Neste dia 24 de dezembro de 2015, véspera de mais um Natal, desejo que nesta data todos nós possamos sentir o amor de Deus em nossas vidas e que as lições de Jesus invadam os corações dos homens e mulheres deste planeta. Desejo também que a solidariedade que se apresenta mais forte no Natal possa estar presente em todos os meses do ano com a mesma intensidade.

Acima, foto do Natal de Maceió de 1955 (atual praça da Faculdade)

Pesquisando sobre o Natal em Maceió, deparei-me com um magnífico texto de Félix Lima Júnior (já conhecia superficialmente o cronista a partir do livro Maceió de outrora). Abaixo, foto do cronista em seu ofício:

No texto sobre o natal da capital alagoana (mais precisamente do bairro do Bebedouro), impressiona a riqueza de detalhes do relato de Félix Lima Júnior.

Sua leitura permitirá que as pessoas das gerações mais antigas possam matar as saudades daqueles tempos e os mais jovens possam ter a oportunidade de saber como seus avós curtiam o Natal em Maceió:

O Natal em Bebedouro – Félix Lima Júnior

Nos fins de outubro só se falava, em Maceió, nas festas de Natal em Bebedouro. O que iria apresentar, naquele ano, o major Bonifácio Magalhães da Silveira? – era o que todos indagavam. Iniciava-se, então “o avança” nos prédios de aluguel daquele bairro. As famílias mais ricas e importantes, – café-society daquele tempo – escolhiam as casas localizadas na praça de Santo Antônio, em frente à modesta igrejinha.

Esses prédios, à margem esquerda da linha de bondes, construídos de taipa e com biqueiras, janelas de guilhotina, eram espaçosos, com grande salas e quartos, calçadas altas, onde à tarde sentavam-se todos em “preguiçosas” para um dedo de prosa. Os que não faziam “circular” na citada praça, como fizeram algum tempo depois: iam até à margem do riacho Cardoso, junto à ponte ainda existente. Numa casa da rua Cônego Costa, esquina com a praça de Santo Antônio, residia o patriarca Olímpio Dias Ferreira Eter, com as largas barbas brancas, bem cuidadas, trajando sempre roupa preta. No outro lado da praça, numa casa de campo, cercada de alpendres e ensombrada pelos cajueiros e mangueiras floridas, morava a família do comendador Jacinto José Nunes Leite.

Nesse prédio, mais do que centenário, ainda hoje de pé, relativamente bem conservado, residiu com a sua família, em 1833, segundo informa Olímpio Galvão no Memorial alagoano, Manuel Lobo de Miranda Henriques – cidadão paraibano que foi presidente da província no tempo da Regência. Era pai de Aristides Lobo, primeiro Ministro do Interior da República. João Firmino de Assunção, carteiro dos Correios, tipo popular, muito gordo, alegre, amável, querido por todos e cujo estômago parecia não ter fundo, passava vagarosamente distribuindo cartas e jornais. João Tavares da Costa, agente da Nova Companhia Lloyd Brasileiro, pai do compositor Heckel Tavares, morava com a família num palacete hoje transformado em casa de saúde: era, naquele tempo longínquo, uma espécie de herói de Homero: “rico uma semana e mendigo outra”…

Antes, mesmo, do dia de Natal, como já chegara muita gente estranha, Bonifácio, para animar arranjava aos domingos, dias santos e feriados, uma folia qualquer: quebra-pote, pau-de-sebo, e, até, em 1918, se não me engano, um “enterrado-vivo”, pobre diabo que permaneceu duas horas sob a terra, em frente à igreja de Santo Antônio. Eram festas notáveis, afamadas: no Pará, a do Círio de Nossa Senhora de Nazaré; em João Pessoa, a das Neves; no Recife, a do Carmo; na “boa terra”, na velha cidade do Salvador, a do Senhor do Bonfim; em Maceió, a do Natal, em Bebedouro, visto ter perdido o brilho a de Bom Jesus dos Martírios. Modificava-se, de repente, com a aproximação do Natal, a fisionomia do velho bairro, que passava a ser dos mais movimentados pontos da capital. Candidatando-se às muitas moças casadoiras da família que veraneavam, rapazes do comércio, estudantes e filhos de famílias ricas e remediadas, enchiam, à noite, os bondes da Catu, guiados pelo Catuaba e pelo Bernardo, iam para Bebedouro e uma vez por outra arranjavam uma dança ou uma festinha íntima. Não se inventara ainda o bingo dançante, nem o pif-paf…

