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Tenho defendido um tese que se desdobra em duas conclusões: primeiramente, que algum fator que ainda não foi estudado pelos especialistas (sociólogos, historiadores, antropólogos, etc.) tem feito com que, da pequena Alagoas, tenham surgido incontáveis figuras ilustres no cenário nacional; e que a quantidade e qualidade destas genialidades são diretamente proporcionais à falta de conhecimento (e de reconhecimento) pelos alagoanos quanto a sua existência.

Para ilustrar estas conclusões, vejamos minha última descoberta: Alagoas (e Maceió) produziu dois intelectuais cujos nomes (Sebastião e Alberto) poucos vão se recordar. Todavia, ficaram mais conhecidos pelos seus sobrenomes, que são os exatamente os mesmos, embora sejam invertidos. No caso, um responde por (Sebastião Cícero) Guimarães Passos e o outro por (Alberto) Passos Guimarães.

Em comum, além dos sobrenomes, há o fato de que se tratavam de genialidades, defendiam suas visões de mundo de forma bastante intensa, nasceram em Maceió e posteriormente foram morar no Rio de Janeiro, eram amigos dos grandes intelectuais de suas respectivas épocas. Todavia, as semelhanças param aí.

Enquanto o Sebastião era o poeta, boêmio, parnasiano, amigo de Olavo Bilac e Arthur Azevedo, foi um dos fundadores e membro da Academia Brasileira de Letra e viveu no século XIX; o Alberto era um intelectual e escritor autodidata, revolucionário, comunista, um dos fundadores da revista Novidade (que agitou a cena intelectual de Maceió dos anos 1930), amigo de Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda, defensor da reforma agrária e viveu no século XX.

Sobre GUIMARÃES PASSOS, segundo o site infopedia:

Escritor e jornalista brasileiro, Sebastião Cícero Guimarães Passos nasceu a 22 de março de 1867, em Maceió, no Estado de Alagoas (Brasil). Aos 19 anos, foi para o Rio de Janeiro, onde contactou com Paula Ney, Olavo Bilac, José do Patrocínio, Luís Murat e Artur Azevedo. Colaborou na imprensa, como em A Semana, Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, escrevendo algumas vezes com os pseudónimos Filadelfo, Gill Floreal, Tim, Fortúnio, Puff. Para além do jornalismo, Guimarães Passos foi arquivista da Secretaria da Mordomia da Casa Imperial, posto que perdeu aquando da Proclamação da República. Em 1893, aderiu ao governo revolucionário, estabelecido no Paraná, e lutou contra o marechal Floriano Peixoto. Depois da revolta, exilou-se na Argentina, em Buenos Aires, onde realizou conferências sobre literatura brasileira e participou em jornais locais, como La Nación e La Prensa.

Em 1896, de regresso ao Brasil, Guimarães Passos tornou-se num dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras. Como poeta, pertencente ao parnasiano, publicou algumas obras: Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (1905) e Tratado de Versificação (1905), estas duas últimas publicações tiveram também a colaboração de Olavo Bilac),
Doente com tuberculose e querendo melhorar a saúde, o escritor partiu para a ilha da Madeira e, posteriormente, para Paris.
Guimarães Passos faleceu a 9 de setembro de 1909, em Paris, França. Os seus restos mortais foram transladados para o Brasil, em 1921“. (https://www.infopedia.pt/$guimaraes-passos)

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Registre-se ainda a descrição do poeta alagoano:

