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Neste dia 18 de janeiro de 2017, este menininho aí da foto está completando 80 anos de vida. Desde pequeno, seu olhar traduz sua personalidade: tímido, simples, bondoso, desprovido de qualquer traço de vaidade e egoísmo. Não conheço ninguém que seja tão decente quanto ele. E olhe que o conheço de perto. Trata-se de meu amado pai, Reinaldo.

Ele nasceu em uma segunda-feira, dia apropriado para quem sempre valorizou o trabalho, na Fazenda Imburi, situada na zona rural de Coruripe, tradicional município do litoral sul alagoano. Enquanto Getúlio Vargas presidia o país, Osman Loureiro governava Alagoas. Meu pai me contou muito pouco sobre sua infância (ainda está em tempo de perguntar): lembro que ele sempre se recorda do dia em ganhou uma bicicleta (cujo freio era acionado ao pedalar para trás), que ele tinha um tio alemão que consertava coisas, e que desde criança ouvia futebol pelo rádio.

Desde sempre, é um apaixonado torcedor do Flamengo (não sei como virei vascaíno, aliás, sei: porque ele nunca nos obrigou a nada). Pergunte até hoje mesmo a escalação do time do Flamengo de 1952, por exemplo. Tenho certeza que ele a tem decorada.

Reinaldo Lessa de Carvalho…Lessa herdado da mãe, Cléria Gama Lessa, e Carvalho do pai, Álvaro Higino de Carvalho.

Abaixo, foto do casal Álvaro e Cléria, provavelmente na década de 1950:

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O que lembro de meu avô Álvaro é que ele era um homem sério, rígido, sisudo. Recordo que meu pai certa vez comentou que quando ele era criança, durante as refeições, com a família toda reunida, os filhos não podiam fazer qualquer barulho, pois era considerado desrespeitoso. Durante toda sua vida, imagino que meu avô tenha se dedicado às atividades na Fazenda Imburi (próxima à usina Coruripe), onde o plantio de cana-de-açúcar era a principal atividade econômica.

Quando o conheci, ele já era um senhor de idade avançada e já estava “aposentado”. Nós costumávamos visitar meus avós paternos aos domingos, quando eles já residiam em Maceió. Isto basicamente transcorreu na década de 1980. Meu avô sempre estava sentado em sua cadeira de balanço. Falava pouco. Dele meu pai deve ter herdado a sobriedade, poucos sorrisos.

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Diferentemente de meu avô, minha avó Cléria era uma pessoa mais carinhosa e doce. Apesar de ser mais comunicativa (pelo menos como neto, era assim que eu a via), também não era muito expansiva, o que explica a timidez de meu pai.

Aos domingos, quando íamos a sua casa no bairro da Levada, em Maceió, ela sempre nos recebia com muito afeto, oferecia algum lanche e, invariavelmente, perguntava a mim e a meu irmão gêmeo Fabiano o que seríamos quando crescêssemos.

Meus tios sempre estavam por perto. Sempre foram muito apegados aos pais, especialmente à mãe. Um fato curioso é que meus avós dificilmente iam lá me casa, exceção de alguns aniversários. Muito caseira, minha avó, ao ficar viúva, encontrou uma diversão: o bingo.

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Pelo menos duas vezes ao ano, visitávamos a Fazenda Imburi, onde passávamos o dia. Lembro perfeitamente que lá existiam muitas árvores frutíferas (inclusive sapoti), havia um poço, um campo de futebol ao lado da casa (que para mim era a frente). A casa, por si só, já chamava a minha atenção: além de muitos quartos, o pé direito era bem alto, havia uma grande mesa, uma cozinha bem tradicional (dava para gravar um filme de época ali), redes ao redor da casa, etc. Sempre voltávamos a Maceió com o carro cheio de frutas, macaxeira e passávamos na feira de Coruripe para comprar uma iguaria de lá que gosto bastante: a farinha d´água.

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Não são muitas as fotos que temos que de meu pai (muitas destas foram cedidas por minhas tias Zuleide e Celina). Nesta foto abaixo, ele é este rapazinho de branco (faz-me lembrar meu filho Leonardo). Meu pai era o segundo filho mais velho (o mais velho entre os homens).

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Como era costume no interior do país na primeira metade do século XX, as famílias eram bastante numerosas. Nesta foto com o cavalo, meu pai é o menino que aparece no meio.