Na sala de visitas, bem iluminada por um candeeiro belga, preso ao forro, dançava-se, com música de harmônica, até às dez da noite, ou declamava-se, ao som da Dalila, no piano da casa, Relíquia, de Júlio Auto Cruz Oliveira: As cartas? Olha, ouve-me bem: rompia-se e queimei-as depois. Se um dia fores de novo ao nosso ninho, as cinzas frias das tuas cartas nem verás, Dolores. O lírio, de Sabino Romariz: O lírio era uma flor imaculada, Casta como um sorriso de Maria Flor de uma alvura tal que parecia Ter sido feita de hóstia consagrada. Noivado, de Aristeu Andrade, antigo promotor público da capital: O meu espelho, esse sincero amigo, Que tão fiel minhas feições retrata, No meu cabelo cor de bronze antigo, Fez-me entrever um fio cor de prata.Terminando com O teu lenço, de Guimarães Passos: Esse teu lenço que eu possuo e aperto De encontro ao peito quando durmo, creio,Que hei de um dia mandar-te, pois roubei-o, E foi meu crime, em breve, descoberto.(…)

Moças e rapazes eram bairristas: só declamavam versos de poetas contemporâneos…Nos domingos e feriados, as casas de famílias se enchiam de parentes e amigos que iam “passar o dia”. Logo depois da missa encontravam-se grupos de rapazes pelas ruas – gente de tamancos e de chinelas, alguns de pés descalços, paletó de pijama, uma fieira de cajus na ponta dos dedos, uma cestinha de mangabas maduras maduras, garrafas de “caximbo” ou de aguardente debaixo do braço, ou um litro de vinho de jenipapo, verdadeira ambrosia, fabricado no sítio das Mangabeiras pelo velho Cândido Romão Alves Nilo, porteiro e arquivista da Intendência Municipal. Esses grupos rumavam ao Cardoso. Alguns ficavam no sítio Petrópolis, da família Leão, onde se metiam numa piscina com porta d’água, debaixo de um telheiro, banho especial do qual ninguém queria sair.

Nas proximidades da Granja Conceição muitas casas tinham banheiros, cobertos de palhas, franqueados aos amigos. Bonifácio possuía um bem cuidado, que se enchia logo cedo e que só se desocupava quando o estômago dava hora de almoço. Quem tinha pernas boas, fortes e gostava de caminhar, ia tomar banho de água fria, límpida, cristalina, nas bicas das Goiabeiras ou de Fernão Velho, na encosta do morro, então coberto de grossa capoeira, verdadeira mata. Bicas que rivalizavam com a das Marrecas, no Pilar. Almoçava-se e jantava-se mandim, sururu, ostras, maçunim, e carabepas, pescadas ali mesmo, na lagoa do Norte. As canoas atracavam em frente à estação da Great Western, onde o doutor Orlando Araújo, quando prefeito mandou construir um cais. No domingo matava-se um peru, um capão gordo; ou um carneiro, comprado na Satuba, em Apolônia, e para a buchada, “puxada” a vinho tinto, português, adquirido a 2$000 a garrafa na Dispensa Familiar ou na Mercearia Boa Vista, do Serafim Costa, chegavam os amigos, os compadres e os conhecidos dos amigos, pois “onde come um comem cem”…