No discurso em sua sucessão na cadeira 26 da Academia Brasileira de Letras, Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio, conta, com a graça costumeira dos seus textos, como se deu a vinda desse alagoano para o Rio: ”Por uma certa manhã dos fins do século passado – quase quatro lustros antes da terminação desse memorável século da ciência, da luz e do positivismo – um jovem poeta de Maceió resolveu acompanhar a bordo três amigos, que de viagem se faziam para a Corte, capital do império. O poeta era belo mancebo tropical. Alto, elegante, bíceps gigantes, largo busto, com o desabrocho da cintura estreita, longas mãos, cabeleira crespa formavam-lhe a beleza máscula; e quando ria, um riso jovial, entre a ironia satisfeita e a ingenuidade irônica, mostrava aos que o ouviam uma esplêndida dentadura de trinta e dois belos dentes. Era forte, era são, esse mancebo amável. Chamava-se Sebastião Cícero dos Guimarães Passos”. (http://www.academia.org.br/artigos/guimaraes-passos-poeta-e-boemio)

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Por sua vez, sobre PASSOS GUIMARÃES:

Um alagoano nascido em 1908 que nunca frequentou uma faculdade e mal terminou o colégio deixou uma obra rica e que merece ser estudada. Ele escreveu, entre outras coisas, sobre Economia, Estatística e sobre a questão agrária. O nome dele é Alberto Passos Guimarães, um autodidata que lutou pela justiça social”. Assim o jornalista Diego Barros inicia a descrição desse militante do PCB quando da inauguração da Biblioteca Alberto Passos Guimarães, ligada ao Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral).

“Ele tinha um desejo de mudança que permitisse a construção de uma sociedade igualitária e democrática. Nunca freqüentou as salas de aula de uma universidade. Mal terminou o colégio, pois precisava trabalhar para ajudar o pai no sustento da casa. Mesmo assim, Alberto Passos Guimarães, alagoano nascido em Maceió em 1908, deixou obras que merecem ser estudadas e conhecidas pelos alagoanos. Ele tinha especial interesse por economia e pela questão agrária, mas as questões políticas de forma geral também lhe interessavam, tanto é que ele se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) muito jovem e se engajou na luta pelo socialismo.

Alberto Passos Guimarães se tornou autodidata e carregou por toda a vida o gosto pela leitura e pelos estudos. Agora, no ano de seu centenário, ele empresta seu nome à biblioteca do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral), inaugurada com a presença do filho do intelectual, o cientista, físico e professor Alberto Passos Guimarães Filho, que veio do Rio de Janeiro, onde mora, especialmente para a inauguração da biblioteca.

Como forma de lutar pela justiça social, em 1931 Alberto Passos Guimarães iniciou sua militância no PCB. A atuação como jornalista no jornal A Vanguarda Operária é uma evidência da sua ligação com o movimento operário alagoano. Por esse motivo, foi perseguido e viveu na clandestinidade, tendo que sair de Maceió. Fugindo da perseguição política, morou em Salvador e no Rio de Janeiro, onde trabalhou como representante comercial e depois na Rede Ferroviária Federal. Na década de 1930, quando ele ingressou no PCB, o projeto político desse partido se apresentava como uma possibilidade de realizar as mudanças desejadas no país. Na década de 1950 e no começo dos anos de 1960, uma série de situações, como a crise do stalinismo e o fomento do nacionalismo no Brasil, acentuaram divergências em torno da análise que o partido realizava sobre o país e as medidas que defendia para sua transformação social. Alberto Passos Guimarães, bem como Caio Prado, participaram desse período de discussões, se posicionando no debate político e, desse modo, expondo as cisões que ocorriam no PCB. O predomínio das idéias de Alberto Passos Guimarães sobre a questão agrária no PCB aponta para a transformação democrático-burguesa do país com a consolidação do capitalismo, extinção do feudalismo e luta contra o imperialismo, pela via pacífica.

Passos Guimarães foi comerciante e jornalista e trabalhou ao lado de Aurélio Buarque de Holanda, Rachel de Queirós e Valdemar Cavalcanti. A geração de que Alberto Passos fez parte é composta também por José Lins do Rêgo, José Auto, Jorge Amado – que esteve em Alagoas para interagir com esse grupo e estar ao lado, especialmente, de Graciliano Ramos – Manoel Diegues Júnior, Carlos Paurilio, Mendonça Júnior, Mário Palmeira, Rui Palmeira, Jorge de Lima, Raul Lima, Aloysio Branco, Mário Brandão e Graciliano Ramos, que era o mais velho dessa turma, mas com quem Alberto Passos convivia na Maceió da década de 1930.

