Uma das viagens mais fantásticas que já realizei foi para a Noruega. Em 2009, passei uma semana na casa de meus amigos Jan e Torrid, que são, simplesmente, as pessoas mais extraordinárias, generosas, cultas e divertidas que já conheci em minha vida.

Conheci Jan Foyner em Maceió em meados de 2007 (se não estou enganado): ao visitar minha terrinha pela primeira vez, ele simplesmente ficou deslumbrado com as belezas tropicais de Alagoas e resolveu comprar uma área no litoral norte do Estado para construir uma espécie de condomínio, com o objetivo de trazer os amigos noruegueses para passar todos os rigorosos invernos noruegueses no delicioso verão alagoano. Como ele (e mais dois sócios) precisava de alguém que entendesse das leis e da burocracia do Brasil, e que também falasse inglês, meu amigo Tácio me indicou para assessorá-lo.

Lembro que nosso primeiro contato foi em um restaurante à beira mar em Pajuçara. Houve uma empatia recíproca desde o primeiro momento. Rapidamente deixei de ser apenas o advogado e passei a ser o amigo brasileiro em que eles podiam confiar, e, principalmente, uma espécie de filho nos trópicos. Jan é extrovertido, conta piadas e relatos empolgantes de sua vida profícua, é extremamente culto, tendo trabalhado a vida inteira como professor universitário de História da Arte, crítico teatral, já foi dono de galeria de arte, viajou o mundo inteiro, fala várias línguas, e, especialmente, tem uma alegria e disposição invejáveis (ainda mais para quem tem 70 anos). Lembro-me do episódio em que o ajudei a finalmente conseguir seu CPF brasileiro: de bom humor, ele, ao invés de ter ficado chateado com a ineficiência brasileira, comemorava por estar cada dia se integrando mais ao país.

Outra característica de Jan que não posso esquecer é sua humanidade: quando passava férias em uma comunidade simples do litoral norte alagoano, adorava que os moradores da vilazinha frequentassem sua casa, e ele também amava ouvir as histórias daquela gente tão humilde. Tive a oportunidade de visitá-lo em sua casa de praia, e presenciei de perto o carinho que as pessoas da região têm por ele. Um dos moradores  havia sido presenteado com uma bicicleta oferecida pelo amigo escandinavo e a exibia como um troféu.

Na segunda vez que encontrei Jan em Maceió, pude conhecer Torrid, sua adorável esposa. Trata-se de uma pessoa com extrema sensibilidade, bom humor e inteligência. Trabalhou durante muito tempo fazendo cenários para peças teatrais. Torrid hoje está aposentada, aproveitando a vida viajando pelo mundo ao lado do marido. E olhe que eles viajam muito: quando recebo um email deles (o que até hoje acontece), eles sempre me relatam suas aventuras em todos os continentes (às vezes alugam um chalé na França, vão a determinadas cidades só para visitar um museu ou assistir um show, gostam demais de lugares “exóticos”, como a América do Sul, o sudeste asiático, etc). No litoral alagoano (Rota Ecológica), Torrid tinha um projeto para educar crianças pobres.

Apesar do empreendimento que eles queriam tocar em Alagoas não ter dado certo, até hoje eles retornam a Maceió com uma certa assiduidade para matar as saudades da cidade e deste amigo alagoano. Lembro-me que em uma das vindas de Jan a Maceió, pude hospedá-lo em minha casa. Nunca vou esquecer do dia em que minha secretaria chegou em casa e encontrou com ele (na hora eu não estava). Ela me relatou aos risos o encontro: os dois tentavam se comunicar por sinais, e afinal, tudo deu certo. Recordo-me ainda que em outra oportunidade, ele me trouxe vários presentes: um Papel Noel vestido de branco para meu filho que acabara de nascer, um atlas super completo, uma peça enorme de salmão defumado da Noruega, e dois recipientes de 5 litros cada, com vinho branco e tinto, com uma torneirinha para facilitar o consumo. A propósito, ele é ótimo na cozinha e adora sair para comer fora. Quando vem a Maceió, faço questão de leva-lo aos bons restaurantes da cidade.

Em 2009 fui fazer o doutorado na Espanha. Neste período europeu, encontrei Jan e Torrid em Londres, em Barcelona (hospedei o casal, quando passei uma temporada na cidade) e em Salamanca, quando fizeram questão de assistir a defesa de minha tese. Chegaram um dia antes, saímos para jantar, assistiram a defesa com muita atenção (apesar de não serem da área jurídica) e foram embora no dia seguinte. Nunca vou esquecer deste gesto: dois amigos noruegueses prestigiando o momento mais importante de minha tajetória acadêmica.

