Não tenho como esconder minha admiração por dois grandes nomes da história brasileira: o escritor Graciliano Ramos e a médica Nise da Silveira, ambos alagoanos. Aliás, ao invés de esconder tal admiração, faço questão de demonstrá-la sempre que posso, tanto que os tais personagens já mereceram diversos posts deste blog:

Sobre Nise da Silveira:

https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/08/06/um-pequeno-tributo-a-maior-alagoana-talvez-brasileira-de-todos-os-tempos/

https://culturaeviagem.wordpress.com/2015/01/13/o-dia-em-que-a-alagoana-nise-da-silveira-conheceu-carl-jung-mais-um-encontro-de-genios/

Sobre Graciliano Ramos:

https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/03/08/relatorios-de-graciliano-ramos-uma-obra-prima-da-literatura-e-uma-contribuicao-inestimavel-a-gestao-publica/

https://culturaeviagem.wordpress.com/2015/01/11/o-jovem-graciliano-ramos-e-sua-primeira-entrevista-aos-17-anos-ousadia-indepedencia-e-maturidade/

https://culturaeviagem.wordpress.com/2015/06/04/auto-retrato-de-graciliano-ramos-em-poucas-palavras-conheca-quem-foi-o-mestre-graca/

https://culturaeviagem.wordpress.com/2014/06/19/maceio-nos-anos-1930-e-o-encontro-de-genios-uma-das-capitais-brasileiras-da-literatura/

Quis o destino que os maiores alagoanos de todos os tempos tenham se encontrado e se tornado amigos quando estiveram presos no Rio de Janeiro. O ano era 1936, em plena Era Vargas, período de repressão, onde pensar de forma diferente era considerado uma ameaça à Nação. O escritor, na época com 43 anos e morando em Maceió, já havia publicado Caetés e São Bernardo, exercia o cargo de Diretor da Instrução Pública de Alagoas (uma espécie de Secretário da Educação do Estado); a médica, residindo na então capital federal, com seus 31 anos, dava os primeiros passos para a revolução na psiquiatria.

O detalhe era que ambos eram simpatizantes de ideias comunistas, único “crime” que, sem qualquer processo, levou-os à prisão. Graciliano esteve em seu “cárcere” entre os dias 03 de março de 1936 e 03 de janeiro de 1937; por sua vez, Nise da Silveira esteve presa entre os dias 26 de março de 1936 e 21 de junho de 1937.

Pelo menos, durante oito meses, viveram o mesmo drama e a sofreram a mesma injustiça, que tanto influenciaram suas trajetórias.

No artigo “Graciliano Ramos e Nise da Silveira em Memórias do Cárcere”, de Elvia Bezerra, vemos como se deu o encontro entre os alagoanos:

Os dois são alagoanos e não se conheciam até que a polícia do governo Getúlio Vargas levou-os a serem vizinhos no Complexo Presidiário Frei Caneca: Nise da Silveira na Sala 4, o cárcere feminino das presas políticas, que dividiu com Olga Prestes e outras, e Graciliano Ramos, que estava preso no Pavilhão dos Primários.

A comunicação clandestina entre os dois ambientes se fazia por meio da “pororoca”, nome que a escritora capixaba Haydée Nicolussi, uma das presas, deu à barulhenta descarga do banheiro da Sala 4. Como a parede do banheiro fazia divisão com o Pavilhão, as presas cavaram um buraquinho bem ao lado da “pororoca”, criando assim uma forma de se comunicar com os vizinhos.

Mas o encontro entre Graciliano Ramos e Nise da Silveira não teve qualquer caráter de improviso. Ao contrário, tomou um caráter até solene. Verdade que a presença dela na Sala 4 deve ter chegado aos ouvidos do escritor pela “pororoca”, mas revestiu-se de uma certa gravidade no modo como ele descreve o momento em que se apresentam um ao outro, em comovente página de Memórias do cárcere.

“Numa passada larga, atingi o vão da janela: agarrei-me aos varões de ferro, olhei o exterior, zonzo, sem perceber direito por que me achava ali. Uma voz chegou-me, fraca, mas no primeiro instante não atinei com a pessoa que falava. Enxerguei o pátio, o vestíbulo, a escada já vista no dia anterior. No patamar, abaixo de meu observatório, uma cortina de lona ocultava a Praça Vermelha. Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se:

– Nise da Silveira.

Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento.

De pijama, sem sapatos, seguro à verga preta, achei-me ridículo e vazio; certamente causava impressão muito infeliz. Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me. Balbuciou imprecisões, guardou silêncio, provavelmente se arrependeu de me haver convidado para deixar-me assim confuso.”

Não foi exagero do autor de Memórias quando disse a Homero Senna: “Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia… Tenho até saudades da Colônia Correcional. Deixei lá bons amigos”. Era verdade. Nise da Silveira me contou, numa das nossas deliciosas conversas, que ele andava com seus chinelos arrastando pelos corredores em absoluta tranquilidade. Não tinha qualquer pressa em sair dali, diferentemente dela, que na noite de São João de 1936, quando foi libertada, depois de um ano e seis meses de prisão, identificava-se com os balões que via no céu, livres.” (fonte: http://www.blogdoims.com.br/ims/graciliano-ramos-e-nise-da-silveira-em-memorias-do-carcere-por-elvia-bezerra)

Em outro artigo “Nise, sua vida, sua obra…”, de José Otávio Pompeu e Silva, podemos saber mais detalhes acerca da convivência entre os dois gênios alagoanos:

Graciliano conhecia Mário Magalhães, mas nunca a havia encontrado antes. A alagoana já tinha visto ao longe Graciliano durante seu passeio preferido de visita às livrarias do Centro do Rio de Janeiro, mas só foi apresentada ao escritor na cadeia. Apesar do encontro insólito e de lamentar ver Nise da Silveira presa e afastada do trabalho de médica, a empatia entre os dois alagoanos foi imediata. Graciliano afirmou “nunca me havia aparecido criatura mais simpática” (idem). O contato entre Graciliano e Nise iniciado no Pavilhão dos Primários se intensificou na enfermaria da Casa de Correção. Nise chegou à enfermaria sofrendo de um “desarranjo nervoso, consequência provável dos interrogatórios longos. A timidez agravava-se, fugia-lhe às vezes a palavra e um desassossego verdadeiro transparecia no rosto pálido, os grandes olhos moviam-se tristes” (idem, p. 493). Graciliano chegou na enfermaria completamente arrasado, sentia-se mal, vivia com uma teimosa resistência.

Ela teve uma síncope nervosa, tendo chegado ao seu limite; talvez a presença do conterrâneo na mesma enfermaria a tenha salvo de estados mais perigosos do ser. Nise atesta a amizade que construiu com Graciliano neste duro momento da sua vida: “num período que eu passei na enfermaria e Graciliano esteve também, quando veio da Ilha, aí tive amizade mais estreita com ele”. Este momento de sofrimento psíquico em que o afeto de Graciliano a ajudou a aguentar a dor e superar a situação adversa foi decisivo na sua capacidade de alteridade, de se colocar no lugar do doente mental, a qual Nise cultivou durante toda sua posterior vida profissional. Em uma das conversas durante o tempo que passaram na enfermaria, Graciliano contou que já possuía informações sobre Nise; a escritora Raquel de Queiroz tinha elogiado a grandeza moral de Nise. Ao saber disso Nise surpreendeu Graciliano dizendo que não achava nenhum caráter em Raquel de Queiroz. Não perdoava a escritora Raquel por ter dito em um programa de rádio que Nise a acusava de ser trotskista. Este fato rememorava o episódio da expulsão do partido comunista e provocava fúria na alagoana.

Para passar o tempo no cárcere, Nise e Graciliano jogavam cartas. Graciliano não conhecia as combinações das cartas, aprendeu a jogar crapaud com Nise. Graciliano pegou gosto pelo jogo e sempre procurava um parceiro para passar o tempo com as cartas, com seu singular humor, ele escreveu em Memórias do Cárcere: “Nise deu-me as primeiras lições do jogo que iria desviar-me das letras nacionais” (Ramos, 1985, p. 494).