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(Na foto acima, Waldemar Cavalcanti, José Auto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Alberto Passos Guimarães – 1933)

Parte desse grupo se aglutinava a partir de acontecimentos culturais que acabaram marcando a vida literária alagoana, como a Academia dos Dez Unidos; Paródia da Academia Alagoana de Letras; Festa da Arte Nova, uma espécie de Semana de Arte Moderna realizada em apenas um dia; e, por último, o Grêmio Literário Guimarães Passos, ambiente de poetas e prosadores que tinham, na época, menos de 25 anos de idade. Alguns componentes dessa turma se reuniam sempre nos finais de tarde no Bar Central e no Bar do Cupertino, no Centro de Maceió.

Passos Guimarães também trabalhou no IBGE e colaborou com a Enciclopédia Mirador. Como jornalista, Alberto Passos Guimarães trabalhou e colaborou nos jornais Imprensa Popular, Para Todos e Hoje. Participou na redação de um documento que mudou os rumos do PCB em 1958 e ficou conhecido como Declaração de Março, que passou a atribuir maior relevância à questão democrática, e à participação no jogo político democrático.

Alberto Passos Guimarães e Valdemar Cavalcanti fundaram e dirigiram, em 1931, a revista literária Novidade. Esse periódico abriu novos caminhos para os jovens intelectuais de Alagoas e até hoje essa revista é uma referência no meio acadêmico e literário. Certa vez, Valdemar Cavalcante falou para o escritor Dênis Moraes, autor da biografia de Graciliano Ramos: “Éramos todos curiosidade e perplexidade. Queríamos ver o que estava acontecendo e o que iria acontecer, não em Maceió, nem em Alagoas, mas no Brasil e no mundo. Não só na literatura, nem na arte, nem nas ciências diversas, mas na vida”. (…)

“Alberto Passos Guimarães foi um ensaísta agrário e um militante comunista. Ele tentava mobilizar os setores camponeses num processo de desenvolvimento social pela via democrática”, disse Paulo Décio, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).  (fonte: https://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=385:alberto-passos-guimaraes-um-autodidata-que-lutou-pela-justica-social&catid=6:memoria-pcb)

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Acerca da relevância de Passos Guimarães para as questões agrárias no Brasil:

O falecimento de Alberto Passos Guimarães em dezembro de 1993, a trinta anos da primeira edição de Quatro séculos de latifúndio, chama a atenção para a importância do ensaísta alagoano, radicado no Rio de Janeiro desde o final do Estado Novo. Bem ao estilo da época, Alberto Passos Guimarães escreveu sobre a “realidade brasileira” nas duas problemáticas de maior relevo para a esquerda dos primeiros anos 60 – a questão agrária, chave da contemporaneidade brasileira; e a conjuntura econômica daquele tempo “sobredeterminado” pelos monopólios internacionais. São expressão justamente desse momento os livros mais conhecidos – Inflação e monopólio no Brasil (1963) e, sobretudo, Quatro séculos de latifúndio (1963; reeditado em 1968). Sem dúvida, a questão agrária, com a reafirmação da tese da feudalidade, confere a Alberto Passos Guimarães inscrição entre os constituintes do modelo democrático-burguês de interpretação pecebista do Brasil contemporâneo. É com Quatro séculos de latifúndio que ele ficará conhecido na cena intelectual da esquerda daqueles anos 60, e terá, desde então, presença representativa na historiografia agrária brasileira“. (fonte: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/brasil/cpda/estudos/dois/rai2.htm)

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Os alagoanos não poderiam ficar sem saber a história e reconhecer o legado destes dois filhos da terra. Que estas trajetórias sejam divulgadas!

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