Museu Imperial (RJ)

Pouca gente sabe que um dos grandes viajantes que este país já teve foi exatamente aquele que por mais tempo comandou os destinos do Brasil. O imperador Dom Pedro II, que reinou o país por mais de 50 anos, visitou  vários países do mundo e províncias brasileiras.

Dom Pedro II visitou até mesmo as Pirâmides do Egito, conforme se vê na foto abaixo:

Em 1859, ele visitou a província de Alagoas (várias cidades às margens do Rio São Francisco) e sua capital, Maceió, onde esteve para inaugurar a Catedral de Nossa Senhora dos Prazeres em 1859.

Em um outro post publicado neste blog em  14 de novembro de 2014, destacamos um impressionante relato do escritor Lêdo Ivo, no livro Ninho de Cobras, acerca da passagem de Dom Pedro II por Maceió. Vale a pena transcrever o citado relato, com todo o talento (e ironia) do imortal alagoano:

Com o brilhantismo que sempre lhe caracterizou, Lêdo Ivo, em seu livro “Ninho de cobras” (págs. 148-150), narra a visita de Dom Pedro II a Alagoas, em 1859. A leitura é imperdível:

Saibam quantos esta virem que, no ano de 1859, a província das Alagoas foi visitada por Sua Majestade o Senhor Dom Pedro II e a Sereníssima Senhora Dona Teresa Cristina. Primeiro, o imperador esteve na cidade de Penedo, dali seguindo para conhecera Cachoeira de Paulo Afonso. Embarcou, depois, para a Bahia, a fim de encontrar-se com a imperatriz. E, exatamente no último dia daquele Ano de Cristo, o imperador e sua prezadíssima consorte aportaram a Maceió.

Após o desembarque, foram à matriz de Nossa Senhora dos Prazeres, e ali assistiram ao soleníssimo Te Deum em ação de graças pela feliz viagem que haviam feito. Agradecido o Altíssimo, Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina rumaram para o paço imperial (que o tempo, a República e os morcegos e lacraias haveriam de transformar no apodrecido Palácio Velho).

Uma comissão ad hoc, nomeada pelo Dr. Manoel Pinto de Souza Dantas, presidente da província, havia ornamentado o palácio, para que os visitantes reais se sentissem como no paço de São Cristóvão. A cama destinada ao casal imperial era vasta, solene e nupcial, e conciliava, na madeira de lei trabalhada a capricho por artesãos experientes e na maciez de seu colchão de pena de pato, a grandeza do Império que se estendia, como um continente, do Amazonas ao Prata, e os sigilos da intimidade conjugal.

Durante os onze dias passados na província, o imperador visitou a cidade velha de Alagoas, as vilas do Pilar (já famosa pela excelência dos seus bagres) e Santa Luzia do Norte, a fábrica de tecidos que era um testemunho do vertiginoso desenvolvimento econômico da região, as vilas de Porto de Pedras e Porto Calvo e a ex-colônia militar Leopoldina. Um grande baile que, como uma jóia, ficou para sempre cravejado na memória de nossos avoengos, foi oferecido ao casal imperial.

Cavalheiros de casacas e fardas deslumbrantes e damas que se moviam, lépidas e encantadoras, em seus vestidos de seda e cetim, encheram o palacete da Assembléia Legislativa Provincial, na véspera da partida do imperador, o qual não escondia o seu entusiasmo pelo progresso de Alagoas e as belezas da paisagem, outrora canibalesca, e estava até mesmo pensando em fazer um soneto sobre as praias de Maceió ou as lagoas cercadas de coqueirais. E Suas Majestades gostaram tanto do baile e da acolhida fidalga, e da lhaneza e valimento do povo — e dos quitutes e bolos e doces nativos que mantinham a sua categoria mesmo diante dos vinhos preclaros de Portugal e de França — que, ao voltar para a Capital do Império, Dom Pedro II agraciou vários cavalheiros alagoanos.

O dono do edifício transformado em paço imperial recebeu, em troca da hospedagem magnificente, o título de barão de Jaraguá, enquanto, dos seus três cumpinchas, um saía comendador da Ordem de Cristo e os dois outros alcançavam o status de oficiais da Imperial Ordem da Rosa. Os responsáveis pelo êxito do baile — valsou-se até o amanhecer, e um diplomata da comitiva imperial comparou Maceió a Versalhes! — foram também distinguidos pela generosidade do monarca.

Os dois barões, o de Atalaia e o de Jequié, receberam o título de barão com grandeza. O juiz de Direito da Capital, o comandante superior e o capitão do porto (este um capitão-de-mar-e-guerra reformado) viraram comendadores da Imperial Ordem da Rosa, enquanto o inspetor da tesouraria geral, o inspetor da tesouraria provincial e o inspetor da saúde pública eram nomeados oficiais da mesma ordem. Ao juiz municipal da Capital e ao juiz de órfãos, conferiu Sua Majestade o hábito da Ordem Imperial da Rosa. E o inspetor da instrução pública e um cavalheiro chamado Raposo ganharam o hábito da Ordem de Cristo.

Após a partida de Suas Majestades, o barão de Jaraguá trancou a sete chaves os aposentos em que o régio casal se hospedara. Todos sabem que Dom Pedro II, no tocante a fidelidade conjugal, não era flor que se cheirasse, e tinha a quem puxar. Além do mais, ao tempo de sua afortunada viagem à província das Alagoas, já orçava pelos dezesseis anos que ele convolara núpcias com a sereníssima Teresa Cristina. Mas, frisando ele, então, pelos 34 anos, e encontrando-se em toda a sua força de homem (e tendo mesmo ingerido, naqueles dias ditosos, alguns alimentos de irrefutável teor afrodisíaco, tais como sururu, siri e camarão), não era de desprezar-se a hipótese de que, em sua permanência em Maceió, e dormindo em cama tão esponsalícia, tivesse cumprido os seus sacratíssimos deveres de esposo — tão descurados ou mal cumpridos na Capital do Império!