Só para lembrar um fato que bem demonstra como meus amigos são: quando estávamos em Barcelona, eles decidiram visitar o Museu Picasso (como adoram arte, conhecem tudo sobre o pintor espanhol). Como eu tinha outros compromissos, levei-os até a entrada e disse: “Fiquem à vontade para conhecer todo o museu. Daqui a quantos minutos nós nos encontraremos na porta do museu?”. Jan respondeu “1 hora”. Achei pouco, mas não falei nada. Uma hora depois nós nos encontramos e perguntei: “”. Foi quando ele disse: “Nós nunca fazemos isto. Ficamos apreciando durante uma hora apenas a primeira sala do museu. Na próxima vez, veremos outra.”

Mas voltando ao assunto que abordei ao iniciar este post, uma de minhas viagens favoritas foi à Noruega. Fiquei hospedado na casa de Jan e Torrid, em uma cidadezinha chamada Son, situada às margens de um belo lago (aliás, todo mundo na Noruega tem um barco). Conhecemos Oslo, uma cidade agradável e de altíssima qualidade (e custo) de vida. Apesar de Oslo não ser tão badalada quanto Estocolmo e Copenhague, tem muita coisa interessante para ver e fazer: fomos ao Parque das Esculturas Vigeland, a uma enorme pista de salto em esqui, passeamos pela região costeira da cidade, onde se encontra um renovado bairro, com construções modernas próximas ao píer da cidade, dentre outros programas.

Em um dos dias da viagem, fomos de carro pelo interior da Noruega conhecer alguns fiordes, formações naturais em que braços do mar avançam na terra por vários quilômetros, formando paredões de centenas de metros de altura. Atravessamos um dos fiordes em um ferry. Lembro como hoje que paramos para fazer um lanche em um local fantástico: ao lado, enorme cachoeiras desciam a montanha.

Em uma das noites da viagem, fomos ao teatro. Como a língua seria um entrave (não falo norueguês, obviamente), eles compraram ingressos sem avisar nada e como sabiam que eu era fã do ABBA (grupo sueco, é bom que se frise), fomos assistir o musical “Mama mia”. Apesar das músicas terem sido interpretadas em norueguês, como conhecia as canções, adorei o espetáculo. Quando o show acabou, eles fizeram questão de me levar ao camarim, já que boa parte do elenco os conhecia (também nesta oportunidade vi como eles são admirados).

Em sete dias que fiquei no país, tive ótimas aulas sobre todas as questões relacionadas à Noruega (e olhe que eu perguntava tudo!!!). Um dos pontos altos da viagem eram os jantares: Torrid preparava jantares temáticos, e cada dia eu me surpreendia com a variedade e qualidade dos pratos e das bebidas. A noite sempre acabava na biblioteca (nunca vi uma tão linda e completa), onde conversávamos bebendo conhaque.

Outra lembrança que tenho desta viagem foi nosso passeio à “cabana” que eles têm na montanha. Apesar da viagem ter sido na primavera, como a cabana fica no alto de uma montanha, à medida que subíamos a linda estrada em forma de serpente, a temperatura ia baixando cada vez mais. Lá em cima, em uma das manhãs, percebi que estava nevando (em pleno mês de maio!!!).

Como posso esquecer a noite de 16 de maio de 2009 em que ficamos assistindo o Eurovision, programa de televisão em que os países europeus competem entre si, cada um com uma música. É algo bem institucionalizado: milhões de pessoas no continente assistem a disputa. Naquela noite de 2009, quem venceu o programa foi a…Noruega!!! Dei sorte ao país. A música vencedora, cantada em inglês, é linda e se chama “Fairytale”, que significa “conto de fadas”. Nada mais apropriado para aquele fim de semana que estava vivendo no alto de uma montanha norueguesa, vendo a neve cair suavemente pela janela.

Por fim, uma recordação que terei para sempre da Noruega: no dia 17 de maio, o país comemora sua independência. Por sorte, estava lá exatamente neste dia. No centro de Oslo, na região perto do Palácio (o país é uma monarquia), presenciei o desfile cívico e as milhares de pessoas com bandeirinhas do país nas ruas. Algo de arrepiar.

Como se vê, uma imagem inesquecível. Espero retornar em breve à Noruega e rever meus queridos amigos.

Abaixo, com Jan e Torrid na defesa de minha tese de doutorado em Salamanca no final de 2010:

Abaixo, a cidadezinha de Son, onde me hospedei na casa de meus amigos:

Parque Vigeland em Oslo:

Região renovada e moderna de Oslo:

Imagens do Dia da Independência da Noruega (17 de maio):

Vídeo do musical “Mamma mia”, cantado em norueguês, que assisti em Oslo:

Vídeo da música “Fairytale”, vencedora do Programa Eurovisión de 2009, interpretada por Alexander Rybak, representando a Noruega:

Abaixo, algumas imagens da Noruega:

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