar as vidas dos seus amigos e subordinados, “disse com grande ânimo estas palavras ao governador Picard: ‘Não deixeis, senhor, de concordar no que se vos exige pelo que me diz respeito, pois não quero perder a hora que Deus quis dar-me para salvar-me, como espero de sua imensa bondade e infinita misericórdia’.”  Deve ter pedido, ainda, que cuidassem bem da sua mulher, com quem fugira para o campo holandês, e de seus filhos, pois ia entregar-se sozinho. De fato, o governo cuidou bem da família do seu nobre capitão, pois a sua viúva passou a receber para cada um dos seus três filhos menores o salário de um soldado, num total de 24 florins mensais, equivalente ao salário de um mestre-escola, o que não acontecia com a família de pastor e capelão do exército tombado no serviço da Companhia. Por outro lado, o próprio major Alexandre Picard deve ter ficado arrasado com o triste fim do colega, e nós o encontramos depois na Holanda recuperando-se na casa do seu irmão pastor em Coevorden.

C. Exemplos de “Traidores”

Fugindo em busca de refúgio ou não, também temos de lembrar que a época conhecia muitos exemplos de “traidores,” de ambos os lados. Embora Calabar fosse considerado em abril de 1632 como o primeiro a desertar do Arraial, os documentos testificam que já havia passagens dos dois lados. Alguns soldados franceses a serviço da Companhia das Índias Ocidentais passaram para o campo português devido à religião, e houve judeus que fizeram a viagem em direção oposta pelo mesmo motivo. Sabemos de escravos que fugiram dos seus donos para obter mais liberdade entre os holandeses, de grupos de índios tupis que deles se aproximaram, e também de soldados napolitanos que debandaram para o lado invasor. O “vira-casaca” holandês mais conhecido foi o capitão Dirk van Hooghstraten que, em 1645, entregou a fortaleza do Cabo Santo Agostinho aos portugueses por um bom dinheiro (que ainda não havia recebido quatro anos depois). Houve pessoas que trocaram de campo até duas vezes, e entraram para a história com honras, como o padre jesuíta Manuel de Morais e o próprio João Fernandes Vieira. O primeiro tinha liderado os índios na resistência contra o invasor, mas passou para o campo do inimigo depois da queda da Paraíba. Foi enviado à Holanda, onde casou-se com uma holandesa e, para ressarcir-se das despesas que teve, cobrou à Companhia das Índias Ocidentais pela ajuda prestada no Brasil. Depois de alguns anos, Morais deixou mulher e filhos, voltando para o Nordeste como negociante. Quando, no início da revolta, foi capturado pelos portugueses, salvou sua pele passando de novo para o campo católico romano. Quando foi preso pela Inquisição, defendeu-se habilmente diante dos seus inquisidores, insistindo que nunca tinha quebrado seus votos sacerdotais, mas, não reconhecendo o matrimônio herético, somente tinha se amancebado com mulheres reformadas. Por sua vez, João Fernandes Vieira ajudou um conselheiro holandês a achar o tesouro enterrado do seu antigo patrão português e conseguiu créditos e mais créditos da Companhia até, em 1645, proclamar a “guerra da liberdade divina” para livrar o Brasil dos “heréticos,” aos quais ficou devendo 300.000 florins, importância altíssima para a época. De fato, em tempo de guerra, a traição está “no ar.”