Dançava-se o coco, o tradicional coco alagoano, do qual hoje pouca gente se recorda. Os rapazes, na maioria empregados no comércio, alunos, em férias, dos cursos mantidos pela Sociedade Perseverança e Auxílio, chegavam cedo, viajando nos bondes superlotados da Catu, fazendo algazarra, batendo no soalho dos carros com as pontas das bengalas, então muito em moda, e cantando: O pau rolou, caiu! Lá na mata Ninguém viu! Mulher não vá, Mulher não vá, Mulher você não vá lá! Marido eu vou, Marido eu vou, Que papai mandou chamá! Mata esta barata, Machuca as baratinhas, Que eu tenho o meu dinheiro pra gastar com as moreninhas! Estrugia o ganzá e quando terminava a folia regressavam eles nos últimos bondes, com o mesmo alvoroço, comendo amendoim, tapioca, cocada, peixe frito, comprados a uma preta velha na esquina da rua Passos de Miranda, em frente ao Asilo das Órfãs. Os caixeiros (naquele tempo não se falava em comerciários…) voltavam antes, pois era preciso dormir e acordar cedo, no outro dia, para “pegar no pesado”… Não havia sindicato, nem leis trabalhistas. Quem chegava atrasado um dia levava um “sermão”: na outra vez era sumariamente posto no olho da rua e, como o comércio era pequeno e todos os patrões se conheciam, não se arranjava outra colocação facilmente. Qual o negociante que queria empregado chegando tarde? Nos sábados, porém, eles se vingavam: dançavam a noite toda e domingo, pela manhã, ainda se ouvia o barulho do ganzá “pra pegá o só c’a mão”…E os folguedos tradicionais, alguns dos quais desapareceram, inclusive o quilombo? Aliás foi em Bebedouro em 1910, mais ou menos, que eu, ainda menino, assisti um, pela primeira vez e última vez. No oitão da casa do velho Olímpio Ether, apoiados na calçada alta, ergueram os mocambos dos pretos, com caibros usados e galhos de árvores, cobertos com palmas de coqueiros e ouricuri, cercados com uma paliçada relembrando a serra da Barriga com o Zumbi Sueca e seus sequazes.

A negrada seminua, dançava e cantava alegremente, livre do senhor do engenho e do feitor com o seu relho: Folga negro, Branco não vem cá. Se vié, Pau há-de levá! Uma menina alva, cabelos louros, escolhida a capricho, era a rainha dos quilombolas, com vestido, sapatos e meias brancas, uma coroa de papelão doirado ou de folhas-de-flandres. Depois surgiam, desconfiados, em pequenos grupos, os soldados paulistas do Terço de Domingos Jorge Velho e os de Sebastião Dias Maneli, além do índios untados de ocre, com tangas e cocares de penas, arcos e flechas em punho, cercando o quilombo. Combatia-se valentemente e terminava a brincadeira com a rendição dos pretos, que eram aprisionados. Os vencedores saíam a “vender” os cativos às pessoas das mais destacadas que assistiam o folguedo, isso por uma nota de 1$000 ou uma pratinha de $500. Os negros agradecidos beijavam os pés do “Sinhô”, da “Sinhá” ou da “Sinhazinha”, e fugiam imediatamente, para serem presos e vendidos novamente, mais adiante. O dinheiro apurado repartia-se, depois, irmamente, entre vendedores e “vendidos”…Muitas famílias de destaque – coronel Antônio Souza Almeida Valeriano Gomes, Agrimensor Luiz Porto, João Dias Souto, José Abreu – tinham deixado suas confortáveis residências no centro da cidade, em Jaraguá, no Farol, em Pajussara e, no primeiro domingo depois do dia de ano assistiam a cavalhada, na qual apareciam, montando animais de alto preço e bem tratados, o Major Bonifácio Silveira, Américo Maia, João Inglês, Major José Pereira Acioli, subcomandante da Polícia, João Camelo e outros. No Pastoril, ensaiado pelo Etelvino Lima, um dos mais eficientes “secretários” do Major Bonifácio, núcleo do qual sairia, no carnaval, o bloco Ciganinhas do Major, cantava-se, com entusiasmo: Boa noite, meus senhores todos, Boa noite, senhoras também! Somos nós, as pastorinhas belas Que aqui estamos, vindas de Belém! Só pedimos a vós, nossos partidários Que sustentem os nossos cordões Com muito gosto cantaremos loas Que satisfaçam os vossos corações! Os torcedores dos cordões azul e encarnado, cada qual mais entusiasmado, brigavam, no leilão, disputando o cravo ou a rosa, oferecendo presentes, alguns bem caros – vidros de Houbigant, vestidos de seda, jóias, caixas de passas, dúzias de lenços – à Mestra, à Diana, à Contramestra, à Libertina, e a outras mocinhas dos cordões, das mais bonitas e mais desembaraçadas, chamando-as em cena e pregando em seus vestidos notas, às vezes de 50 e 100$000!As meninas, bem vestidas, de branco, com sapatos da mesma cor, chapéus de palha da Itália com uma fita larga, atravessada, enfeitadas com flores artificiais, agitando os pandeiros, apareciam debaixo de palmas entusiásticas, cantando alegremente:

