Em 1928, Francisco Alves, um dos cantores mais populares do Brasil, em dueto com a cantora Rosa Negra, gravou uma música do compositor alagoano Hekel Tavares, criada no ano anterior. Intitulada “Moleque Namorador”, a música fez muito sucesso à época: (vide este vídeo https://www.youtube.com/watch?v=t8rsk676fX8)

Alguns anos depois, em Maceió, uma pessoa encarnou como ninguém o espírito do carnaval, sendo logo apelidado de Moleque Namorador, símbolo do carnaval alagoano.

Segundo o  pesquisador do Museu de Imagem e Som de Alagoas (MISA), Gilberto Leite:

Na memória do carnaval de Maceió, existe a presença de um personagem marcante. Armando Veríssimo Ribeiro, mais conhecido como Moleque Namorador, famoso e premiado passista que acabou morrendo novo, com cerca de 30 anos, de tuberculose. No dia 7 de setembro de 1961, o prefeito da época, Sandoval Caju, deu nome à praça que seria conhecida como reduto do carnaval, no bairro da Ponta Grossa. A praça é até hoje um dos pontos de maior concentração de foliões em Maceió. “Quando se falava de Moleque Namorador, na época, todos já sabiam que era um famoso passista. Hoje em dia não há quem não conheça a praça e onde ela está localizada”, afirmou Leite.” (fonte: http://www.rotadosertao.com/noticia/43750-blocos-de-carnaval-mantem-tradicao-da-folia-de-rua-nos-bairros-de-maceio)

José Maria Tenório Rocha escreveu o esclarecedor artigo “Moleque Namorador, passista, herói dos carnavais maceioenses”, onde trata das origens e influências do carnaval em Maceió, da figura singular do Moleque Namorador e da curiosa história dos bastidores que envolveram a homenagem feita ao Moleque a partir do nome dado à uma praça da capital alagoana:

Qual pessoa de meia idade, cidadã de Maceió, não conheceu, ou pelo menos ouviu falar em Moleque Namorador, o grande mestre do passo brasileiro?
Ocorre que sendo pessoa de baixo extrato social, não era levado em conta; o preconceito racial e social, dominou as Alagoas dos tempos passados. Acontece que sendo um rei do passo, rei do frevo, a coisa mudava de figura e assim, poderia o rapaz pobre, receber outro tratamento.
A chegada do frevo pernambucano a Maceió, por extensão as Alagoas, aconteceu nos finais da década de vinte do século passado e inícios da década de trinta. Portanto, é a partir dos começos daquela década, que o carnaval recebeu a cara que passou a ter, até a década de sessenta e por extensão a década de noventa do século XX, praticamente.
Dois grandes ramos se estruturaram fortemente para formar o carnaval em Maceió: o carnaval da classe média alta, nos grandes clubes sociais e nos corsos; o carnaval do povão, da “raia miúda”, nas ruas e em casas pobres, onde se realizavam danças de cota, como forma de se comseguir dinheiro para pagar aos tocadores.
Da década de trinta a década de sessenta, o carnaval de Maceió era feito na Rua do Comércio, Avenida Moreira Lima e Praça Marechal Floriano Peixoto. Em torno da Praça dos Martírios, dirigindo-se a rua ao lado do Saem, entrando pela Rua Augusta, indo pela Rua do Sol, voltando para a praça, existia o Corso com as batalhas de confetes e serpentinas.
No meio da praça, a apresentação de blocos de frevo, maracatus, La Ursa, burrinhas, caboclinhos etc.
O bairro do Bebedouro, era um caso à parte; até a década de quarenta funcionava a República da Alegria, do Major Bonifácio; lá ele organizava todas as brincadeiras e fazia a verdadeira democratização dos carnavais.
Na década de cinqüenta, com a decadência dos clubes carnavalescos, começaram a aparecer as Escolas de Samba: Circulista (Ponta Grossa), Unidos do Poço, Cinédia, Império Serrano, Jangadeiros Alagoanos (da Pajussara) e Treze de Maio (Bairro do Poço). Permaneceram até os nossos dias, apenas a Unidos do Poço e a Jangadeiros Alagoanos.(…)A CHEGADA DO MOLEQUEAo tempo em que o carnaval pernambucano ia se estabelecendo em Alagoas, a família do futuro Moleque Namorador, estava chegando ao Estado, começando as novas adaptações.
Seu nome é Armando Veríssimo Ribeiro, nascido na cidade de São Luis de Quitunde (AL), no dia 11 de junho de 1919. Do Quitunde, a família passou a morar na cidade de Muricí (AL) e, no ano de 1926, chega a Maceió.
Tentando ajudar a conseguir o sustento para a família, o menino que estava com sete anos de idade, passou a trabalhar como jornaleiro, depois como engraxate e aí é que conhece o Ras Gonguila, que dirigia o seu clube o Cavaleiro dos Montes, que tinha sede no bairro do Farol e era inimigo figadal do clube carnavalesco Caradura.
O nome de Ras Gonguila foi inspirado pelo título nobiliárquico ou dignitário do Rei da Abissínia, na África, que na época estava em muita evidência; então o folião tomou-o para si, para ser muito reconhecido.
Ao tempo em que Armando se agrega ao ofício de engraxate, junta-se a um grande grupo de meninos de rua, taxados então como maloqueiros, tornando-se entre eles em uma espécie de Robin Hood.
Sendo engraxate, conseguindo algum dinheiro de sobra, se sentia dono de seu nariz para fazer o que bem entendesse; era livre, afinal, líder de uma classe meio perigosa. Essa condição o tornou pandeirista, sambista, batuqueiro, tocador de réco-réco, especialmente no período natalino; tocador de realejo e finalmente passista; era o maior, era o campeão absoluto do frevo, na modalidade do passo. Em todos os concursos que entrava, conseguia o primeiro lugar; derrotou, em concurso de passo o negro Gia, de Pernambuco, aplaudido e vitorioso passista pernambucano.
Aos dezoito anos, enfrentou o Concurso de Passo de 1937, com certame de nome Festa do Passo, realizado no Teatro Deodoro e organizado pelo futuro sociólogo e historiador Manuel Diégues Júnior, onde Armando foi classificado em primeiro lugar, representando o Clube Carnavalesco Cavaleiro dos Montes.
A partir dessa vitória retumbante, várias companhias de Teatro de Revista do Rio de Janeiro e de São Paulo, o convidaram para integrar o seu elenco; assim, a Cia. De Teatro Laison Gaster pretendeu levar o rapaz a qualquer custo. A boate Night and Day, da Cinelândia, Rio de Janeiro, queria que ele abrilhantasse os palcos cariocas.
Tornando-se conhecido em todo o Brasil, diversos repórteres de prestigiosas revistas e jornais, chegaram a Maceió para entrevista-lo; entrevistas e fotografias foram publicadas na revista O Cruzeiro, a revista mais importante do Brasil, na época. Mas o rapaz não aceitou, talvez antevendo a condição de ser portador de tuberculose pulmonar, na época sem tratamento eficiente; e a doença aos poucos ia vencendo de forma inexorável!
Desde quando começou a ganhar uma granazinha, uns trocados, passa a se integrar, cada vez mais fortemente, a grupos marginais e a viver intensamente nos baixos meretrícios, ou como dizia na época, nas gandaias do Ouricurí (atual bairro São Sebastião) e, no Alto do Urubu, uma localidade do bairro de Bebedouro, onde nas décadas de 30/40 era o foco da malandragem da capital alagoana.
Foi verdadeiramente conquistador e farrista de tempo integral, e isso o fez “gastar todo o organismo antes dos trinta anos”.
O moleque orgulhava-se de ser por excelência a figura marginal das Alagoas; era o bacante dos becos e salões da capital e a reinar tanto no Teatro Deodoro, como nos clubes de elite, mas só se sentia bem nos lupanares, lá era muito bem aceito e respeitado, lá era de fato o seu habitat natural.
Depois dessa vida completamente desregrada que cheirava a suicídio, o Moleque Namorador falecia, antes de completar 30 anos de idade, no dia 8 de maio de 1949, vítima de tuberculose pulmonar. Suas últimas horas foram na residência de seus pais, na Rua Xavier de Brito, bairro do Prado, Maceió.
O médico e escritor Ednor Bittencourt, diz agradecido: “Eu ainda menino, aprendi a dançar e, inclusive, a fazer o passo com o Moleque namorador, aprendizagem essa que me proporcionou, posteriormente o tetra campeonato do Clube Fênix Alagoana“.(….)

