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Pelos mais diversos motivos, muitos alagoanos deixaram sua terra natal. E, por falta de perspectivas, até hoje o fazem. Digo isto com uma certa convicção, pois, como professor de Direito, venho acompanhando pelas redes sociais a verdadeira odisseia de centenas de ex-alunos espalhados pelo país e pelo exterior, sempre em busca das oportunidades que não conseguiram alcançar em Alagoas (por sinal, muito deles angustiados para retornarem).

Às vezes me pergunto quantos alagoanos, além dos 3,3 milhões que vivem em Alagoas,  estão “no exílio”, vivendo fora do Estado. Não tenho dúvida de que são milhares (100 mil, 200 mil ou 500 mil?, acho que nunca houve um censo). Afirmo que são muitos, dentre outros motivos porque no verão (da segunda metade de dezembro a primeira de janeiro), Maceió se enche não só de turistas, mas de alagoanos que voltam para passar as festas com suas famílias, ansiosos para reverem o mar de Maceió e para encontrarem os amigos de infância, que, aliás, são insubstituíveis.

Por sermos um Estado pequeno e pouco bairrista, diferentemente dos gaúchos, que têm os Centros de Tradição Gaúcha em vários Estados, imagino que os alagoanos que vivem fora do Estado não se encontram (a não ser aqueles que já eram amigos). Nesta hora, mais que alagoanos, somos nordestinos, o que muito nos honra, o que faz com que as festas juninas sejam um momento ímpar para aqueles que, mesmo vivendo no sudeste e em outras regiões do país, querem reviver suas origens.

Por motivo de estudo (capacitação profissional), durante dois anos vivi fora de Alagoas (e do Brasil). Neste caso, sabia exatamente em que dia iria voltar; é uma situação bem diferente (e muito mais cômoda) em relação àqueles que vão sem saber se e/ou quando voltam.

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Antigamente (até a primeira metade do século XX), era bastante comum as pessoas de uma certa condição social deixarem Alagoas para cursar uma faculdade fora do Estado: Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo eram os destinos que mais recebiam alagoanos. Muito foram e não voltaram mais a residir em terras caetés; outros se qualificaram, passaram uma temporada fora, mas depois retornaram a Alagoas. Vale lembrar que o fato de que alguns não voltaram a viver na terra que os viu nascer não significa que não amem ou que não sintam saudades de Alagoas.

E “por falar em saudade” (lembrei-me da canção de Vinícius), o alagoano Djavan já escrevia sobre este sentimento (descrito de uma forma única pela língua portuguesa), da seguinte forma:

“Era tanta saudade
É, pra matar
Eu fiquei até doente
Eu fiquei até doente, menina
Se eu não mato a saudade
É, deixa estar
Saudade mata a gente”

Já no campo da poesia, outro alagoano (Jorge de Lima) dedicou os seguintes versos à saudade:

Soneto da Saudade

Quem não canta? Quem? Quem não canta e sente?
-Chama que já passou mas que assim mesmo é chama…
A saudade, eu a sinto infinda, confidente.
Que de longe me acena e fascina e chama…

Mágoa de todo o mundo e que tem toda gente:
Uns sorrisos de mãe… uns sorrisos de dama…
…Um segredo de amor que se desfaz e mente…
Quem não teve? Quem? Quem não os teve e os ama?

Olhos postos ao léu, altivagos, à toa,
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?

Se vês que em teu passado uma saudade adeja,
-Faze que uma saudade a ti seja presente!
-Faze que tua morte uma saudade seja!”

Alagoanos ilustres como Deodoro, Graciliano Ramos, Nise da Silveira, Arthur Ramos, Jorge de Lima, Lêdo Ivo, Aurélio Buarque de Holanda, Pontes de Miranda, Djavan, Cacá Diegues, Marta Vieira da Silva, etc., para alcançar a realização profissional, emigraram para o sul ou mesmo para fora do país, deixando para trás suas origens alagoanas.

Sentiram saudades da terra que os viu nascer? Eis uma pergunta complexa, já que não é possível se afirmar de forma generalizada que sim ou que não. O que sim é possível é analisar algumas situações.

Floriano Peixoto, por exemplo, no final de sua exitosa carreira militar e política, “desejava vir para Alagoas descansar numa casa que tinha na praia de Pajuçara” (Cícero Péricles de Carvalho, Formação Histórica de Alagoas, p. 234).

Arthur Ramos, mesmo alcançando o sucesso em Paris como Diretor da UNESCO, dizia que:

“Pilar era paixão do coração e Paris a paixão do cérebro. O rio Sena e a magnífica Catedral de Notre Dame tinha reflexos da lagoa Manguaba e da Matriz da Virgem do Pilar.”
 
“A minha recompensa maior será a de estar ouvindo aquelas vozes queridas que os ventos constantemente me trazem do Pilar distante para a música do meu coração.”
 