Vamos pastorinhas, Vamos a Belém, Ver Jesus nascido Para o nosso bem! Vamos ver Jesus, nascido Na lapinha de Belém, Vamos ver o Prometido Que é todo o nosso bem! O cordão encarnado, do lado direito, era encabeçado pela Mestra, que cantava: Estrela do Norte, Cruzeiro sagrado, Vamos dar um bravo Ao cordão encarnado! Eu sou a mestra do cordão encarnado O meu partido não posso negar. As minhas danças, as minhas cantorias, Senhores todos queiram desculpar!

A Contramestra, dirigindo o cordão azul, cantava:

Estrela do Norte, Cruzeiro do Sul. Vamos dar um viva, Ao cordão azul! Eu sou a Mestra do cordão azul, O meu partido não posso negar. As minhas danças, as minhas cantorias, Senhores todos queiram desculpar!

A Diana , com fitas azul e encarnado, colocada entre os dois cordões, gozava de uma neutralidade cômoda… Entre les deux, pensava ela, enquanto cantava: Sou a Diana, não tenho partido, O meu partido são os dois cordões! Peço palmas, peço fitas e flores, Peço louvores a estes dois cordões! Quem fazia o papel de Fúria era o Calazans, moreno, meio corpo, estatura regular, irmão do conhecido humorista Jararaca, que todos ouvem diariamente nos rádios do Rio de Janeiro. Ambos eram então, na capital alagoana, oficiais de alfaiate. O Fúria surgia vestido numa roupa de flanela vermelha, colada no corpo, tentando inutilmente conquistar, com as suas promessas e artimanhas, as ingênuas pastorinhas. Num tablado em frente ao Teatro Santo Antônio dançava o Reisado, composto de figuras pitorescas, cobertas de fitas e de espelhos, com suas marchas e contramarchas: Oh meu secretário de sala! Traga a cadeira para o Rei se sentá! Além do Rei, muito cioso de suas “altas funções”, conduzindo uma espada desembainhada, arma velha que lhe fora emprestada, de certo, por algum capitão da extinta Guarda Nacional, exibiam-se o Mestre, o Embaixador, o Bandeirinha, além de outras figuras e de dois Mateus, com chapéus afunilados, pés descalços, cara pintada a carvão, uma traça de palha de cebola presa ao punho direito, dando pancadas nos moleques e soltando suas piadas sem graça, algumas delas bem apimentadas, fazendo rir a maioria dos espectadores. 

Nos intervalos, os que assistiam a função recebiam de suas figuras um lenço branco, bem engomado, que era procurado depois e devolvido com uma nota de 2$000 ou uma moeda de prata de dez tostões. Numa das últimas festas de Bebedouro, já na terceira década deste século, é que apareceram, noutro tablado, em frente à casa do Alfredo Abreu, na rua Passos de Miranda, os Guerreiros – com a Rainha, o Rei, o Embaixador, o Índio Peri e outras figuras originais com mantos de ganga vermelha, coroas de papel ordinário, fitas de várias cores e tanto espelho que dava agonia…A Nau Catarineta, bem arranjada, com seus altos mastros, suas escadas de corda, convés de tábuas mal aplanadas, estava cercada de gente a rir das graças insulsas do Manuel Bolachinha, padre capelão, – vestido de batina, com chapéu eclesiástico, lenço vermelho, de rapé, um livro de orações e óculos escuros. Os marinheiros, bem trajados, com roupas e sapatos brancos, obedeciam às vozes de comando dos oficiais, de espada e dragonas, perfilados, no tombadilho, ao redor do Almirante e do Capitão de Mar e Guerra, ambos com chapéus de dois bicos, enfeitados de arminho. Todos os figurantes da barca – Capitão-patrão, piloto, guarda-marinha, gajeiro, ração, mestre e marujos cantavam, com convicção: Que sinal é aquele, Que daqui se vê?- É a nau almirante Que vem combatê! Que nau é aquela, Que vem acolá?- É o Minas Gerais  Que vem guerriá. Lá na linha avistam vela! Lá na linha avistam vela!- Avistei, meu comandante, Uma fragata de vela! Que navio é aquele, Que daqui se vê?- É a nau almirante Que qué combatê! Alerta, alerta, quem dorme, Chega a moça na janela, Venha ver a nau tirana (bis) Como vão largando a vela (bis)O