Não faleciam, pois, motivos para que aquela cama de jacarandá maciço —amorosamente feita por marceneiros que, sob a sábia orientação do barão de Jaraguá, procuraram imitar ou recriar o estilo Dom João IV — fosse posta a salvo de curiosidades inidôneas ou indecorosas, ou de frases de tenções dobradas, juntamente com a cômoda, o armário e o espelho que eram também verdadeira sobras d’arte e quintessências do rococó alagoano.” (fonte: https://culturaeviagem.wordpress.com/2014/11/15/ledo-ivo-e-a-narrativa-da-visita-de-dom-pedro-ii-a-alagoas/)

Acerca da viagem de Dom Pedro II a Alagoas, foi relatado que:

Durante a sessão imperial, em 11 de setembro de 1859, d. Pedro II avisou: “Para melhor conhecer as Províncias do meu Império, cujos melhoramentos morais e materiais são alvo de meus constantes desejos e dos esforços do meu governo, decidi visitar as que ficam ao norte da do Rio de Janeiro.” Ele realmente adorava viajar, impulsionado pela curiosidade de conhecer novas paisagens, populações diferentes, admirar a flora e a fauna. E entre as muitas viagens e explorações feitas, o imperador registrou em seu diário a história de sua visita à exuberante cachoeira de Paulo Afonso, nos sertões das Alagoas. (…) Em 1859, d. Pedro II iniciou sua visita às Províncias do Norte do Brasil (hoje Nordeste brasileiro). Foram 134 dias de andanças, paradas e festas nas Províncias para receber o imperador.(…)

A primeira parada foi no dia 14 de outubro de 1859, em Piaçabucu, Alagoas, quando o Apa atracou, ocasião na qual o monarca foi recebido com muita festa e música de rabecas. Simpático, ele percorreu rapidamente o povoado alagoano, visitou a capela e o colégio, cumprimentou a todos e se foi. Antes de galgar as águas do Rio São Francisco rumo a Penedo, em Alagoas, o soberano avisou, de antemão, ao presidente daquela Província, Manuel Pinto de Souza Dantas, também a bordo, que pretendia excursionar pela Província das Alagoas por no máximo 15 dias. E lá se foram. No mesmo dia, houve o transbordo na Ilha do Betume e o grupo chegou ao seu destino, dessa vez, a bordo da embarcação Pirajá.

Em Penedo, d. Pedro II foi recebido mais uma vez com euforia pela entusiasmada multidão que ali aguardava a frota imperial, aos gritos frenéticos de “Viva o Imperador!” Em seguida, foi conduzido pelos representantes locais, além das autoridades civis, eclesiásticas e do povo em geral. Ele, normalmente, desembarcava trajando calça branca, paletó preto e chapéu de palha coberto de pano de linho. Todo esse aparato receptivo ao desembarque imperial revela aspectos simbólicos que consubstanciam a força política da cidade, em que pesem as ostensivas adulações, nos ritos de chegada, encurtando a distância entre os governantes e o povo, sempre distante do contexto decisório.

Em solo, o monarca participou do te-déum (cântico de Ação de Graças) e, como de costume, visitou as igrejas, fazendo observações sobre os traços mais interessantes da arquitetura; conversou com os jovens nos colégios e visitou as fábricas de produção de óleo de mamona, de preparo de arroz e os alambiques de aguardente. Após tantos compromissos, ao deixar Penedo, em 16 de outubro, continuou o estafante percurso rumo a invadir o sertão.

(…)

Seguindo o roteiro, ainda por Alagoas, deixou no diário sua impressão sobre a vila de Pão de Açúcar: “O nome da vila não é bem cabido, pois que o morro é antes um mamilo pedregoso do que Pão de Açúcar.” Continuando a jornada, o vapor Pirajá atraca na povoação de Piranhas, onde Pedro II destaca a aparência pobre do lugarejo: “O aspecto do lugar é tristíssimo e o calor é horrível.” Dali em diante, o trajeto seria feito a cavalo, sob o comando do guia, major Manuel Calaça, proprietário de grande fazenda naquela região, que passava informações curiosas sobre a fauna e a flora do sertão, falando muito, por exemplo, sobre o xiquexique, o mandacaru e a quixabeira. O monarca ficou impressionado com a vegetação da caatinga, bem como destacou os trajes, os costumes e o desembaraço dos nativos sertanejos.

Prestes a comemorar seus 34 anos, Pedro II enfrentou muitas dificuldades durante o trajeto à cachoeira – devido à extensa distância, ao calor insuportável e à escassez de água. Por outro lado, mostrou-se afável, apesar do visível incômodo com o intenso clima do sertão. O jovem monarca traçou, no diário, relevantes esboços dos lugares por onde passava e de seus acidentes geográficos. Ao amanhecer do dia 20 de outubro de 1859, o imperador chegou à famosa cachoeira de Paulo Afonso. Pôs-se logo a apear e a percorrer vários pontos da cachoeira, examinando tudo o que observava na natureza que, ainda não sabia ele, futuramente seria sacrificada pelos interesses do progresso nacional.

(…)

Em face da educação rígida a que fora submetido, d. Pedro II se revelou nas visitas uma pessoa com inteligência orgulhosa, mas totalmente despojado da mesquinhez aristocrática.” (fonte: http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESLH/Edicoes/73/artigo326227-1.asp)

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