Nise da Silveira, após ter passado uma feliz infância e adolescência em Maceió, foi fazer a faculdade de Medicina em Salvador. Quando voltou a Maceió, seu pai falecera, fato determinante para a sua ida ao Rio de Janeiro. Sobre este episódio: “Eu não aguentaria a total mudança de vida depois da morte de meu pai, um mês após minha formatura, e nem o grande bem querer a Maceió. Viajei para o Rio.”, afirmou a médica precursora da psiquiatria humanizadora. (Luiz Carlos Melo. Nise da Silveira, caminho de uma psiquiatra rebelde, pág. 61)

Lêdo Ivo, mesmo bastante crítico, declarou sua relação íntima com a capital alagoana na poesia “Planta de Maceió”:

O vento do mar rói as casas e os homens.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuraram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que se afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada”

Em “Ninho de cobras”, livro em que Lêdo Ivo não alisa a cabeça da sociedade alagoana, há um trecho que retrata uma conversa entre dois amigos que estão em um bonde que acaba de entrar na rua que dá para a praia (imagino que a da Avenida). Um deles, não resistindo à imagem diante de seus olhos, diz: “É uma paisagem admirável. No Nordeste não há iguais. E pessoas viajadas, que conhecem o estrangeiro, garantem que temos as mais belas praias do mundo. Veja que céu azul” (trecho retirado do capítulo O homem do balcão)

Jorge de Lima, depois de ter passado muitos anos de sua vida no Rio de Janeiro, pouco antes de sua morte, resolve rever sua terra:

Depois de muitos anos retorna ao nordeste apertado pela saudade. Decidiu-se ir a Recife ver o irmão Matheus e rever Maceió. Hospedou-se no Parque Hotel, na Praça da Catedral. Era Governador do Estado Arnon de Mello, seu afilhado, e um dos seus mais fieis admiradores. Alagoas festejou o poeta com grande ternura. Os velhos companheiros, Jayme de Altavilla, Guedes de Miranda, Lima Júnior, Carlos de Gusmão e os novos Arnoldo Jambo, Francisco Valois, Silvio de Macedo, Carlos Moliterno, Felix Lima e José Casado Silva cercaram-no todos do maior carinho. Já sentia-se um pouco debilitado. Foi sem dúvida uma viagem sentimental e a última“. (fonte: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=235196)

Por sua vez, em relação a Aurélio Buarque de Holanda:

A maior parte da sua vida foi vivida na cidade do Rio de Janeiro, mas quando vinha passar férias em Alagoas era inevitável entrar na boemia. Aurélio reunia-se com o jornalista Arnoldo Jambo, o teatrólogo Bráulio Leite Júnior, o poeta Carlos Moliterno, o cronista e político Teotônio Vilela, o industrial Napoleão Moreira, o escritor Emer Vasconcelos, a poeta e atriz Anilda Leão, dentre outros. Esses encontros literrrecreativos ocorriam em residências de amigos ou nos bares, como o antigo Bar das Ostras, no banho da Bica da Pedra ou apreciando a lagoa Mundaú, bebericando no Pontal da Barra.” ((fonte: http://majellablog.blogspot.com.br/2010/05/mestre-aurelio-na-sua-biblioteca.html)

Também há um importante registro sobre a relação de Aurélio e Alagoas:

Uma característica marcante do Mestre Aurélio era o seu amor por Alagoas, sua terra natal. Sempre que podia, ele saía do Rio de Janeiro — onde foi morar no final da década de 30 — e vinha ao Estado onde nasceu e viveu grande parte da sua vida. Ele fazia questão de passar pelas ruas onde morou e pelos locais onde trabalhou e viveu momentos importantes ao lado de amigos, dos quais nunca esqueceu.” (fonte: endereço eletrônico http://aquiacontece.com.br/noticia/2010/05/03/mestre-aurelio-o-intelectual-de-jeito-simples)

De Graciliano Ramos (eleito o “alagoano do século XX”), muito se diz de sua mágoa derradeira com Alagoas, pois de lá teria saído preso por sua ideias “comunistas”. Todavia, muitos se esquecem que seus livros “Infância” e “Viventes das Alagoas” se basearam nas lembranças que teve de seu Estado de nascimento; que “Caetés” são os alagoanos, que”Vidas Secas” e “São Bernardo” (no sertão/agreste) e, “Angústia” (em Maceió) são ambientados em Alagoas, além de ter ocupado vários cargos, políticos (Prefeito de Palmeira dos Índios) e administrativos (diretor da Instrução Pública de Alagoas, da Imprensa Oficial, etc), o que demonstra sua preocupação com as coisas de Alagoas.

Aliás, ser crítico da realidade alagoana (e apontar seus problemas) não é uma situação incompatível com sentir saudades. Muito pelo contrário. Só quem critica é quem realmente se importa.

Não apenas os alagoanos que deixaram sua terra natal sentiram (ou sentem) saudades de Alagoas: pessoas de outros Estados que passaram pelo Estado também já demonstraram seu afeto pelas coisas alagoanas. Na música, este é o caso de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Martinho da Vila, Leci Brandão, etc.