gajeiro subindo pelo mastro grande e alcançado a cesta da gávea, grita, alegre e feliz Alvíssaras meu Comandante, Alvíssaras me mande dar:- Avistei terras de Espanha. E praias de Portugal! Para enfrentar a marujada cristã do Rei de Portugal tinham erguido em frente à barca um fortim turco, com ameias, torres, canhões, comandado pelo Chico Barbeiro (Francisco da Cunha Lima), que já vendera todas as emboladas que mandara imprimir com grande sucesso, tanto que ainda são lembradas apesar de decorrido muitos anos. Chico Barbeiro aparecia vestido de mouro, com uma blusa vermelha, calças brancas, gorro azul com a lua crescente, botas pretas, altas, de cavalaria, e trazia à cintura uma espadagão. Esses folguedos atraíam gente de todos os lados de Maceió e deixavam às moscas o pastoril de Dão, na rua do Cravo, o do Severiano Cândido, no Aterro do Cemitério, a Marujada Jacutinguense, na Ladeira do Brito, a chegança do Zé Pedro, no Beco dos Cachorros, as bem organizadas festas da Estrada Nova. Trens automóveis e bondes trafegavam superlotados, com pingentes arriscando a vida. Policiando a festa via-se o coronel Levino Costa, da Guarda Nacional, escrivão do Júri e subcomissário nas horas vagas, residente no bairro, onde faleceu. Para apoiá-lo, em caso de necessidade, circulava uma patrulha de dez soldados de polícia, comandada pelo cabo Carnaúba – alto, magro, desempenado, com calça branca e blusa azul, e quepe, de banda, no alto da cabeça, enorme apito preso à túnica e um sabre comprido, tipo rabo-de-galo, digno de figurar no Instituto Histórico. No Teatro Santo Antônio, de quando em quando encenavam um dramalhão mais velho do que a Sé de Braga, ensaiado pelo Etelvino Lima, e no qual tomava parte o Filemon Azevedo, funcionário municipal, recebendo delirantes aplausos. Quando se dançava o coco na casa do Olímpio Ether, como no ano de 1917, coco tremendo que durou a noite inteira, relembrado, há pouco, pelo brilhante cronista J. Silveira, valsava-se na residência do coronel Antônio Souza Almeida ou na do Bonifácio, toda iluminada a giorno na frontaria e nos oitões, como registrou o sábio doutor Porto Carreiro, então simples estudante, assistindo os festejos natalinos de 1902.Pela ladeira do Calmon, de onde se avistava a lâmina de prata da lagoa Mundaú ou do Norte, em cujas águas refletia-se a lua cheia, descia um grupo boêmio, de rapazes modestos, filhos de famílias humildes – tipógrafos, vendedores ambulantes, estivadores, angariadores de bicho, cigarreiros – tocando flauta, bandolim, violão, reco-reco, saxofone, e cantando com alma:

Na casa branca da serra, Que eu fitava horas inteiras, Entre as esbeltas palmeiras, Ficaste calma e feliz. Aí teu peito me deste, Quando pisei tua terra, Aí de mim te esqueceste, Quando deixei teu país!

