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Estamos a poucos dias do Natal, festa que celebra o nascimento de Jesus Cristo, certamente, até para os não cristãos, uma das maiores figuras da história de todos os tempos. Lembrei-me que não obstante Jesus seja uma figura singularmente relevante, que revolucionou não só o tempo em que viveu, mas deixou sua marca de forma permanente em toda a trajetória da humanidade (tanto que temos a.C. e d.C),  nos dias de hoje, um dos personagens mais festejados desta época natalina acabou sendo o Papai Noel, figura lendária (não me leiam as crianças), ainda que associada a São Nicolau, religioso que viveu no século IV.

Também é curioso que embora a mensagem de Jesus só atinja atualmente 32% da população (o que equivale a 2,2 bilhões de cristãos dentre os 7 bilhões de residentes no planeta azul), no tocante ao Papai Noel, ele parece ser quase uma unanimidade (especialmente para as crianças e empresários de todo o mundo).

Recordei-me que certa vez li um poema de um alagoano que ousou afirmar com todas as letras que não gostava do Papai Noel. Na verdade, o poema de Ademar Paiva narra a revolta de uma criança pobre que se desiludiu com o Papai Noel, que costuma, por razões que só o capitalismo sabe explicar, ser mais generoso com as crianças ricas. Lindo o texto, que vale a pena conhecer:

Não gosto de você, Papai Noel! 
Também não gosto desse seu papel 
de vender ilusões à burguesia. 
Se os garotos humildes da cidade 
soubessem do seu ódio à humildade, 
jogavam pedras nessa fantasia! 

Você talvez nem se recorde mais. 
Cresci depressa e me tornei rapaz, 
sem esquecer no entanto o que passou. 
Fiz-lhe bilhete pedindo um presente, 
a noite inteira eu esperei contente, 
chegou o sol e você não chegou. 

Dias depois, meu pobre pai cansado 
trouxe um trenzinho velho, empoeirado, 
que me entregou com certa hesitação. 
Fechou os olhos e balbuciou: 
“É pra você… Papai Noel mandou…” 
E se esquivou contendo a emoção. 

Alegre e inocente nesse caso, 
pensei que meu bilhete com atraso 
chegara às suas mãos no fim do mês. 
Limpei o trem, dei corda, ele partiu, 
deu muitas voltas, meu pai sorriu 
e me abraçou pela última vez. 

O resto só eu pude compreender 
quando cresci e comecei a ver 
todas as coisas com realidade. 
Meu pai chegou um dia e disse, a medo: 
“Onde é que está aquele seu brinquedo? 
Eu vou trocar por outro na cidade”. 

Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar, 
e como quem não quer abandonar 
um mimo que lhe deu quem lhe quer bem, 
disse medroso: “Eu só queria ele… 
Não quero outro brinquedo, quero aquele 
E por favor, não vá levar meu trem”. 

Meu pai calou-se e pelo rosto veio 
descendo um pranto que eu ainda creio, 
tão puro e santo, só Jesus chorou. 
Bateu a porta com muito ruído, 
mamãe gritou, ele não deu ouvidos, 
saiu correndo e nunca mais voltou. 

Você, Papai Noel, me transformou 
num homem que a infância arruinou, 
Sem pai e sem brinquedos. Afinal, 
dos seus presentes, não há um que sobre 
para a riqueza do menino pobre 
que sonha o ano inteiro com o Natal! 

Meu pobre pai doente, mal vestido, 
pra não me ver assim desiludido, 
comprou por qualquer preço uma ilusão: 
num gesto nobre, humano, decisivo, 
foi longe pra trazer-me um lenitivo, 
roubando o trem do filho do patrão. 

Pensei que viajara. No entanto 
depois de grande, minha mãe, em pranto, 
contou que fora preso. E como réu, 
ninguém a absolvê-lo se atrevia. 
Foi definhando, até que Deus um dia 
entrou na cela e o libertou pro céu! 

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Na internet, há várias interpretações desta bela poesia. Destaco duas:
Rolando Boldrin:
Lúcio Mauro (durante a Escolinha do Professor Raimundo):
Sobre Aldemar Paiva, recomendo a leitura do post que escrevi neste blog:
Feliz Natal a todos (com mais Jesus e menos Papai Noel).
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