A propósito, as saudades de Alagoas têm sido cantadas a várias décadas. Podemos iniciar nossa viagem sentimental e musical (não necessariamente seguindo uma ordem cronológica) com Luiz Gonzaga. Já nos últimos anos de sua carreira, o grande artista nordestino cantava em “Pedaço de Alagoas”:

Areia branca à beira-mar
Ai que saudade
Qualquer dia desse eu volto lá

Quem é que não gosta de carinho
Quem é que não gosta de um xodó
Quem é que não sente saudade de um dia de sol em Maceió

Todavia, muito antes da gravação acima, o próprio rei do Baião já cantava em 1962 as saudades de Alagoas em “Maceió”, um clássico de Lourival Passos. Nesta belíssima canção (talvez a mais bonita sobre Alagoas), o compositor escreveu:

Ai, ai
Que saudade, ai que dó
Viver longe de Maceió

(…)

Recordando estas coisas tão boas
Sou feliz não me sinto tão só
Toda gente que sai de Alagoas
Coração deixa em Maceió

Abaixo, uma regravação desta música (um verdadeiro hino informal de Alagoas) feita por Dominguinhos:

Eliezer Setton, um dos artistas contemporâneos que melhor retrata e divulga as coisas de Alagoas, também cantou as saudades de Maceió na tão cantada pelos turistas “Ponta de lápis” (de Roberto Barbosa). O refrão é inesquecível, e provavelmente você que visitou Maceió já cantou “Ai que saudade do céu, do sal, do sol de Maceió”:

Em “Alagoas”, Djavan também cantou que “foi beirando estrada a baixo que piquei a mula, disposto a colar o grau na escola da natura“, mas destacou seu lamento em ter que “viver do que cantar“. Conclui ressaltando sobre sua terra natal:

Você me deu liberdade pra meu destino escolher, e quando sentir saudades, poder chorar por você

Martinho da Vila também cantou suas lembranças alagoanas, de pessoas, como Teca e Eliane, de lugares como a Lagoa de Mundaú e Paripueira, e de coisas, como o sururu, o caldinho de feijão e manga rosa da boa. Sentia saudade inclusive de “vadiar com as meninas do Mossoró“.

A carioca Leci Brandão cantou “Eu sou Maceió” e questionava “Será que eu só presto pra você dançar na minha Pajuçara?! Será que eu só sirvo porque meu caminho vai dar no Francês?! Chegou o momento de ter sentimento e vergonha na cara, Não quero de fato tanto desacato que vem de vocês

De fato, como lembrou Leci Brandão, apesar de tantas declarações de amor e de saudades, acho que ainda há muito que avançar em relação ao sentimento dos alagoanos para com Alagoas, já que muitos alagoanos muito mais “desacatam” que elogiam de público as coisas de Alagoas. Sobre este assunto, recomendamos o texto do jornalista Rodrigo Cavalcanti “Ideias como Alagoas pode se livrar de seu complexo de inferioridade“. Eis abaixo um trecho:

Difícil amar o que não se conhece. Enquanto o alagoano não conseguir se reconectar com o passado, provavelmente conhecerá mais sobre as igrejas de Olinda e de Ouro Preto do que as de Penedo e Marechal, mais sobre as serras de Gravatá do que as de Mar Vermelho, mais sobre as estátuas e deuses da mitologia grega do que as da rica (e viva) mitologia dos Orixás. A boa notícia é que já tem muita gente no Estado, cada uma em sua área, fazendo esse trabalho. Na moda (de Vera Arruda até uma nova geração de designers e estilistas inspirados na terra), na gastronomia (das irmãs Rocha aos novos chefs que revalorizaram os ingredientes regionais), nos festivais de Cultura (do trabalho de Vinicius Palmeira, na Prefeitura de Maceió, ao de Carlito Lima, em Marechal), nos museus e espaços de memória (do trabalho do IPHAN e IHGA ao de agências como a Núcleo Zero, que mudaram a cara das exposições no Estado), na revalorização da história das religiões de matriz africana (do trabalho de pesquisadores como Sávio Almeida, Edson Bezerra e Bruno Cavalcanti), na valorização do carnaval (dos fundadores do Pinto da Madrugada aos novos blocos que surgem a cada ano), – só para citar algumas iniciativas de gente que sabe que, quanto mais o alagoano conhecer sua história, mais gostará de si. E o melhor de tudo é que, quem gosta de si, termina se tornando bem mais seguro e altivo para dizer não quando necessário – inclusive para aqueles acostumados a comprar um sim em períodos eleitorais.   E aí, quem sabe um dia...” (fonte: http://agendaa.tnh1.com.br/vida/gente/2297/2014/08/24/agenda-a-ideias-como-alagoas-pode-livrar-se-de-seu-complexo-de-inferioridade)

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Concluímos dizendo que, apesar do título enganoso do post (que prometia explicações), a saudade é um sentimento que não se explica; ele surge e ele se faz sentir. Viver longe de sua terra ou mesmo conhecer um lugar e dele se distanciar gera sensações de tristeza e melancolia, mas também de orgulho e satisfação pelo que se viveu (como cantava Luiz Gonzaga em Que nem jiló, “saudade inté que assim é bom“). Que os alagoanos tenham cada vez mais motivos para se orgulhar de sua terra, mas que precisem cada vez menos dela sair para ter que sentir este orgulho.

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