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Quando recebi de minhas tias algumas fotos antigas, esta abaixo foi a que mais me impressionou, pois até então não me via tão parecido assim com meu pai, apesar de algumas semelhanças evidentes, como as entradas no cabelo (calvície que já nascemos com ela e que, graças à genética, nunca avançou). Todavia, ao me deparar com a foto em que os irmãos Lessa de Carvalho estão reunidos com a matriarca, vi como eu tinha tantos traços herdados de meu pai: alto, magro, pescoço fino, braços e pernas compridas, sorriso tímido, cabelo igual, etc.

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Abaixo, fotos de meu pai, e de meus tios: neste mosaico, de cima para a direita, descendo, podemos ver: Reinaldo, Marily, Leonardo, Neide, Lourdinha, Zuleide, Gisele, Cleide, Celina, Leonel e Eraldo.

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A imagem abaixo mostra como é a minha lembrança da casa da Fazenda Imburi. Esta lateral era para mim a frente da casa (descobri que não era faz três dias).

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Nas fotos a seguir, alguns momentos da família Lessa de Carvalho:

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Meu pai foi estudar em colégio interno em Maceió: o Diocesano (da congregação dos irmãos Maristas). Curiosamente, eu e Fabiano também estudamos no Marista no começo dos anos 80, e meus sobrinhos Raphaela, Reinaldo Neto e Carolina da mesma forma. São três gerações de ex-alunos.

Meu pai comentou certa vez que para chegar a Maceió, saindo de Coruripe em estradas de barro, levava-se todo um dia. Ele passava as férias em casa, na Fazenda, com sua família. Não deve ter sido fácil a vida de estudante interno.

Desde período, meu pai fala sempre dos colegas que teve (inclusive várias personalidades da política, do direito, da medicina, etc. alagoana), embora eu não saiba dizer quais eram seus principais amigos (vou perguntar). Recordo que ele me relatou algumas vezes que acompanhava os jogos do CSA (sua outra grande paixão) no Mutange, onde ia muitas vezes a pé seguindo o trilho do trem. Por falar em futebol, ele me garante que era um bom jogador. Recentemente me surpreendi com a posição que ele disse que jogava: zagueiro. Até hoje acompanha todos os jogos que passam na televisão e ainda vai ao estádio, em geral levado por meu cunhado Neto.

Outro fato que me recordo dele comentar sobre esta época do colégio era sobre os irmãos maristas, sendo alguns de fora do país. A propósito, o costume de então era, ao invés de inglês, estudar outras línguas, como o latim, o francês e o espanhol.

Deste período da adolescência de meu pai, não tenho fotos (embora lembre de tê-las visto quando eu era criança), assim como também do período da faculdade de Odontologia, onde se formou no início os anos 60 (todos os dias, durante cinco anos, subia a ladeira da Catedral para ir à faculdade, que se localizava onde depois foi o colégio Batista). Na época da faculdade morava na Pensão Monalisa (onde fez vários.amigos), localizada onde hoje fica o Instituto de Identificação.

Desta Maceió comenta que frequentava o cinema (recorda-se de vários filmes que hoje são clássicos, e diz que os artistas de hoje nem chegam perto dos de sua época). De seu gosto musical, o pouco que sei é que ouvia Glenn Miller (e sua Moonlight Serenade).

Meu pai foi um dos primeiros dentistas de Maceió: teve milhares de clientes, seja em seu consultório particular na Rua do Sol (rua onde também morava, e inclusive, onde nasci), seja nos postos de saúde do Estado. Trabalhou também em órgãos públicos federais, sempre com muita dignidade e compromisso. Lembro que ele sempre ressalta que durante muitos anos trabalhava os três horários. Até ele se aposentar, praticamente só conhecia meu pai vestido de roupa branca. Nunca esquecerei que ele foi meu primeiro dentista; a segunda e atual é minha irmã Cleide, que seguiu os passos de meu pai. Hoje, é minha sobrinha Raphaela que mantém a tradição de família de odontólogos (está na metade do curso).

Meu pai, quando jovem, era muito bonito (inclusive, para mim, até hoje continua sendo). Mas imagino que, por ser tímido, não deve ter sido tão fácil conquistar minha mãe Mabel, o grande amor de sua vida (acabam de completar 50 anos de casados).

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Eles se conheceram na Praça dos Martírios, no começo da década de 60. Minha mãe também tinha vindo do interior (Boca da Mata-AL) estudar em Maceió. Ao que parece, era costume da Maceió de outrora os jovens paquerarem nas praças do centro da cidade (lembremos que poucos frequentavam a praia): os rapazes ficavam sentados nos bancos, e as moças ficavam dando voltas ao redor da praça.