D. Interpretação Econômica

Revendo esses poucos exemplos, poderíamos então postular que a interpretação mais simples para o caso de Calabar seria econômica. Talvez Calabar, como grande conhecedor da região e dos acessos pelos rios, já fosse contrabandista antes e depois da invasão,  e teria passado para os invasores em busca de dinheiro. Embora tudo indique que ele não precisava disto, pois já tinha adquirido propriedades e gado em Alagoas, um bom dinheiro sempre teria sido bem-vindo. Mas, se foi contrabandista, de certo havia cúmplices, como deixou transparecer o seu próprio confessor. É que Calado relatou alguns detalhes da confissão de Calabar (com permissão do mesmo) ao general Matias; entretanto, este ordenou ao padre “que não se falasse mais nesta matéria, por não se levantar alguma poeira, da qual se originassem muitos desgostos e trabalhos” (sem dúvida para alguns portugueses importantes).  Mas, afinal, será que este moço abastado teria passado para o inimigo por dinheiro, pensando em aumentar a sua fortuna? Southey o acha mais provável.  Calado não o diz, nem Coelho, que somente menciona que Calabar passou a receber o soldo de um sargento-mor. Também, através dos anos, não apareceu nenhum indício disto nos documentos, nem a mais ligeira referência como nos outros casos de peso. Ao contrário, há indicações de que ele recusou o suborno.  Por outro lado, não parece muito provável que Waerdenburch teria oferecido a Calabar o título de capitão caso mudasse de lado, pois desconfiava dele. Se prometeu algo nesse sentido, teria sido mais por uma questão de honra do que por uma razão financeira. 

E. Questão de Honra

Uma interpretação bem mais provável é essa questão de honra; talvez de glória, mas muito mais de reconhecimento, respeito, bom nome, dignidade. Vivendo no século XVII, por ser mestiço e não português “de sangue puro,” Calabar, apesar das suas qualidades, de certa forma era um inferior por causa da cor da sua pele, ainda que atualmente algumas pessoas tenham dificuldade em admitir esse fato histórico. Ainda quase um século e meio depois, o vice-rei do Brasil mandou degradar um cacique indígena que antes tinha recebido honras reais, pois “havia desprezado as mesmas… se baixando tanto que se casou com uma negra, manchando seu sangue.”  Mestiçagem aviltada num Brasil mestiço. Na época de Calabar a situação não era muito melhor e parece que até os holandeses sabiam da discriminação racial contra Calabar. Talvez baseando-se na história de Southey, o romancista Leal faz Calabar pensar em “vingança de tantos desprezos e tantas humilhações com que me têm amargurado os da vossa raça.”  E outro romancista, Felício dos Santos, bem pode ter razão quando faz o napolitano conde Bagnuolo insultar Calabar chamando-o de negro. Seria mesmo o estopim que o fez sair do acampamento do Arraial do Bom Jesus e passar para os holandeses. Anos depois, o próprio governador de Pernambuco (1661-1664) escreveu que Calabar buscara entre os inimigos “a esperança que lhe impedia entre os nossos a vileza do nascimento.” E falando sobre Henrique Dias, o herói africano da restauração portuguesa, acrescenta: “Um negro, indigno deste nome, pelo que emendou ao defeito da natureza.” Por outro lado, Calabar, o mameluco, deve ter observado como os holandeses tratavam melhor os seus escravos,  e os índios até mesmo com respeito, chamando-os de “brasilianos” por serem os primeiros moradores do vasto Brasil.  E quem sabe Calabar também fosse um tanto ambicioso e pensasse que poderia fazer carreira do outro lado, o que num certo sentido aconteceu, como Coelho lembra ao afirmar que “logo o fizeram capitão.”  Não foi tão logo, mas de fato aconteceu.

F. Motivação Religiosa

Resta ainda uma dupla de motivos que deve ser considerada, a político-religiosa. Estas são duas alavancas importantes da história e naquele tempo estavam entrelaçadas quase que inseparavelmente. Será que houve algum motivo religioso na traição de Calabar? Representantes do pensamento cristão reformado como o presbítero holandês coronel Waerdenburch, reconhecidamente um homem de Deus,77 ou o alemão Von Schoppe, ou o polonês Arciszewski, devem ter tido uma influência nesse sentido. Será que Calabar leu o livro de Carrascon, ou “O Católico Reformado” de Perkins,78 livros que já estavam circulando no Nordeste e sobre os quais frei Calado advertia constantemente os seus fiéis em Porto Calvo, berço de Calabar? Anos depois Calado se lembrava de que se não tivesse ficado em Porto Calvo, “os pusilânimes haviam de ter titubeado na fé, e haviam de estar envoltos em muitos erros e heresias. Porquanto os predicantes dos holandeses haviam derramado por toda a terra uns livrinhos que se intitulavam O Católico Reformado em língua espanhola, composto por Fulano Carrascon, cheios de todos os erros de Calvino e Lutero, e persuadiam os ignorantes (e ainda aos que não eram) de que a verdadeira religião era a que naqueles livros se ensinava.”

