Jorge Amado, um dos grandes escritores da língua portuguesa, ainda jovem (com 20 anos), no início de sua trajetória literária, ao ler os manuscritos de um livro que estava ainda prestes a ser publicado, resolveu viajar de navio do Rio de Janeiro a Maceió exclusivamente para conhecer o autor daquelas páginas que o impressionaram tanto. No caso, o livro era Caetés e o autor Graciliano Ramos.

No livro Navegação de Cabotagem, Jorge Amado narra como conheceu Graciliano em Maceió e comenta a relação entre os dois:

Maceió, 1933 — visita

Em meados de 1933 embarquei num paquete do Lloyd Brasileiro, do tamanho de uma caixa de fósforos, o Conde de Baependi, arribando do porto do Rio de Janeiro para o porto fluvial da cidade de Penedo, no rio São Francisco, no então distante Estado de Alagoas. Levava-me o objetivo único de conhecer pessoalmente o romancista Graciliano Ramos, nome àquela data sem qualquer ressonância junto aos leitores e aos críticos: ainda não havia editado nenhum livro. Acontecera-me ler, porém, os originais de Caetés, tomara-me de tamanho entusiasmo que decidi viajar até Alagoas para comunicar ao autor minha admiração, de viva voz. Tinha eu vinte e um anos incompletos e acabara de publicar Cacau. Desconhecido do público e da crítica, o nome de Graciliano começara no entanto a ressoar nos meios literários do Rio de Janeiro; com o tempo viria a afirmar-se no conceito geral como o principal ficcionista da chamada geração de trinta. (…)

Li o manuscrito de Caetés, fiquei empolgado – não faz muito reli o romance de estréia de Graciliano, não mudei minha opinião de rapazola: a atmosfera da cidadezinha, a escrita admirável. Outros livros de Graça são maiores, o romancista cresceu mas Caetés persiste inteiro. Foi tal o impacto que me causou a leitura dos originais que resolvi conhecer o autor pessoalmente, tomei passagem no Conde de Baependi, ao chegar a Aracaju estava noivo, sucedia a cada viagem pela costa do Brasil. Um ano depois, em 1934, Schmidt publicou o primeiro romance do mestre Graça, logo depois saiu São Bernardo em edição Ariel. O Conde de Baependi deixou-me em Penedo, desde então uma de minhas cidades preferidas, de quando em quando tomamos o carro, Zélia e eu, vamos dormir em Penedo para ver a manhã nascer sobre o rio São Francisco, trazida nas barcaças e nas canoas, andar em meio ao casario, parar à sombra das igrejas e dos conventos. Certa feita levamos conosco nossa amiga Antoinette Hallery, deslumbrou-se em tcheco e em francês: piekne krasnie! Oh la la!
Andando em bonde-de-burro, ainda circulavam na Penedo de 1933, esperei o automóvel que Valdemar Cavalcanti
, com coluna de livros em gazeta de Maceió, sobrinho do Prefeito, enviou para me buscar. A viagem, em estrada de terra e buracos, durou o dia inteiro, cheguei a Maceió no fim da tarde, coberto de poeira, no hotel tomei um banho, saí em busca do romancista, fui encontrá-lo num bar, bebia café negro em xícara grande, cercado pelos intelectuais da terra – todos eles reconheciam a ascendência do autor ainda inédito, era o centro da roda. Ficamos amigos na mesma hora.
Desde aquela tarde até a sua morte, acompanhei dia a dia, com admiração e amizade, a vida de Graciliano Ramos e sua criação literária, poucas se lhe comparam. Cheguei de Santiago do Chile às vésperas de sua morte, escalado para falar à beira do túmulo, não consegui passar das primeiras palavras. Depois sua filha Luísa tornou-se minha irmã ao casar-se com James; Fernanda, neta de Graciliano, flor dos Ramos e dos Amado, é minha sobrinha, misturaram-se nossos sangues.
Eu o recordo como vi pela primeira fez, na mesa do bar: chapéu-palheta, a bengala, o cigarro, a face magra, sóbrio de gestos. Parecia seco e difícil, diziam-no pessimista, era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro”.

Registre-se que em Maceió dos anos 1930 viviam grande nomes da literatura brasileira, conforme post que publicamos neste blog:

https://culturaeviagem.wordpress.com/2014/06/19/maceio-nos-anos-1930-e-o-encontro-de-genios-uma-das-capitais-brasileiras-da-literatura/

No texto “Trajetória de Jorge Amado”, vê-se que:

A convivência com o chamado Movimento de 30 marcou profundamente sua personalidade e a preocupação que reteve com os problemas brasileiros. Jorge Amado viajou até Maceió especialmente para conhecer Graciliano Ramos. Nesse período, a escritora Rachel de Queiroz lhe apresentou aos ideais igualitários do comunismo“. (fonte: http://www.jorgeamado.com.br/professores/07.pdf)

A escritora e historiadora Janaína Amado, em entrevista à Revista Graciliano, fala um pouco mais sobre a relação de Jorge Amado com Graciliano e com Maceió:

Jorge Amado não só conheceu os escritores e intelectuais reunidos em Maceió à época – esse espantoso grupo de jovens , alguns dos quais se tornariam dos melhores ficcionistas, críticos literários e intelectuais do Brasil -, como muitos deles se fizeram amigos dele ao longo de todas a vida. (…) Não me lembro de ele ter citado Maceió no contexto dessa primeira visita à cidade, para se encontrar com Graciliano, pois era um fato muito recuado no tempo. Mas sei que gostava muito da cidade – disse-me isso algumas vezes -, da beleza das praias, da hospitalidade da gente. Jorge retornou algumas vezes a Maceió, justamente para homenagear Graciliano, seu grande amigo e grande admiração literária. Jorge se tornou migo de Heloísa, mulher e depois viúva do velho Graça. Conforme o escritor relatou, as duas famílias se tornaram depois parentes entre si. Em Maceió, Jorge continuou a fazer ótimas amizades, gente como Anilda Leão e Carlos Moliterno, Théo Brandão, Solange e Pierre Chalita, entre outros” (Revista Graciliano, reportagem A reinvenção do moderno, número 25, 2015, pág. 41)

Graciliano Ramos e Jorge Amado tinham em comum não apenas o enorme talento e algumas preocupações e temáticas literárias, mas também o apreço pelas ideias do comunismo., tendo sido presos por tal motivo.

Vemos ainda que os citados escritores criaram juntos uma obra, o que se vê no site que fala da trajetória de Graciliano:

O romance “Brandão entre o mar e o amor”, escrito em parceria com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz é publicado pela Livraria Martins, S. Paulo.”  (fonte: http://www.releituras.com/graciramos_bio.asp)

 

 

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