A PRAÇA MOLEQUE NAMORADOR

Paraibano dos sete costados, Sandoval Caju, escritor, poeta e político, tornou-se prefeito de Maceió, e querendo mostrar serviços, pegou o carro oficial, e o transformou em uma ambulância, apondo uma larga cruz, feita de esparadrapo, nas portas. Em todos os melhoramentos feitos na cidade, colocava um S bastante grande, para dizer a que chegou.
Tomando conhecimento que em Maceió existira um passista que era o melhor do Brasil, não pensou duas vezes, preparou uma grande homenagem, uma praça situada na Rua Paissandu, bairro de Ponta Grossa em local para onde confluem cinco ruas, em uma dessas ruas existiam danças e muitos pequenos bares sendo muito freqüentadas, é lá em frente, que foi dado o título de Praça Moleque Namorador, sendo colocado no centro do logradouro, uma estátua de passista, em estilo moderno, de ferro batido. Tal homenagem foi inaugurada no dia 7 de setembro de 1961 e ficou sendo até os dias atuais “O quartel General do frevo”.
Sandoval Caju foi duramente criticado pelo vereador Rosalvo Siqueira, que se posicionou contra, dizendo: “Eu sei que o senhor prefeito colocou esse nome porque quer anarquizar a nossa cidade. Quase todo mundo conhece bem a vida do Moleque Namorador. Era um rapaz que só vivia de farras, fumando maconha”.
Pegou pesado o edil, mas talvez fosse de bom alvitre que o Sr. Vereador, ouvisse o que dizia um usuário em Recife: “Todo mundo me chama de Mal conheiro (sic), mas eu não sou! Sou um Bom conheiro, nunca fiz mal a ninguém!”.
Não sei se foi praga do vereador, o que sabemos é que o prefeito foi cassado pelo movimento de 1964!

(fonte: http://www.gazetanew.com.br/site/Noticia.aspx?cd_noticia=49709)

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