A música instrumental é um dos patrimônios imateriais que todos os integrantes da Humanidade têm a satisfação de compartilhar: ela não tem fronteiras, regionalismos ou idioma oficial, simplesmente une todas as pessoas em torno do talento e da sensibilidade. Em um dos momentos maís impares da música instrumental, houve o encontro de dois gênios universais: Hermeto Pascoal e Miles Davis.

Um, artista alagoano consagrado como um dos principais nomes da “universal music”, autor de mais de 5.000 músicas e que toca com maestria qualquer instrumento musicial ou mesmo objeto; o outro, talvez o maior nome do jazz mundial de todos os tempos.

Segundo o wikipedia, ao discorrer sobre a trajetória de Hermeto Pascoal:

Em 1969, a convite de Flora Purim e Airto Moreira, viajou para os Estados Unidos e gravou com eles dois LPs, atuando como compositor, arranjador e instrumentista. Nessa época, conheceu Miles Davis e gravou com ele duas músicas: Nem Um Talvez e Igrejinha.” (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermeto_Pascoal)

Na entrevista intitulada “Hermeto fala sobre forró e Miles Davis”, concedida ao Diário de Pernambuco e publicada em 25 de março de 2014, há um relato do encontro:

Como foi o encontro e a parceria com Miles Davis?
Foi um papo espiritual. Eu não falo inglês e ele não falava português. Só quando tinha alguém por perto, o Airton Moreira (percussionista há décadas radicado nos Estados Unidos) ou a Flora Purim (esposa dele, cantora de jazz), que traduzia e a gente falava. Era uma conversa de olhar. Um olhava para o outro e começava a tocar, eu com meu piano, ele com o trompete dele. A gente sentia um ao outro e ia tocando, tanto que gravei duas músicas que saíram no álbum dele (Live-Evil). Era uma conversa de almas…era não, é. Porque a gente também conversa com quem morre“. (fonte: http://blogs.diariodepernambuco.com.br/play/2014/03/hermetopascoalnorecife/)

Segundo site UOL, da Folha de São Paulo, na primeira viagem de Hermeto Pascoal aos Estados Unidos, ocorreu o primeiro encontro com Miles Davis, em um show deste. A partir daí começou uma amizade e parceria entre os gênios artísticos que resultou na gravação de duas músicas. Segundo a reportagem “Aos 77 anos, músico cult Hermeto Pascoal agora quer ser pop“, Davis dizia que Hermeto era o maior músico do mundo. (fonte:http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2014/02/1415484-aos-77-anos-musico-cult-hermeto-pascoal-agora-quer-ser-pop.shtml)

Esta opinião de Miles também foi divulgada no Estadão, que em reportagem publicada em seu blog “Divirta-se”, sobre uma mostra que retratava a vida e obra de Miles Davis e que está em exposição em São Paulo, destacou que:

Brasil que não está ausente da história do compositor: o músico alagoano Hermeto Pascoal foi parceiro de Miles, que o chamou de “o músico mais impressionante do mundo”. E a música ‘Little Church’ se chamava ‘Capelinha’.” (fonte: http://blogs.estadao.com.br/divirta-se/tag/jazz/page/2/)

Miles, que também chamava Hermeto de Albino Louco, considerva-o “‘one of the most important musicians on the planet.” (fonte: http://theculturetrip.com/south-america/brazil/articles/hermeto-pascoal-the-jazz-musician-who-makes-music-out-of-everything/)

Ao que parece, ao invés de duas, foram três as músicas de Hermeto gravadas por Davis:

Falando de Brasil, quem também participa de Live-Evil é o músico Hermeto Pascoal, que tenta estabelecer a calma em um ambiente que simula a injúria e a intermitência. As composições “Little Church”, “Nem Um Talvez” e “Selim”, todas de Hermeto, são parte de um rio afluente que vem para banhar todos os ouvintes depois de pancadas como “Sivad” e “Medley: Gemini/Double Image”, levadas pela guitarra roqueira de John McLaughlin em um estranho diálogo com a cuíca de Airto.” (fonte: http://namiradogroove.com.br/jazz/grandes-albuns-48-miles-davis-live-evil-1971)

Confirmando esta informação:

Though all compositions were originally credited to Miles Davis, the studio recordings “Little Church” (“Igrejinha”), “Nem um Talvez” (“Not Even a Maybe”) and “Selim” are by Brazilian composer and multi-instrumentalist Hermeto Pascoal, who also played with the Davis band on these tracks. (fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Live-Evil_%28Miles_Davis_album%29)

Em entrevista concedida a um site português “Jornal i”, intitulada “Hermeto Pascoal. O crazy albino de Miles Daves“,  o alagoano de Lagoa da Canoa responde algumas perguntas sobre o tema:

Também conheceu o Miles Davis nos anos 70?

Foi um presente lindo de Deus conhecê-lo pessoalmente. Uma pessoa que tinha saído das drogas e que estava numa fase muito linda, muito bacana. Eu acredito muito nessas coisas do destino e conheci assim, quando fui assistir um show dele nos Estados Unidos. Estava lá com o Airto Moreira, que tocava percussão com ele. Estava sentado numa cadeira e chegou aquele moreno lá falando no meu ouvido, bem vestido, um cara que até desconfiei: “Será que é gay?”

Que lhe disse ele?

Tinha combinado com o Airto Moreira para ele me vir socorrer, porque eu não falo inglês e ele veio correndo para mim dizendo que era o Miles Davis e que ele nunca fazia isso com ninguém, que aquilo ‘tava cheio de músicos e que ele nunca falava com ninguém?

E foi falar consigo?

Ele chegou para o Airto e perguntou quem eu era. Não sabia o meu nome, porque na altura eu ainda era desconhecido nos Estados Unidos. Disse que não sabia como tinha vindo falar comigo, que tinha sido uma coisa muito forte que o tinha trazido. Daí para a frente conhecemo-nos pessoalmente e ele quis conhecer a minha música. Ficámos amigos, mas era uma coisa mais espiritual, era difícil eu ir na casa dele ou ele na minha.

O Miles Davis chamava-lhe “crazy albino”.

Sim, foi tudo tão bom, esse amor e esse carinho, que perto de falecer ele deu uma entrevista na Radio France em que lhe perguntaram o que é que ele gostaria de ser quando voltasse à terra depois de morrer. Ele respondeu: “Queria ser uma pessoa como aquele albino louco.” Ele me chamava assim na brincadeira. Fiquei muito orgulhoso e feliz“. (fonte: http://www.ionline.pt/artigos/boa-vida/hermeto-pascoal-crazy-albino-miles-davis/pag/3)

Confira as músicas de Hermeto gravadas por Davis:

Little church:

Nem um talvez:

Selim:

Vídeo em que Hermeto relata um encontro, em que até “lutaram” boxe:

Entrevista de Hermeto falando sobre Miles Davis:

Assim, depois de ter relatado os encontros marcantes e produtivos do alagoano Pontes de Miranda com Albert Einstein (https://culturaeviagem.wordpress.com/2015/01/10/o-encontro-de-einstein-e-pontes-de-miranda-um-alagoano-discutindo-a-teoria-da-relatividade/), da alagoana Nise da Silveira com Carl Jung (https://culturaeviagem.wordpress.com/2015/01/13/o-dia-em-que-a-alagoana-nise-da-silveira-conheceu-carl-jung-mais-um-encontro-de-genios/), tivemos a oportunidade de destacar neste post mais uma reunião de gênios universais que teve um alagoano como um dos protagonistas, o que demonstra a capacidade muitas vezes não revelada deste povo.