De fato, houve uma escolha religiosa voluntária por parte de Calabar, o que não era possível na direção oposta.80 Ele podia ter passado para o lado holandês sem filiação à “igreja do estado” e Bárbara podia ter procurado um padre católico romano para o batismo do seu filho. Calabar teria sido considerado um aliado valioso da mesma forma que os tapuias com o seu pajé, os judeus com o seu rabino e os soldados franceses e napolitanos com o seu vigário católico romano. A entrada da família Calabar na igreja reformada foi voluntária e o batismo do seu filho na igreja reformada do Recife em 1634 aponta para isto.81 Finalmente, dez meses depois, no dia da sua execução, Calabar reconheceu mais claramente os seus pecados e se mostrou tão arrependido que os religiosos que o assistiram acharam que “Deus por meio de tal pena o quis salvar, dando-lha no próprio lugar de seu nascimento e onde tanto o havia ofendido.”  Quem sabe Calabar lembrou-se, como posteriormente o índio Pedro Poti durante o seu suplício, das primeiras frases do Catecismo de Heidelberg, escrito em tempos de perseguição pela Inquisição e memorizado pelos fiéis: “Qual o teu único consolo na vida e morte? Que, na vida e na morte, não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo.”

G. Patriotismo

Finalmente, quanto ao aspecto político convém abordar o motivo do amor à terra natal, o patriotismo. José Honório Rodrigues observa que talvez tenha sido Francisco de Brito Freyre (almirante da armada que reconquistou o Nordeste e posteriormente governador de Pernambuco), “dos primeiros a manifestar, ao se referir a Calabar, sentimentos patrióticos em relação ao Brasil,” quando diz que Calabar foi enforcado em Porto Calvo, “pátria sua.”  Recentemente, o historiador Flávio Guerra defendeu esse sentimento de patriotismo e, ao mesmo tempo, o ódio luso-brasileiro contra a opressão da Espanha. El-rei teria praticamente abandonado o Brasil e quando chegou o reforço sob o comando de Bagnuolo, os estrangeiros receberam, por ordem régia, tratamento melhor do que os “moradores da terra,” dos quais alguns foram indo para suas casas, conforme Calado. Por outro lado, os holandeses prometiam menos impostos do que os espanhóis e tentaram trazer Calabar para si. “A catequização do mameluco estivera sendo trabalhada por um tal de Joer,” agente dos invasores, católico romano, que falava muito bem o idioma do Brasil. Finalmente Calabar teria escrito ao governador Waerdenburch, dizendo: “Passei para essa causa sem querer recompensa, e vim para melhorar minha terra, que não tem liberdade de espécie alguma.” Waerdenburch teria confirmado à Holanda que “Calabar só se colocou ao nosso lado por convicção, pois recusou as recompensas que vossas senhorias lhe haviam mandado. Diz estar certo de que a sua pátria irá melhor do que com os espanhóis e os portugueses.” Guerra conclui que “convicções talvez erradas mas honestas… decorreram do seu idealismo… (para) melhor servir à pátria.” E quando, depois, o general Matias acenou com anistia total na tentativa de trazê-lo de volta, Calabar teria respondido: “Tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o indicado pela minha consciência de verdadeiro patriota, não como traidor, mas como patriota.” E no fim, em Porto Calvo, antes de entregar-se, teria escrito ao governo holandês no Recife: “Serei um brasileiro que morre pela liberdade da pátria.” Infelizmente, não conseguimos localizar os documentos em que a informação de Guerra se baseia. Mesmo assim, a base histórica parece muito sólida.

