Durante alguns anos, Maceió abrigou alguns dos maiores intelectuais brasileiros, dentre eles a escritora cearense Rachel de Queiroz. Sobre esta fase, ocorrida nos anos 1930:

Nesta época, José Lins se tornará amigo do conterrâneo Santa Rosa (1909-1956), funcionário do Banco do Brasil, que morou em Maceió em 1932, e que, radicando-se no ano seguinte no Rio de Janeiro, será reconhecido como artista plástico, crítico de arte, cenógrafo e um dos maiores capistas brasileiros de todos os tempos. E, ambos, José Lins e Graciliano, ainda conviverão com a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003), em 1933, já consagrada pelo êxito de seu primeiro livro, O quinze (1930), e tendo lançado outro romance, João Miguel(1932), responsável pelo seu rompimento com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Jorge Amado (1912-2001) irá recordar com carinho esse momento, quando decidiu viajar até Maceió para conhecer pessoalmente Graciliano: “Fui encontrá-lo num bar; tomava café preto em xícara grande, cercado pelos intelectuais da terra — todos eles reconheciam a ascendência do autor ainda inédito, era o centro da roda. Ficamos amigos imediatamente. (…) Fiquei amigo também de todo o poderoso grupo de escritores que vivia em Maceió. Digo vivia, pois, além dos alagoanos — Graciliano, Valdemar, Aurélio Buarque de Hollanda, Alberto Passos Guimarães, Raul Lima, Theo Brandão, José Auto, Diegues Júnior, Carlos Moliterno, o poeta Aluísio Branco e o contista Carlos Paurílio — ali residiam, na ocasião, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, dois dos mais importantes entre os jovens romancistas”. Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira relembra: “À noite, o grupo (…) reunia-se no ‘Ponto Central’, não faltando às conversas outros escritores mais jovens ou menos famosos (…)”.

A partir de 1939, estarão todos reunidos novamente no Rio de Janeiro, onde o consultório médico de Jorge de Lima, na Cinelândia, transforma-se em ponto de encontro dos intelectuais radicados na capital da República, particularmente com alguns dos quais convivera em Maceió. E essa amizade, de influências recíprocas, é que permitiu que os chamados “regionalistas de 30” renovassem o regionalismo nordestino imediatamente anterior, tendo em Gilberto Freyre um sucessor ideológico de Franklin Távora (1842-1888) — assim como, de certa maneira, Mário de Andrade (1893-1945) retomaria no século 20 as idéias de José de Alencar (1829-1877). Os regionalistas eram modernos, sim, mas não modernistas…” (fonte: texto de Luiz Rufato, fonte: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/maceio-1930-2/)

Ao que parece, Rachel de Queiroz esteve morando em Maceió entre 1935 e 1937:

Em 1935, muda-se o casal de Fortaleza para Maceió, onde por uma afortunada coincidência vivem (e convivem) Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Aurélio Buarque de Hollanda e Jorge de Lima. De volta à capital cearense, a escritora vê sair, em 1937, o romance Caminho de Pedras, o primeiro publicado pela Editora José Olympio.” (fonte: http://www.academia.org.br/abl/media/SEPARATA-Raquel%20de%20Queiroz-Edmilson%20Caminha-MIOLO-PARA%20INTERNET.pdf)

Sobre esta fase da vida da grande escritora:

Estreou no jornalismo em 1927, com o pseudônimo de Rita de Queluz, publicando trabalhos no jornal O Ceará, de que se tornou afinal redatora efetiva. Ali publicou poemas à maneira modernista, cujos ecos do sul, da Semana de Arte Moderna de 1922, chegavam a Fortaleza. Em fins de 1930, publicou o romance O Quinze, que teve inesperada e grande repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo. Com vinte anos apenas, projetava-se na vida literária do país, agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca. O livro, editado às expensas da autora, apareceu em modesta edição de mil exemplares, recebendo crítica de Augusto Frederico Schmidt, Graça Aranha, Agripino Grieco e Gastão Cruls. A consagração veio com o Prêmio da Fundação Graça Aranha, que lhe foi concedido em 1931, ano de sua primeira distribuição oficial. No Rio de Janeiro conheceu integrantes do Partido Comunista e no seu regresso a Fortaleza ajuda a fundar o PC cearense. Em 1932, publicou um novo romance, intitulado João Miguel. Nesse ano casou-se com José Auto da Cruz Oliveira e no ano seguinte nasceu sua filha Clotilde, que morreria com apenas 18 meses, vítima de septicemia. Abalada, mudou-se em 1935 para a cidade de Maceió, nas Alagoas, onde fez amizade com Jorge de Lima, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e com o jornalista Arnon de Mello. Em 1937, lançou o livro Caminho de Pedras, pela José Olympio, que seria sua editora até 1992. Com a decretação do Estado Novo em 10 de novembro de 1937, seus livros foram queimados em Salvador, na Bahia, juntamente com os de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, acusados de subversivos. Em Fortaleza permaneceu detida por três meses no quartel do Corpo de Bombeiros.” (fonte: http://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=272483)

Sobre a relação de amizade e admiração de Rachel de Queiroz com Graciliano Ramos:

Em 1934 Rachel mudou-se para Maceió, a fim de acompanhar o primeiro marido, José Auto. Ali conheceu o “velho Graça”, então Diretor da Instrução Pública e já autor de São Bernardo, lançado naquele mesmo 1934. A devoção que a ligou ao alagoano pode ser sentida na crônica que publicou em O Cruzeiro de 7 de junho de 1947, localizada em seu acervo e que se reproduz a seguir.

(fonte: http://www.blogdoims.com.br/ims/graciliano-ramos-sob-o-olhar-de-rachel-de-queiroz-por-elvia-bezerra)

A própria Rachel de Queiroz resume sua passagem por Maceió:

É que nós surgimos no mesmo tempo: Jorge, eu, Graciliano, Zé Lins, Amando Fontes. Éramos um grupo de contemporâneos e ainda amigos. O José Américo era meu amigo pessoal. Eu conheci quando ele era Ministro do Getúlio… éramos grandes amigos, eu, Graciliano e a mulher dele. A gente se freqüentava muito. Nesse período em Maceió, por coincidência, Zé Lins morava lá, engraçado. Ele era fi scal de imposto de consumo e morava lá. E o Aurélio Buarque de Holanda também morava lá; era de lá. Era uma roda de tantos que depois vieram para cá! Então a gente tinha um botequim, um café, um ponto chique de Maceió, onde a gente reunia-se todas as tardes a tomar um choppinho, um cafezinho, a conversar. Depois viemos para cá [Rio], o Alberto Passos Guimarães, Valdemar Cavalcanti, um político, Aurélio Buarque de Holanda, do dicionário, Graciliano, eu e Zé Lins. Nos reunimos em Maceió nesse período (Entrevista de Rachel de Queiroz, concedida a Gustavo de SORÁ, em 25/02/1997).” (fonte: artigo intitulado “A “roda de Maceió” e o projeto regionalista: uma perspectiva etnográfica das disputas ocorridas no mundo do livro dos anos 1930, de Simone Silva, publicado na REVISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS, FORTALEZA, v. 42, n. 2, jul/dez, 2011, p. 91 – 107,  http://www.rcs.ufc.br/edicoes/v42n2/rcs_v42n2a6.pdf)

Anúncios