Poucas coisas são mais associadas à alagoanidade que o sururu. Ainda que este saboroso molusco possa ser encontrado em outras regiões do país, em nenhum outro lugar o sururu é tão apreciado e consumido como em Alagoas.

Pode-se afirmar que o sururu faz parte do patrimônio cultural do “Paraíso das Águas” ou da “Terra dos Marechais”. Por falar em denominações, o próprio mestre Aurélio Buarque de Holanda registra em seu dicionário que “papa-sururu” é a alcunha atribuída ao alagoano.

Na verdade, com muita precisão destacam que Edson Gouveia Bezerra e Ernani Viana da Silva Netto, no ensaio “Imaginário Sururu, um patrimônio a contrapelo”, que:

O imaginário das águas lacustres se configura de um modo particularíssimo nos espaços  alagoanos. No tocante à geografia das águas a mesma é percebida inclusive por não alagoanos,  como Gilberto Freyre, por exemplo, que na introdução de O bangüê das Alagoas, de Manoel Diegues Jr.(2002), identifica: “Se do Brasil inteiro que se formou à sombra dos engenhos patriarcais de açúcar, pode-se dizer  que a água foi um dos elementos mais nobres de sua paisagem, nas Alagoas – uma terra de tantas lagoas, tantos rios, tantos riachos – a importância da água foi máxima na caracterização do complexo agrário. Muitos foram os engenhos alagoanos que, em vez de tomarem das famílias proprietárias, nomes de santos ou de mulheres, foram buscar um tanto pagãmente na água suas denominações (p.17)“.

Das milhares de famílias que dependem economicamente do molusco para sobreviver às milhares que o consomem diariamente, o sururu está presente na vida dos alagoanos de forma muito intensa. Pena que a falta de consciência ambiental coloque em risco esta verdadeira relíquia. A produção de sururu vai decaindo ano a ano.

Aliás, o sururu representa muito bem o povo alagoano: é simples, mas pode ser sofisticado, vive no ambiente lagunar (por vezes, literalmente no fundo da lama), sobrevive às dificuldades, a princípio não se dá nada por ele,  é fechado, duro por fora, mas quando se abre, vê-se que por dentro possui uma grande ternura, e, apesar das adversidades, surpreende por ter muita energia. Como canta Basílio Sé: “alagoano com cara de sururu”.

É um dos elementos da alagoanidade. Todavia, há quem, negando-se a enxergar o próprio umbigo e voltando seus olhos apenas para o que é de fora, negue a existência de traços inerentes ao povo que habita nesta terra tão singular.  Discordo destes: creio que, seja em relação a coisas boas ou ruins, temos valores tipicamente alagoanos (embora, em geral, costumemos supervalorizar apenas os negativos). Como bem diz Golbery Lessa:

Não é necessário termos consciência das singularidades do nosso sotaque para entorná-lo nas nossas conversas mais cotidianas e nos momentos mais graves, bem como não é necessário termos consciência das especificidades de vários de nossos gestos para usá-los nas situações mais comezinhas e nas cerimônias mais importantes. De fato, em qualquer sociedade a maior parte dos indivíduos passa toda a vida tendo apenas uma consciência muito limitada de suas especificidades espirituais e objetivas. Quem deseja afirmar a inexistência de uma alagoanidade precisa, antes de tudo, provar a inexistência de especificidades objetivas e subjetivas na formação social que costumamos chamar de Alagoas, não basta apontar dificuldade que o alagoano tem de reivindicar uma identidade local positiva. Tem existência real mesmo um ente que ainda não foi de uma “consciência em si” a “uma consciência para si” (fonte: http://reporteralagoas.com.br/novo/?p=39273)

O jornalista Tobias Granja, em 11 de maio de 1969 publicou em O Jornal (Rio de Janeiro) o artigo “A poesia da pesca primitiva: A pesca de sururu em Alagoas é feita com muito primitivismo”. Neste artigo, está registrado:

“Mytella falcata, molusco lamelibranquido da família dos militídeos, lembra alto muito importante pelo seu nome difícil, complicado demais para o pescador. Por isso chama apenas de sururu e nada mais. Orgulhosamente sururu, tipicamente sururu nordestino de Alagoas. Tem caracteres próprios que o diferenciam de seus parentes, como o mexilhão e o bergigão. Longe dos aspectos técnicos, é o simples e principal habitante da Lagoa Mundau, que banha a capital alagoana.