CONCLUSÃO

Pessoalmente, tenho a impressão de que o motivo que impulsionou Calabar foi um pouco mais “caleidoscópico.” O fator centrífugo ou negativo mais forte talvez tenha sido a ira, ira contra o desprezo racial, inclusive, quem sabe, ódio contra o seu pai português (desconhecido?), uma ira impotente contra a primeira onda de invasores na terra dos “brasilianos.” Se fosse fugitivo, a segurança lhe acenaria. Todavia, o fator positivo mais forte certamente teria sido o seu patriotismo, enfatizado por Flávio Guerra.

A descrição intuitiva de João Felício dos Santos talvez possa estar perto da resposta que se esconde na névoa da história. Para Felício, esse amor à terra natal era patente em todas as fases da vida do soldado, quem sabe um desejo de realmente ver “ordem e progresso” no Brasil (talvez o sonho de servir, não a si mesmo, mas à comunidade, com justiça e paz). Como menino, o romancista faz Calabar estudar em um colégio de jesuítas onde se ensinava uma obediência incondicional à coroa católica romana de Castela, mas faz o menino responder que somente devia obediência à sua mãe e à terra brasileira. Como jovem, ele teria percebido que os holandeses amavam o Brasil pela construção e limpeza do Recife (e podia ter acrescentado: por planos de melhorias como o ensino primário generalizado, limpeza dos limpos, proibição do corte do pau-brasil e do cajueiro, etc.). Finalmente, Felício faz Calabar adulto dizer ao frei Calado, seu confessor, defendendo-se do epíteto de traidor: “São partidários dos flamengos todos os que querem esta terra farta e acarinhada, sejam eles de que nação forem.” Provavelmente foi isto em essência que Chico Buarque também quis enfatizar, em 1973, com seu musical “Major Calabar.”

Na verdade, à pergunta “Por que Calabar passou para o outro lado?” temos de responder por enquanto com um “non liquet,” pois, mesmo do lado holandês, nem o meticuloso cronista De Laet (1644) e nem o panegirista Barlaeus (1647) mencionam motivo algum. De Laet registra somente que “para os nossos passou um mulato, de nome Domingo Fernandes Calabar” e Barlaeus observa que esse “português abandonou o partido do rei (da Espanha) pelo nosso,” mencionando a sua terrível morte por causa da sua infidelidade. Talvez seja pessimista demais a conclusão de Capistrano de Abreu: “nunca se saberá.”  Se for localizada uma das cartas mencionadas por Flávio Guerra, teremos uma resposta clara e autêntica. Mas, de fato, atualmente não sabemos com certeza. Na velha Roma, os juízes podiam usar seu “NL” com discrição, porém sem constrangimento. Era uma placa cujas letras queriam dizer “non liquet,” isto é, o assunto não está claro (líquido). Se, depois de ouvir as testemunhas, o caso ainda não estava claro, eles erguiam as suas plaquinhas “NL” na hora da votação. Não era um atestado de ignorância, nem prova de indecisão, mas de juízo. Era um sinal humilde de que estavam no limite da interpretação honesta dos dados conhecidos. Precisamos ter sabedoria e coragem para erguer o “NL,” porque no caso do capitão Calabar por enquanto não sabemos mesmo. Provavelmente, ele foi movido por um misto de motivos, tendo o amor à sua terra natal como Leitmotiv. Porém, foi sempre uma motivação mesclada, pois “o coração tem razões que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal).” (fonte: http://portuguese.thirdmill.org/files/portuguese/47093~9_18_01_4-13-56_PM~calabar.htm)

Como se vê, afirmar que Calabar é o maior traidor da Pátria é, no mínimo, algo duvidoso. Na verdade, cada vez mais, cresce o número de estudiosos que considera Calabar não como herói, mas como um patriota, algo raro na história brasileira.