De todos os gêneros de cinema, o documentário é o que mais me faz pensar. Ultimamente, tenho assistido muitos, diante da facilidade que a Netflix proporciona. Semana passada fiz um post por aqui sobre Requiem para o sonho americano e pretendo fazer outro sobre Best of enemies. São dois documentários de caráter histórico-social, sendo verdadeiras aulas sobre os bastidores da política e economia dos Estados Unidos.

Mais confesso que o que gosto mesmo são documentários sobre a vida de pessoas incríveis (não por acaso também adoro ler biografias). Neste contexto, dou duas dicas de documentários que valem muito a pena assistir (e que estão disponíveis no Netflix): “Eu sou Ali – A história de Muhammad Ali“, e “O que aconteceu, Senhorita Simone?

Os dois filmes têm muitos aspectos em comum: retratam pessoas que viveram em um mesmo período (anos 60/70 do século XX), no mesmo lugar ( nos Estados Unidos), eram negros e enfrentaram com muita determinação preconceitos e dificuldades, foram bem além de atividades profissionais (um no esporte e a outra na música), romperam barreiras, tiveram vidas atribuladas e tinham personalidades marcantes.

Quanto ao primeiro, trata-se de uma produção de 2014. Retrata um personagem considerado por muitos como o maior nome do esporte de todos os tempos. Todavia, muito além de boxeador, Ali é (ainda está vivo com 73 anos) é uma pessoa ímpar, com uma inteligência privilegiada, grande coração e consciência político-social. É um “filme biográfico que conta a história do famoso e consagrado boxeador Muhammad Ali. Composto por arquivos pessoais das gravações de Ali e comoventes entrevistas e testemunhos de seu círculo de amigos e família, incluindo suas filhas, filho, ex-mulher e irmão, Ali é um íntimo e enternecedor olhar ao homem por trás da lenda- como Ali nunca foi visto antes“.(fonte: https://www.cineclick.com.br/eu-sou-ali-a-historia-de-muhammad-ali)

Por sua vez, em relação ao filme “What happend, Miss Simone?” (O que aconteceu, Senhorita Simone?), produzido em 2015, temos um excelente retrato da cantora e ativista política (lutou pela causa da igualdade racial) Nina Simone, um dos grandes expoentes da música nos Estados Unidos. Ela queria ser a primeira pianista clássica nos Estados Unidos. Em suas músicas, queria (e conseguia) mexer com as pessoas.

Sobre o filme:

A Netflix produziu o documentário O Que Aconteceu, Miss Simone? e lançou na última sexta-feira para seus assinantes o belíssimo resultado. Alternando gravações da própria Simone narrando fatos de sua vida com suas apresentações, o filme é bem sucedido ao dissecar a alma por trás da artista. Com um histórico de vida conturbado, Nina Simone alcançou grande status no cenário musical mundial. Considerada uma estrela (compositora ou intérprete), teve declínios e auges que preenchem os 102 minutos de duração do filme sempre despertando muita curiosidade. Era uma artista intensa seja com trabalhos de ativismo político ou na frente do piano. De maneira bastante orgânica, a diretora Liza Garbus cria uma colcha de retalhos com fatos que ocorreram na carreira da artista e cenas dela interpretando seus grandes clássicos. As canções caem como uma luva para simbolizar o momento que o documentário aborda. Dessa forma, músicas como “Mississippi Goddam” ou “Backlash Blues”  ganham perspectivas diferentes em face dos tempos vividos pela cantora em pleno conflito racial nos Estados Unidos.

Mesmo diante de um relacionamento conflituoso,  Nina Simone era mestre em se apossar de músicas sentimentais e refletir a dor e a paixão de letras fenomenais como “I Loves You Porgy”, de George Gershwin. Seu marido foi, por muito tempo, seu agente, seu amante e seu algoz. Deixou marcas indeléveis na vida da cantora, como podemos constatar nos depoimentos da própria Simone e de sua filha, Lisa Celeste Stroud.

Em determinado momento, o telespectador se depara com uma Nina Simone assustadora. Em meio ao trágico período de conflito racial norte-americano, Nina registra declarações polêmicas sobre violência e sobre usar de agressividade para atingir objetivos. Facetas do ser humano Simone muito bem exploradas pelo documentário. Escolhidos a dedo, todos os amigos e familiares que participam da obra narrando o impacto que Miss Simone deixou em suas vidas dão verdadeiros insights sobre o convívio difícil com ela. Nina tinha uma personalidade explosiva, vide uma cena bastante desconcertante no festival de Montreaux em que obriga agressivamente uma espectadora a se sentar em seu assento após interromper o show. Muito bem produzido, o filme merece ser conferido por aqueles que amam o legado que esta artista de mão cheia deixou e por aqueles que ainda não são familiarizados com seu trabalho.” (fonte: http://observatoriodocinema.com.br/criticas/2015/07/critica-o-que-aconteceu-miss-simone)