Da praça dos Martírios até à de Santo Antônio íamos encontrando as chácaras bem cuidadas do Luiz Lessa, funcionário das Capatazias da Alfândega de Jaraguá, com um prédio ainda hoje existente, conhecido como “a casa da Baronesa”; a do doutor Luiz Eugênio da Silveira Leite, com uma das mais belas lapinhas de Maceió; a do Luiz de Carvalho, em frente à casinhola do vigia da The Great Western of Brasil Railway Co.; a do Afonso Zanoti; a do Manoel Mendes, capitalista, proprietário da maior casa de ferragens da capital alagoana; a do Carneiro Tiririca; a da família Buriti; a da família Wucherer, onde tem sede o campo de esportes, presentemente, o Centro Esportivo Alagoano; a do velho Nobre – probo funcionário da Fazenda Estadual; a da família José Cândido Calheiros de Melo, na qual se via, ao lado, um tanque de cimento rodeado por estatuetas; a do doutor Manuel Pontes de Miranda; a do senhor João Tavares da Costa, agente da Companhia Novo Lloyd brasileiro, pai de Hoeckel Tavares, chácara hoje transformada numa casa de saúde. Nessas chácaras, nesses “sítios”, como eram e são conhecidos, pitorescos e alegres, os donos da casa, seus parentes e amigos descansavam, à tardinha, em alvas redes armadas debaixo das mangueiras seculares, dos cajueiros floridos, dos jambeiros cobertos de flores amareladas, que exalavam um suave perfume.

Quem passava, de bonde, na Cambona, no Bom Parto, no Mutange, na baixinha, encontrava casas iluminadas, com janelas abertas, cheias de pessoas apreciando as lapinhas cobertas de palha de ouricuri. Via-se a manjedoura com o Menino Jesus, tendo ao lado São José e a Virgem Maria; uma enorme estrela indicava o caminho aos Três Reis Magos – Gaspar, Baltazar e Belchior com as suas oferendas de ouro, mirra e incenso; num lago, arranjado com uma lata vazia, de goiabada, flutuavam patos, gansos, cisnes, marrecos; ao lado bonita plantação de arroz bem verde, parecendo um tapete; junto à manjedoura o boi, o burro, o galo, o cavalo, o carneiro, além de outros animais, de celulóide, “made in Germany”; pastores, de joelhos, adoravam o Deus recém-nascido, enquanto seus rebanhos permaneciam afastados da estrebaria; céu de papel ou de pano azul, com estrelas em profusão e a lua cheia. Ninguém conhecia, não se usava árvore de Natal. Isso era bom lá para a Suécia, a Noruega, a Finlândia, a Alemanha, a Dinamarca, para os arianos. Numa dessas chácaras residia José Vicente Tatá, habilíssimo artista, mestre de funilaria da Escola de Aprendizes Artífices, e era ele, soltando uma dúzia de foguetes, quem avisava, todos os anos, aos “irmãos da opa”, que o primeiro caju amadurecera… E o acontecimento era festejado com copinhos da “branca”, da “douradinha”, e com camarões torrados para “tira-gosto”. No frechal de Cima, numa casa modesta, coberta de palha, com piso de tijolo iluminada com “mexeriqueiros” de querosene, sambava numa animação louca gente modesta; domésticas, diaristas, pedreiros, soldados do Exército, condutores de bondes, maquinistas da Great Western, tecedeiras da fábrica de Fernão Velho. Divertiam-se tanto quanto os ricos, pois todos eram filhos de Deus…Na praça de Santo Antônio, bem iluminada, dezenas de vendedores ambulantes ofereciam roletes, cocada, bolos, sorvete, amendoim torrado, pipoca, farinha de milho, broas, alfenim e manuês.