O passatempo predileto de Nise era imaginar filmes em cartaz, convidava Graciliano para participar com ela dessas sessões de cinema imaginário. Quando mesmo preso Graciliano Ramos lançou o livro Angústia, a esposado escritor conseguiu contrabandear alguns exemplares para dentro da prisão. O diretor da prisão, o também alagoano Major Nunes, permitiu que as prisioneiras Nise da Silveira e Eneida, juntamente com Heloisa, esposa de Graciliano, enfeitassem a cela com vasos de flores; foi preparado um almoço e Graciliano foi presenteado com uma garrafa de aguardente. Assim o livro Angústia teve seu lançamento extraoficial na prisão. Estes momentos agradáveis de conversas, jogos de baralhos, filmes imaginário se até festas permitiam que os presos mantivessem sua saúde mental. Aí aprendeu como tinha de agir no tratamento a doentes mentais: a prisão foi sua grande escola de terapêutica ocupacional. Os colegas presos políticos e os presos comuns foram os professores. Graciliano narrou que Nise o auxiliava muito a aguentar os pesadelos do encarceramento, “as conversas boas de Nise afugentavam-me a lembrança ruim. A pobre moça esquecia os próprios males e ocupava-se dos meus” (idem, p. 515). Esta faceta de terapeuta de Nise ficou imortalizada em Memórias do Cárcere: “Nise ria. Considerava-me um dos seus doentes mais preciosos” (idem, p. 508). O maior professor dessa terapêutica ocupacional que Nise aprendeu na prisão foi o velho Graciliano Ramos, descrito assim por ela (1954): “Na Casa de Correção, onde o conheci de perto, Graciliano vivia a cadeia arbitrária na maior serenidade. Nunca o vi inquietar-se sobre a possível hora da liberdade. Não se assemelhava a esses viajantes que, no trem ou no avião, se agitam em incessantes movimentos improdutivos e perguntam a cada instante: “Quando chegaremos?” Graciliano parecia um velho embarcadiço que não se importasse se o porto de desembarque estava perto ou longe. Foi por isso um companheiro ideal de prisão. A mim ajudou muito, e deve também ter ajudado a outros”.

Nise passou a ser uma importante personagem nos dois volumes de Memórias do Cárcere, mas sua participação inspiradora na obra de Graciliano Ramos não parou por aí. Graciliano Ramos saiu da prisão no dia 13 de janeiro de 1937 e logo passou a escrever um livro infantil para um concurso do Ministério da Educação. Deu o nome de Terra dos Meninos Pelados, no livro tinha a princesa Caralâmpia inspirada em Nise e no seu apelido de infância dado pelo pai para marcar o poder de imaginação da menina. Graciliano ganhou o concurso promovido pelo Ministério da Educação e Caralâmpia passou a figurar no imaginário de muitas crianças pelo mundo afora. Nise da Silveira saiu da prisão no dia 21 de junho de 1937. Diferente de Graciliano, estava sem emprego e não sabia fazer nada que pudesse dar um sustento; a ajuda de Mário Magalhães, de Zóila e de sua mãe foi decisiva neste período de sua vida.” (fonte: http://www.academia.edu/6439817/Nise_sua_vida_sua_obra)

Sobre a amizade com Graciliano após a prisão, Nise disse:

Depois eu e Graciliano nos tornamos amigos. Depois de soltos, na livraria José Olympio, havia uma saleta onde ele se reunia com amigos para conversar quase toda tarde. Eu às vezes ia lá e, quando chegava, fosse quem fosse que estivesse sentado ao lado dele, se levantava para eu sentar. ” (fonte: http://www.psicorama.com.br/emfoco_detalhe.asp?ID=19)

Ainda sobre a amizade entre os gigantes alagoanos, Nise da Silveira revelou a maravilhosa relação entre os dois:

sim, Graciliano e eu fomos muito amigos. Era uma dessa especialíssimas, raras amizades, nas quais as pessoas se comunicam de verdade, íntimo a íntimo. Nas nossas conversas, as palavras acabavam sobrando, desnecessárias, porque nos entendíamos quase de imediato, embora uma ou outra vez tivéssemos opiniões diferentes. Mais opiniões e entendimento são duas coisas bem diversas. Quando as opiniões divergem e o entendimento persiste, então a amizade é segura e tranquila. Sendo assim, está claro que nunca achei Graciliano um sujeito esquisito, como diziam alguns. ” (artigo Doze personagens falam de um autor. Revista Manchete, Bloch Editores, n. 90, p.24-27, entrevista concedida a Darwin Brandão, 1954.)

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