Eles noivaram e em 10 de julho de 1966 se casaram na Igreja de Santa Rita, em Boca da Mata. Lembro que ele comentou que quando eram noivos, fora a Boca da Mata conhecer a família de sua mãe. Seus cunhados logo gostaram dele (até hoje, é uma unanimidade na família), e certa vez o chamaram para dar uma volta, só voltando muitas horas depois, para aflição de minha mãe.

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Meus pais tiveram 5 filhos, em três gestações: primeiro nasceu a Cléria (1967), depois as gêmeas Cleide e Cláudia (1970), e os gêmeos Fábio e Fabiano (1975). Minha irmã Cláudia foi para o céu com 3 ou 4 meses de vida (por motivo de saúde). Imagino como eles sofreram.

Eles sempre foram muito unidos: fazem tudo juntos. Nunca vi nada igual. Onde um está, você encontrará o outro. Eles têm personalidades muito diferentes: enquanto meu pai é calado, minha mãe é expansiva; enquanto ele é tranquilo, ela é agitada. Mais algumas características os dois têm juntos: a fé cristã, o amor à família, a bondade e a fidelidade.

Acompanhei, nos meus 41 anos de vida, um boa parte desta trajetória: com muito trabalho, perseverança e honestidade, progrediram juntos e conseguiram “vencer o bom combate”. Passaram por diversas casas: Beco do Elefante, Rua Sampaio Luz – quando a Ponta Verde mal existia, Rua do Sol (cantada até por Chico Buarque), Rua Ulisses Braga Júnior (na Avenida Rotary). Em 2001, passaram a viver em apartamento: na Rua Deputado José Lages e hoje na Rui Palmeira.

Sem dúvidas, melhoram de vida, pois sempre recebendo salários de servidores públicos não tão bem aquinhoados (dentista e professora), faziam o que podiam para educar muito bem seus filhos (colégios particulares, inglês, esportes, cursinhos, etc), nunca deixaram nada faltar à família, especialmente amor. A educação é dos grandes legados que fizeram questão de deixar. Hoje se orgulha da filha médica, da filha dentista, do filho administrador e do filho advogado.

Tivemos uma infância maravilhosa na casa da Avenida Rotary: brincar e estudar eram duas rotinas que se incorporaram ao nosso cotidiano. Desde pequeno meu pai levava seus filhos homens aos jogos no Estádio Rei Pelé: eu desta vez não o decepcionei e até hoje sou um torcedor do CSA, o maior de Alagoas. Os fins de semana eram passados em clubes como o Iate e o Lindoya, ou na praia, onde como uma boa família alagoana, íamos quase que religiosamente em todos os finais de semana (especialmente quando passamos a ter uma casa em Paripueira e depois na Barra de São Miguel). Outro costume que nos foi ensino era o de ir à missa: estávamos na igreja todo o final de semana. Católicos praticantes, meus pais carregavam os filhos com eles.

Abaixo, alguns momentos deste casal que eu tanto amo:

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Seu Reinaldo com seus filhos Fabiano, Cléria, Cleide e Fábio.

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Em quase todas as fotos de meu pai, há alguém da família ao lado. Simplesmente, ele seria incapaz de pedir a alguém que tirasse uma foto dele. Como também nunca o vi pedir nada de presente, nem tão pouco deixar de ajudar quando um de nós precisasse.

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Os netos, irmãos, cunhados, genros e noras também estão sempre presentes:

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Por falar em netos, acho que são atualmente a maior alegria da vida deles: Raphaela, Reinaldo Neto, Carolina, Ana Alice, Ana Luísa, Leonardo e Manuela.

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Levado por minha mãe, que sempre amou viajar (é professora de geografia), meu pai conheceu o mundo (especialmente depois que os filhos se ajeitaram na vida, graças aos esforços deste casal maravilhoso). Pude viajar com eles algumas vezes: quando eu morava na Espanha, onde fazia o doutorado, eles foram me visitar. Como estava de férias, pudemos conhecer juntos a Grécia, a Turquia e o Egito. Nunca esqueceremos da cena de meus pais montados em camelos pelas areias do deserto a caminho das pirâmides.

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Domingo passado (15 de Janeiro), recebemos na Barra de São Miguel a família para comemorar os 80 anos de Reinaldo. Nas fotos abaixo, vê-se como está conservado, graças ao bom Deus.

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Com seus irmãos:

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Com sua esposa, filhos e neto Leonardo.

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Que Deus continue o abençoando…

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E que todos saibam como eu amo este pai maravilhoso…

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…um exemplo de decência que nunca irei esquecer.

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Obs.: quem tiver mais informações e fotos sobre meu pai, favor me enviar por aqui, pelo facebook ou whatsapp.

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