O sururu prolifera nas partes mais rasas da lagoa, dentro da lama. Vive em colônias numerosas. Cresce, engorda e sobrevive de acordo com o teor de salinidade da água, que não deve ser nem muito doce, nem muito salgada. Ideal é entre 5 e 15%. Somente as águas da lagoa Mundau, oferecem essa condição. Por isso, ali habitam com grande abundância. E a espécie de maior volume de produção do estado: vai a quase 6 toneladas ao ano.

Na exploração do sururu é desconhecido o mais insignificante processo moderno. Da pesca à distribuição, tudo se faz com muito primitivismo, como há cem anos. Aforas as canoas, tudo o mais independe de instrumentos. O trabalho começa antes do amanhecer.

Antes de surgir a madrugada, o pescador de sururu dirige-se, de canoa, ao ponto onde habita o molusco. Aproveita a maré baixa (a lagoa é ligada ao mar por um estreito canal) e inicia o ofício de cada dia. Mergulha repetidas vezes e retira da lama, com as próprias mãos, o sururu de capote. Pouco a pouco enche a canoa. Volta à praia para a lavagem. De geração em geração, do vovô ao netinho, a cena se repete: lagoa Mundaú, povoada de canoas pela madrugada de pesca, fervura e despinicamento, e venda do produto.

Sobre canoas de nomes estranhos — Palavira, Caatinga, Espalhado e outras — persiste uma civilização curiosa, diferente pelos extremos que a caracterizam: a beleza da rica paisagem e a subnutrição dos filhos, a família grudada ao incessante ritual de miséria pela sobrevivência. Nascem, crescem e morrem encerrados no mesmo ciclo do comer-para-viver e do trabalha-para-comer“. (fonte: http://jangadabrasil.com.br/revista/janeiro74/of74001b.asp)

Jorge de Lima afirmou:

“Sururus existem em quase todas as lagoas do Brasil. Porém os desta lagoa (Mundaú), devido a circunstâncias especiais explicadas pelos naturalistas, como mistura de água do mar com águas dos rios que deságuam na lagoa, e outras causas, tornam-se como que degenerados, pequenos, gordinhos, gostosíssimos” (fonte: trecho retirado do ensaio “Imaginário Sururu, um patrimônio a contrapelo”Edson Gouveia Bezerra e Ernani Viana da Silva Netto)

Djavan compôs uma bela música sobre Alagoas e a entitulou “Sururu de capote”:

Martinho da Vila também cantou que “Vai ter sururu, vai ter sururu, e o Maré fica na beira da Lagoa de Mundaú”:

Para aqueles que querem ver como se dá a retirada do sururu de seu habitat até o prato, vejam a matéria de Álvaro Garnero sobre o sururu alagoano:

“Manifesto Sururu” do sociólogo alagoano Edson Bezerra diz:

     “…O Manifesto Sururu quer muito pouco. Quem sabe um pouco mais do que exercitar um certo olhar: um olhar atento por sobre as coisas alagoanas…O manifesto sururu também fala da fome. Não da fome comum, mas da fome de devorar as Alagoas… Novas rotas. Rotas alagoanas: de canais e lagoas, sobretudo. O manifesto sururu não está sozinho… está atento para os batuques noturno dos terreiros periféricos e fora de rota e também dos milhares de capoeiras espalhados. O manifesto sururu se alegra com a folia dos meninos de rua, com os guerreiros e com as tradições alimentadas pelos povos periféricos…” . (fonte: http://caminhosdasalagoas.blogspot.com.br/2012/05/em-maceio-do-carrapato-ao-manifesto.html)

O cenário, o seu habitat:

Os catadores:

O(a)s marisqueiro(a)s:

Venda:

O preparo:

Como entrada:

Caldinho de sururu:

Sururu de capote:

Sururu ao coco:

Fritada de sururu:

Moqueca de sururu:

Sururuzada:

Requinte: Risoto de sururu

Do Bistrot Four (Maceió):

Four Bistrot - risoto de sururu refogado com uma pasta de pimentas e cozido com leite de coco

Do Restaurante Maria Antonieta (Maceió):

Referências culturais alagoanas ao sururu:

Festivais de cinema:

Primeiro grupo de stand up comedy de Alagoas:

“É da favela? Não, nega Juju

Nasceu num rancho da terra do sururu

Quadris roliços, o cabelo atrapalhado

Quem vê diz que traz feitiço no olhar apimentado

Cavando a vida no Canal do Mundaú

Pesca caboclo, maçunim e sururu

Em Bebedouro, no Farol, na Ponta Grossa

Com o sururu da nega a folia é nossa

Não há petróleo, não há porto, não há nada

O bom problema é o sururu lá na Levada”.

Aristóbulo Cardoso e Pedro Nunes – 1934

(fonte: http://carnavalalagoano.blogspot.com.br/2014/01/sururu-da-nega.html)

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