Em dois botequins o França Morel e preto Sabino vendiam caldo de cana, gengibirra, a conhecida “cerveja de cordão”, que estourava como champanhe, ao ser aberta. Noutros botequins e em barracas cobertas de palhas, com paredes de esteiras de peripiri adquiria-se cerveja gelada, guaraná, Ceci – refrigerante fabricado pelo senhor Manuel de Araújo Pinheiro, refresco de maracujá, de caju, de mangaba, de abacaxi, empadas. Famílias modestas enfeitavam a sala de visitas de suas residências com cordões de bandeirinhas de papel de seda, palmeiras e crótons em latas de querosene pintadas cobriam o piso com areia da praia, aumentavam a iluminação, colocavam várias mesinhas cobertas com alvas tolhas bem bordadas, surgindo assim bares onde se podia cear boas fritadas de sururu, camarão ensopado, casquinhas de siri, vatapá, galinha ao molho pardo, curimã frita, munguzá, tapiocas e grude de goma. Barracas e mais barracas exclusivamente para jogos, formavam uma longa rua que terminava nos trilhos da estrada de ferro. Bozó, jaburu, caipira, jogava-se tudo! Um camelô, gritando com toda força dos pulmões, atraía muita gente que gostava de arriscar seus cobres: – “É o popular, o conhecido jogo do caipira! Quem mais bota, mais tira!” Nessas barracas não bancavam o sete e meio, o trinta e um, não se explorava o pôquer, o “chemin de fer”, que constituíam privilégio de gente grã-fina, fidalga, reunida em certas salas de jantar de casas ricas. E as paradas eram bem altas…Um pastoril bem organizado, composto exclusivamente de meninas exclusivamente graciosas, filhas de família, exibia-se, na rua Passos de Miranda, somente para selecionadas pessoas, em sala fechada, evitando as inconveniências do “sereno“.Na calçada da igreja de Santo Antônio alguns populares, fazendo pouco das ordens da Polícia, jogavam bozó. O barulho dos dados rolando no cimento atraía outros viciados…No dia 24, à meia noite, celebrava-se a missa campal, num altar armado à porta do templo. Alguns minutos antes paravam as rodas de jogos, detinham-se os trivolis e carrocéis, ficavam desertas as barracas, todos iam assistir a santa cerimonia, ajoelhando-se ao som dos tímpanos, erguia a hóstia consagrada e o cálix com o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao iniciar-se o ano novo dava-se a benção do Santíssimo Sacramento, no mesmo local.Em 6 de janeiro, dia de Reis, terminavam as festividades. Desarmava-se a lapinha às 9 da noite tirava-se a coberta de palha para ser queimada numa fogueira, nos fundos da casa ou então no meio da rua. Moças e rapazes dançavam ao redor e cantavam, entristecidos: Adeus, meus senhores, Adeus, que eu me vou. Até para o ano Se nós vivo fô! Fora enterrada “a cabeça do boi”. Muita animação, muita gente satisfeita e feliz. Todos eram honestos cidadãos da República da Alegria, presidida pelo Bonifácio, de saudosíssima memória. Meia noite. Da rua do Banheiro ou da margem da lagoa, em frente à estação do antigos bondes da Catu, ouvia-se música, música animada de um “esquenta-mulher”. Que era, que não era? Todos se dirigiam, apressados, para a rua Cônego Costa e encontravam deus Momo, representado pelo Aristófanes Cabral Costa, suboficial do Exército, cabeleira postiça, meia máscara de cetim preto, calções de veludo vermelho, sapatos rasos, de verniz, camisa de seda branca, manto azul cheio de bordados, um tricórnio coberto de lantejoulas. Chegara numa canoa ou num carro enfeitado, cercado de numerosos “súditos” conduzindo fogos de bengala, de várias cores, acessos, para anunciar ao povo maceioense o início de seu feliz reinado – outra “presepada” do velho Bonifácio, que marchava à frente do cortejo, alegre, com seu chapéu de palhinha balançando na ponta da bengala…Estavam terminados os festejos natalinos. Iam-se cuidar agora do carnaval. Quinze dias depois, na rua do Comércio, José Cardoso, Alfredo Fioele Pinto e Domingos Simões expunham as primeiras máscaras, abriam sacos de confete, vendiam bisnagas, línguas de sogra, apitos, o diabo! (texto obtido do site http://agendaa.tnh1.com.br/vida/gente/2947/2014/12/25/um-natal-antigo-em-maceio-por-felix-lima-junior)

Abaixo, fotos de Natal em Bebedouro, tradicional bairro da capital alagoana:

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